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É Natal! Pela graça de Deus, a história se repete

A memória de Jesus menino, nascido em lugar pobre e entre os pobres, deve estar mais presente do que nunca

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Está chegando o Natal!

Mais uma vez, cristãos do mundo inteiro terão a oportunidade de se voltarem à originalidade do cristianismo, que tem sua primeira manifestação na criança nascida em Belém, cidade de Davi, na Judéia.

Ao fazermos leitura da história do nascimento de Jesus registrada no Evangelho de Lucas (2,1-40) ficamos cientes de que o imperador publicara um decreto ordenando o recenseamento em todo o império. Todos deveriam registrar-se, cada um em sua cidade natal. Tal decreto fazia parte do processo de dominação que objetivava determinar quantas pessoas deveriam pagar tributos ao império.

José, carpinteiro por profissão, era da “família e descendência de Davi” e teve que “subir da cidade de Nazaré, na Galiléia, para a cidade de Davi, chamada Belém, na Judéia, para se registrar com Maria, sua esposa que estava grávida”. Durante a permanência em Belém, os dias para o parto se completaram e “Maria deu à luz o seu filho primogênito. Ela o enfaixou e o colocou na manjedoura, pois não havia lugar para eles na hospedaria”.

Foi em meio a um projeto de dominação que nasceu Jesus, o Messias, que desde o primeiro instante de sua vida se identifica com os pobres. Os primeiros a serem notificados sobre o nascimento de Jesus foram os pobres e marginalizados, representados no contexto histórico da narrativa pelos pastores que se encontravam acampados na região, cuidando de seus rebanhos. Impossibilitados de cumprirem com todas as exigências impostas pela Lei, os pastores eram desprezados pela classe dominante da época. O mesmo se dá neste Natal. Não apenas nas imediações de Belém da Judéia, mas em todos os rincões onde dois ou mais estiverem reunidos para celebrar com amor, fé e esperança a chegada do “puer aeternus”, a “eterna criança”.

É para os pobres, os marginalizados, os desprezados que vivem jogados nas ruas das grandes cidades, para os que sofrem perseguições no campo, para os indígenas que estão sendo dizimados pela ganância de grandes proprietários de terras que contam com a conivência do governo, para as vítimas de perseguições políticas e de armações judiciárias arquitetadas por um sistema que os enxerga como inimigos e para os milhares de homens e mulheres que não têm seus direitos elementares respeitados por um sistema neoliberal que, além de trata-los como um estorvo para a sociedade, ainda tenta arrancar-lhes as mínimas condições que têm para sobreviverem. Serão esses os primeiros a anunciarem a chegada do Salvador, do Messias, do Senhor.

 

Jesus, o Menino Deus, é o Messias, porque traz consigo o Espírito do Criador, que convoca homens e mulheres para uma relação de justiça e amor fraterno (cf. Is 11,1-9). É o Senhor, porque alcança vitória ante todas as barreiras e conduz a todos dentro de uma nova história. E é o Salvador, porque traz a libertação definitiva.

O Messias nasceu como um dominado num lugar pobre, entre os pobres e para os pobres com uma missão: ser sinal de contradição, ou seja, julgamento para os ricos e poderosos e libertação para os pobres e oprimidos (Lc 6,20-26). É o velho Simeão que nos anuncia esta verdade. E até nossos dias, Ele, o Menino Deus que se fez homem em meio a nós, continua sendo sinal de contradição.

No Evangelho de Lucas, fica claro que a missão de Jesus em toda sua plenitude decorre de sua relação filial com o Pai, o que significa dizer que essa missão é proveniente do mistério de Deus em si e da realização de sua vontade entre os homens. Todavia, ela se desenvolve e se realiza dentro do mistério da Encarnação, no qual Jesus, com o decorrer do tempo, vai aprendendo a viver a vida humana como qualquer outro homem. Devemos – e isso é muito importante -, ter claro que Jesus não é somente filho da história humana. Ele é o filho de Deus, o Deus que está conosco é Emanuel.

Jesus (Deus salva) dá início a uma nova história na qual os homens serão salvos de tudo aquilo que diminui ou destrói a vida e a liberdade. Pela datação histórica que o evangelista apresenta (Lc 3, 1-2), a soberania e a autoridade de Jesus são postas em contraste com as autoridades religiosas e os reis terrestres. Cabe aqui ressaltar que o movimento profundo da história não se desenvolve no plano das aparências da história oficial. É Jesus quem realiza o destino do mundo, dando à história o seu verdadeiro sentido.

