Deus não quer que você arruíne a sua vida – e nem a do outro

Minimizar uma doença, furar as quarentenas para prevenir a proliferação são maneiras de destruir a nossa vida, o que seria um pecado

Foto: Vicenzo Pinto/AFP

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Toda a humanidade está apavorada com o novo coronavírus, que surgiu na China e se espalhou pelo mundo todo. Segundo as estatísticas, há países que já superaram o epicentro do vírus em números de casos confirmados. Os EUA e a Itália são os países que infelizmente vivem esta tragédia de saúde. As informações técnicas sobre o novo coronavírus e seus efeitos podem ser adquiridas na internet facilmente, por isso aqui não reproduzi-las-ei.

Estamos diante de uma pandemia que por enquanto não tem vacina nem remédio. Por isso devemos tomar mais cuidado possível para que ela não se prolifere mais rápido. Para isto, deve-se seguir as orientações das autoridades e não minimizar o caso como uma simples gripe, pois para quem tem alguma doença preexistente, a covid-19 pode ser letal. Alguns casos mostraram que não é necessária uma doença preexistente. Por isso, quanto mais cuidado, melhor é.

O Alcorão afirma que o ser humano é criado de forma perfeita (Alcorão 95:4), mas ele tem suas fraquezas (Alcorão 4:28). Estas fraquezas podem ser tratadas em dois tópicos: fraquezas físicas, naquilo que tange ao seu ser material, o corpo; e as fraquezas espirituais, tendência aos pecados. Em relação ao nosso tema aqui, vamos falar sobre as fraquezas físicas.

O ser humano tende a se achar autossuficiente e, com isso, esquecer que há um Criador Todo Poderoso, de quem o próprio humano depende. Então, para que não se caia na arrogância, Deus criou coisas que fazem com que o ser humano perceba a sua incapacidade diante de coisas e se direcione a Ele mesmo. Isto é uma forma de educar, e não é para um castigo neste mundo. É claro, há quem seja humilde e mesmo assim sofra com problemas que para muitos são invencíveis, mas isto é o tema de outro artigo que está por vir.

Como observamos hoje em dia, o ser humano é capaz de ficar sem solução e saída diante de um vírus muito menor que ele mesmo. Porém, seguindo a experiência dos antepassados e até as nossas próprias, tomamos algumas providências para que, ao menos, a proliferação seja mais lenta. Por isso, estamos em confinamento social para prevenir a possível contaminação. Mas se Deus criou as doenças, isso deve fazer parte dos planos d’Ele. Então, estamos fugindo dos planos de Deus?

Certa vez, o califa Umar ibn al-Khattab estava viajando para Damasco. Quando ele estava perto do seu destino descobriu que havia uma pandemia lá e tomou a decisão de não entrar na cidade e voltar para Medina. Um de seus companheiros perguntou: “Ó líder dos crentes, você está fugindo do destino que Deus prescreveu?” A resposta de Umar é marcante e tem bons ensinamentos: “Sim, estou fugindo do destino prescrito por Deus ao destino por Ele prescrito.” Depois disso ele relatou um hadice do profeta Muhammad, a saber: “Quando ficarem sabendo que há pandemia em um lugar, não entrem lá. E se surgir uma pandemia no local onde vocês moram, não saiam de lá.”

O hadice do profeta nos ensina, desde 1400 para cá, a maneira como devemos tratar as questões relacionadas às pandemias. Sim, elas são parte dos planos de Deus, mas o mesmo Deus deu a capacidade de pensar para que o ser humano opte entre o certo e o errado. Portanto, tomar providências para prevenir uma pandemia não é fugir do que Deus predestinou. Pelo contrário, é cuidar do corpo que Ele confiou a nós nesta vida.

Quero terminar o artigo de hoje com um versículo do Alcorão e uma breve reflexão sobre ele: “[…] não arruínem as suas vidas com as próprias mãos.” (Alcorão 2:195). Minimizar uma doença, furar as quarentenas para prevenir a proliferação são maneiras de arruinar a nossa vida, o que seria um pecado. “Contribuir” na proliferação e causar transmissão do vírus para os outros é um pecado em dobro, pois, além de arruinar a nossa própria vida, arruinamos a de outra pessoa também.

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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