Em cartaz: um ‘deus’ criado à imagem e semelhança de homens

'É mais do que hora de quem não se curva ao deus homem, branco, privilegiado, se inspirar na ação do Deus Criador', escreve Magali Cunha

Presidente Jair Bolsonaro com apoiadores. Foto: EVARISTO SA / AFP

Presidente Jair Bolsonaro com apoiadores. Foto: EVARISTO SA / AFP

Diálogos da Fé

Sim, Deus está em cartaz nas disputas de mídias digitais do Brasil e quem primeiro o colocou nesta alta foram grupos políticos. O auge foi o ano de 2016, quando no domingo, 17 de abril, foi votado o processo de impeachment da presidente Dilma Rousseff na Câmara dos Deputados.

 

 

“Nunca na história deste país” o nome de deus foi tantas vezes pronunciado numa única sessão parlamentar. Naquele momento, que já entrou para a história como uma das maiores fraudes sofridas pela democracia brasileira, foram contabilizadas 58 menções a deus nas falas de 46 deputados federais (quase 10% da Câmara).

O próprio presidente da Câmara, o evangélico Eduardo Cunha (à época MDB/RJ), naquele mesmo ano cassado por corrupção, evocou deus ao dar o “sim” ao impeachment, que ajudou a conduzir: “Que deus tenha misericórdia desta Nação”. E deus viralizou nas mídias digitais.

Daquele ano até o presente, deus nunca deixou de estar em cartaz, seja em disputas eleitorais, seja em contendas culturais, como nos especiais de Natal lançados pelos comediantes do grupo Porta dos Fundos. Porém, foi a partir das eleições de 2018 e da posse do eleito em 2019, que deus ganhou uma vaga no topo da vida pública nacional: de slogan de campanha eleitoral passou a lema de governo: “Brasil acima de tudo, deus acima de todos”.

Nesta campanha eleitoral, de 2020, deus mantém sua posição de destaque: o mandatário, por exemplo, foi a Pernambuco no mês de outubro e pediu a eleitores para “caprichar para escolher prefeito e vereador. Vamos escolher gente que tenha deus no coração, que tenha na alma patriotismo e queira de verdade o bem do próximo; deus, pátria e família”.

Entre os que se identificam com deus desta forma, observa-se um padrão: são grande maioria de homens, são brancos, comprometidos, em sua atuação na vida pública, com pautas moralistas em relação aos corpos da população, mas não em relação ao mau uso do recursos públicos. São engajados na desregulamentação da economia pró-mercado; defensores de uma política de segurança mais autoritária e repressiva, como reconheceu o Prof. Ronaldo Almeida, no artigo “Os deuses do parlamento” (Novos Estudos Cebrap, 2017).

Esta apresentação de deus conta com a bênção de líderes cristãos que se identificam com ela e a reproduzem em suas igrejas e programas nas mídias.

O deus que está ao lado de dominantes e seu lucro: que se omite quanto à queima das matas para que a terra seja transformada em pasto para bois que serão imolados por donos em frigoríficos; que concorda com a derrubada das florestas por madeireiras e a tomada de terras indígenas e quilombolas por construtoras e mineradoras.

O deus que se regozija com empresários e banqueiros: que atua para reduzir gastos públicos com necessidades básicas da população e para reduzir direitos de trabalhadores e aposentados e lucrar muito com isso. O deus que controla a sexualidade e o prazer de mulheres e pessoas homoafetivas e consente o abuso e a violência contra estes mesmos corpos.

O deus que condena quem participa de festas de carnaval e de Halloween enquanto permite as 160 mil mortes e os mais de cinco milhões e meio de contaminados (números por baixo) de Covid-19 no país.

Este é o deus, de fato, acima de todos. Dominante, vigilante, vingativo, frequentador de palácios, mas ao mesmo tempo, controlado, submisso aos desejos dos seus criadores, que se deleitam com as vantagens que conseguem em seu nome.

Nestes dias, grupos de criadores e controladores de deus andam em disputa nas mídias sociais pela interpretação da Bíblia, livro sagrado e orientador da fé de cristãos, para que ela seja lida na afirmação desse deus.

Mais uma vez, o ponto central da contenda é a sexualidade humana e o desejo da controlá-la. Para isso, selecionam ideologicamente textos que justificariam o domínio dos homens, dos brancos, dos privilegiados. Silenciam sobre os demais e mais ainda sobre o contraditório presente nas páginas da Bíblia que revela mais da dinâmica da vida do que se permitem reconhecer.

Tudo isso faz lembrar da conhecida história da Bíblia, a Torre de Babel, sobre o que já escrevi neste espaço. É uma narrativa sobre o início da vida humana em sociedade. Um grupo desejou se tornar célebre e poderoso e planejou a construção de uma cidade e de uma torre que chegaria aos céus, concentrando-se naquele lugar para dominar sobre outros.

Ele se colocaria na altura do Deus Criador e controlaria outros grupos humanos. O projeto do Criador, baseado em comunhão e harmonia em meio às diferenças, havia sido corrompido. Isso se torna evidente quando a narrativa revela o contexto do plano do grupo: “Em toda a terra havia apenas uma linguagem e uma maneira de falar”. Uma unidade imposta pelo projeto de dominação e concentração: uma única e uniforme maneira de falar, a linguagem que torna possível o poder de uns sobre outros.

O texto narra que Deus então disse: “‘Desçamos e confundamos ali a linguagem desta cidade, para que um não entenda a linguagem de outro”. Assim, “o Senhor dispersou o grupo pela superfície da terra e cessou de edificar a cidade e foi dado a ela o nome Babel”.

Com isso, Deus dispersou e confundiu a ideia de linguagem única, do controle e da dominação, e garantiu a diversidade. É assim que se realiza o projeto do Criador para a humanidade e não na língua única dos que se colocam na altura de Deus e contribuem para desumanizar o mundo.

Pois é… de igual forma há muitos usando deus hoje no parlamento, no governo, nos tribunais e transformando o Brasil numa Babel. Gente que não admite diversidade e apregoa uma interpretação e uma linguagem única para controlar e dominar. É mais do que hora de quem não se curva ao deus homem, branco, privilegiado, se inspirar na ação do Deus Criador, este da diversidade, da graça, das transformações, das atualizações, que dá voz aos silenciados, dá valor às diferenças, potencializa ações e palavras que humanizam e libertam.

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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