Dissemos anteriormente que Jesus foi e continua sendo sinal de contradição. A maior prova disso está na arrogante tentativa de manipulá-lo, acorrentá-lo, torná-lo exclusivo sob determinada denominação religiosa, usá-lo como instrumento para manipular pessoas através de mentiras, fanatismos e fundamentalismos e de transformá-lo em “cabo eleitoral” posto em prática por muitos homens e mulheres. Já vivemos eras em nossa história nas quais pessoas inescrupulosas tentaram fazer o mesmo, objetivando se perpetuarem no poder impondo suas vontades nos campos político, social, econômico e religioso.

Usando deliberadamente e desavergonhadamente o nome de Jesus, impuseram miséria, dor e sofrimento a milhares de pessoas, enquanto enchiam seus cofres com fortunas incalculáveis. Mas isso não bastava! O ouro acumulado não era o bastante. O que queriam – e continuam querendo -, é firmarem-se no poder político das nações para, aí sim, com dinheiro e poder de decisão, imporem suas vontades sobre os pobres dominados e marginalizados.

Você pode perguntar: mas como fazem isso? Como utilizam o nome de Jesus para alcançarem seus objetivos? Ora meus amigos, a coisa é simples – e ao mesmo tempo complexa. Não são poucos os cientistas sociais, filósofos, teólogos, antropólogos e historiadores dentre outros acadêmicos e intelectuais, que há tempos vêm escrevendo artigos e livros obre a questão da proliferação de Igrejas Evangélicas que se destinam, sobremaneira, a serem usadas por determinados partidos políticos e seus representantes com o objetivo de lograrem êxito eleitoral para os mais diversos cargos. Inclusive o de presidente da República.

O jornal O Globo do dia 18 de dezembro, na coluna de Gustavo Schmitt, estampava a seguinte manchete: “Igrejas evangélicas vão ajudar na coleta de assinaturas para partido de Bolsonaro”. E como subtítulo da matéria: “Religiosos de distintas denominações vão apoiar o processo de formalização da nova sigla”.

Devemos confessar que num primeiro momento não vimos na chamada jornalística nada que nos surpreendesse, afinal de contas, nas últimas eleições inúmeros eleitos para as Câmaras Municipais, Assembleias Legislativas e o Congresso Nacional são oriundos dos meios religiosos ou – e isso é muito fácil de se verificar -, fizeram uso deles para alcançarem seus objetivos políticos.

Contudo, ao nos determos um pouco mais na leitura do texto jornalístico, nos deparamos com esta pérola: “Com pouco menos de quatro meses para ser criado a tempo das eleições municipais de 2020, o Aliança pelo Brasil, futuro partido do presidente Jair Bolsonaro, encontrou forte apoio de lideranças evangélicas na tarefa de coletar as 491 mil assinaturas exigidas para lançar a legenda. Do presidente da Confederação dos Conselhos de Pastores do Brasil (Concepab), bispo Robson Rodovalho, ao presidente da Frente Parlamentar Evangélica, Silas Câmara (Republicanos-AM), religiosos de distintas denominações estão dispostos a apoiar o processo de formalização da nova sigla.”

Na sequência, fomos remetidos à matéria de Bela Megale publicada no dia 17 de dezembro sob o título: “Partido de Bolsonaro aposta em militares e igrejas para angariar assinaturas”. O texto dizia: “O Aliança pelo Brasil, partido em fundação para abrigar o presidente Jair Bolsonaro, está apostando suas fichas nos militares para angariar boa parte das 492 mil assinaturas que precisa para se tornar realidade. O 2º vice-presidente da legenda, Luís Felipe Belmonte, está em contato com entidades militares que se comprometeram em buscar assinaturas físicas de apoio à sigla. A expectativa dele é que, até a próxima semana, as instituições oficializem apoio à criação da legenda. Segundo Belmonte, essas instituições reúnem cerca de 900 mil militares da ativa e da reserva espalhados em mais de 5 mil municípios. O 2º vice-presidente também está conversando com entidades cristãs e evangélicas. A ideia é que lideranças religiosas ajudem a angariar assinaturas físicas em apoio ao partido. A meta é alta, cerca de 12 mil assinaturas por dia”.

