Diálogos da Fé

Deus não tem representantes no STF

André Mendonça e Michelle Bolsonaro são religiosos identificados com a corrente monárquica do Antigo Testamento

Foto:Isaac Amorim/MJSP
Foto:Isaac Amorim/MJSP

No segundo domingo de dezembro, comunidades evangélicas tradicionalmente celebram o Dia da Bíblia. Hoje, me peguei refletindo sobre a aproximação da data, a fascinação que tenho pelo livro sagrado, a polvorosa discussão sobre a aprovação do ex-ministro do governo de Jair Bolsonaro, o pastor presbiteriano André Mendonça, para o Supremo Tribunal Federal e o vídeo da comemoração da primeira-dama.

A Bíblia é um conjunto de escritos com belíssimas narrativas, leis sociais religiosas, poesias e ensinamentos produzidos por pessoas de diferentes origens (a maioria delas muito simples), em distintas épocas e locais. É uma variedade de abordagens que tem como tema a ação libertadora de Deus na história, como Criador do mundo, e sua revelação mais significativa: a pessoa de Jesus, nascido de mulher, numa família pobre, da periferia daquele tempo e lugar.

Uma das características mais interessantes dos textos bíblicos é que eles não descartam as contradições humanas: estão todas ali nas situações as mais distintas, registradas a partir de diferentes formas de interpretar a fé e a vontade divina. Há quem critique a existência de contradições na Bíblia. Sim, há, e aí está a beleza de seu conteúdo. A crueza das contradições humanas e a consequente tentativa de manipular Deus estão lá. Acho fascinante!

O que une as diferentes perspectivas de estudo é que com toda esta diversidade de gêneros literários e interpretações, há um ponto comum: o amor de Deus pelo mundo, e a revelação de sua vontade nas palavras e ações dos profetas, realizadas na pessoa de Jesus. Quando há dúvida entre um ou outro texto mais controverso ou “incoerente”, leitores e leitoras perspicazes sabem que é nas palavras e atitudes atribuídas aos profetas e a Jesus que se encontram os pontos centrais de orientação para se viver a fé de forma coerente e comprometida.

A pauta do amor de Deus pelo mundo, encarnado em Jesus, é justiça, despojamento e misericórdia. É a preferência às minorias, chamadas de “pequeninos”: os pobres, as crianças, as mulheres, os desprezados, os presos, os estrangeiros. É uma ética que nega e enfrenta a violência e a desigualdade, o acúmulo e a exploração.

O que isto tem a ver com André Mendonça no STF e a comemoração de Michelle Bolsonaro?

É que, no meu aprendizado sobre a Bíblia, compreendi que Deus sempre foi usado para justificar ações políticas. Isto está registrado em vários relatos contidos no Antigo Testamento. Por exemplo: quando uma parcela do povo de Israel decidiu deixar o regime tribal e estabelecer uma monarquia, houve quem dissesse que esta nova articulação era a vontade Deus e houve quem fosse contra, também em nome de Deus. As duas posições estão contidas no mesmo trecho da Bíblia e saem da boca do mesmo líder religioso.

Ocorre que a monarquia foi instalada e deu tudo errado. Houve muita opressão, corrupção, dominação e controle por outros povos. E novos relatos registravam que Deus agia para apoiar e corrigir o rumo dos reis, ao mesmo tempo em que outros textos indicavam a condenação do regime pelo mesmo Deus. As duas correntes percorrem todo o Antigo Testamento da Bíblia.

O Novo Testamento passa a estabelecer um parâmetro para cristãos e cristãs. A monarquia estava a serviço do Império Romano, oprimindo, explorando, perseguindo, apesar de ser interpretada, por líderes religiosos, como vontade de Deus. Jesus aparece para realçar as palavras dos profetas questionadores do regime, para apregoar um governo, de fato, coerente com o desejo de Deus (Reino de Deus) que, além de comida, bebida, saúde e salário justo (tudo contido nas histórias que ele contava), é vida em comunidade, partilha, sem que nada falte para ninguém. Por isso Jesus foi preso, torturado e morto pelos governantes que diziam agir em nome de deus.

André Mendonça e Michelle Bolsonaro são religiosos identificados com a corrente monárquica do Antigo Testamento, que relacionam deus a projetos e interesses de poder político. A comemoração da primeira-dama expressa nitidamente isto.

Com essa forma de interpretar o mundo, a religião se torna resposta aos objetivos políticos e/ou econômicos de pessoas ou grupos. Isso ganha força numa atmosfera social presente em que pessoas se movem cada vez mais pela emoção. Neste clima, usa-se muito pouco a reflexão e a razão e prevalece a lógica simplista das respostas imediatistas.

Sai fortalecida a compreensão de que deus (assim mesmo: com minúsculas!) age a partir do que os fiéis desejam que aconteça (a confissão positiva, a determinação do “tá amarrado” ou “deus no controle”). É assim que se constrói a leitura de que Jair Bolsonaro está no poder por desejo de deus e que André Mendonça foi aprovado graças ao mesmo deus, glorificado nas palavras de Michelle Bolsonaro.

Para essa instrumentalização de Deus, vale lembrar a palavra do profeta Isaías na Bíblia: “… os meus pensamentos não são os pensamentos de vocês nem os seus caminhos são os meus caminhos, diz o Senhor. Assim como os céus são mais altos do que a terra, também os meus caminhos são mais altos do que os seus caminhos e os meus pensamentos mais altos do que os seus pensamentos” (58.8-9).

Do conjunto fascinante de textos da Bíblia, aprendemos que é fácil tentar fazer de Deus a imagem e semelhança de pessoas e grupos. No entanto, Deus é maior e mais do que tudo o que somos e temos. A forma como Deus se revelou ao mundo, segundo esses escritos, materializada na pessoa de Jesus, que foi todo amor, misericórdia, paz, respeito, inclusão, despojamento, é incompatível com muitos projetos humanos. Há quem prefira um deus autoritário, dominador, general de exércitos, sustentador de torturadores e milicianos… Esse deus pode ser seguido e anunciado por políticos e seus apoiadores, mas não é aquele mostrado por Jesus.

Este tempo de Advento, as quatro semanas de espera da celebração do Natal, que inclui o Dia da Bíblia, pode servir para se refazer compreensões e superar equívocos e, de quebra, renovar a busca do que mais importa para o Deus encarnado segundo os Escritos Sagrados: a justiça com paz. E todas as demais coisas serão acrescentadas.

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