Não é fácil digerir notícias como estas. Ainda mais na época do ano em que nos encontramos em preparação para o Natal, para a chegada da “Eterna Criança”, o Emanuel, o Messias, aquele que pregou e viveu o oposto do que pregam e defendem as pessoas que pretendem, ao lado do senhor Jair Bolsonaro, um homem que afirmou categoricamente – como pode ser verificado nesta matéria de CartaCapital – que é a favor da tortura e que a ditadura errou em torturar e não matar; que é a favor da ditadura e de um regime de exceção; que a mulher é um ser inferior que deve ter salários menores porque engravida; que defende a guerra civil como único meio de mudança para o país, mesmo que morram inocentes; que o policial que matar pessoas com muitos tiros deve ser condecorado; que odeia os gays; que os índios deviam comer capim para manter suas origens; que se referiu ao negros quilombolas como animais ao dizer que pesam arrobas e não servem pra nada; que os imigrantes são a escória do mundo que está chegando ao Brasil; e para fechar com chave de ouro, trazemos a íntegra de uma de suas falas: “Somos um país cristão. Não existe essa historinha de Estado laico, não. O Estado é cristão. Vamos fazer o Brasil para as maiorias. As minorias têm que se curvar às maiorias. As minorias se adequam ou simplesmente desaparecem”.

Como uma pessoa que acredita e defende essas coisas pode se proclamar cristã? Como pessoas que ocupam lugares de pastoreio em igrejas diversas, podem fechar os olhos e apoiarem –como “cristãos” -, a quem defende tais pensamentos e práticas? A absurda afirmação “Deus acima de todos” com toda sua carga fascista já era suficiente para entendermos que o nome de Deus estava sendo usado em vão. E agora, às vésperas do Natal, nós, povo brasileiro somos “presenteados” com a criação de um novo partido político carregado de preconceitos, ódio e rancores. E, pelo que podemos inferir das reportagens acima apontadas, dentre os responsáveis por este “presente” estão muitos daqueles que ousam falar “em nome de Jesus” e ao mesmo tempo defendem e apoiam o fascismo.

Em resposta a tudo isso, devemos manter vivo em nossa memória que “Jesus nasceu num lugar pobre, entre os pobres e para os pobres”, e que ele escolheu viver entre os marginalizados e desprezados pelos poderosos, fazendo-se amigo de prostitutas, pecadores, excluídos pelos sistemas político e religioso e que – pasmem vocês -, como bem definiu Marcelo Freixo: “amou um ladrão condenado à morte pelo sistema jurídico de então, a ponto de levá-lo para sua casa – “Eu lhe asseguro: hoje mesmo você estará comigo no Paraíso” (Lc 23, 43).

Cientes de tudo isso, temos o Natal a celebrar em toda sua plenitude. O Natal da esperança que nos faz enxergar em cada pessoa a “Eterna Criança” que mais uma vez se faz presente em nosso meio, sendo ela mesma o “grande presente” que nos é ofertado pelo Pai, para nos ensinar a partilhar o amor com toda a força que possui, sem nunca desistirmos ou nos acovardarmos diante das dificuldades que a vida nos apresenta.

É imprescindível termos a clareza – e sobre isso nos tem falado incansavelmente o Papa Francisco -, que o que mais nos aproxima de Jesus é a misericórdia, a compaixão e o amor, bem como a defesa da justiça social para todos, e o entendimento de que a história da salvação se desenvolve no interior da história humana, intrinsicamente a ela condicionada. E, a história humana não exclui ninguém. Ao contrário, reúne a todos e todas numa única trajetória histórica.

Fazendo coro com as vozes de Leonardo Boff e Frei Betto, afirmamos que viver o Natal é viver a gratuidade da vida resgatando toda a esperança; viver o amor profundo, as amizades sólidas abrindo-nos à utopia e a outros mundos possíveis.

É bem verdade que vivemos um tempo de crises diversas que por vezes tentam nos abater. Mas, devemos nos lembrar a cada momento da esperança anunciada por Jesus ao nos ensinar que o Reino de Deus é algo que não está distante, nos esperando após termos cumprido nossa jornada nesta vida, mas que se inicia e deve ser realizado aqui. Acreditando nesta verdade seguimos em frente firmes e confiantes de que não estamos sós. Conosco caminha a verdadeira luz, o verdadeiro amor, a verdadeira esperança que jamais nos abandonará.

Como dissemos antes, Jesus (Deus salva) dá início a uma nova história na qual os homens serão salvos de tudo aquilo que diminui ou destrói a vida e a liberdade. Que neste Natal, seja assim.

Que Ele, o Menino Deus, a Eterna Criança mantenha viva em nós a coragem de seguirmos em frente, de esperança em esperança na esperança sempre.

Tenham todos um Feliz e Santo Natal!

Professor Waldir Augusti

Professor Waldir Augusti É licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia. Escritor, agente de pastoral, assessor de movimentos sociais, gestor da Rede de Escolas de Cidadania de São Paulo.

Padre Ticão

Padre Ticão Pároco da Paróquia São Francisco de Assis de Ermelino Matarazzo, Diocese de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo-SP. Importante liderança dos Movimentos e Pastorais Sociais da região, atua nas mais diversas áreas em defesa de Políticas Públicas que atendam efetivamente às necessidades da população.

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