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Declarações de Bolsonaro preocupam os soropositivos

Diálogos da Fé

Em uma entrevista antiga, Jair Bolsonaro fala que o Estado não deve custear os medicamentos antirretrovirais para os portadores de HIV e afirma textualmente: “Não é problema meu”.

Ao falar sobre o uso da camisinha, o candidato defende que não se deve usar dinheiro do Estado pra tratar de quem contrai doenças em atos sexuais, classificando a população gay como grupo de risco.

Nas palavras do próprio Bolsonaro, “uma pessoa que vive na vida mundana depois vai querer cobrar do poder público um tratamento que é caro.”

Atualmente, a rede pública de saúde custeia todos os gastos com medicamentos para HIV no Brasil. O SUS distribui gratuitamente o coquetel antiaids para todos que necessitam de tratamento desde 1996.

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José Serra, então ministro da Saúde, comprou uma verdadeira briga com a indústria farmacêutica, ameaçando quebrar patentes de remédios e utilizar as fábricas estatais de medicamentos para a produção de genéricos. Um grande feito da era FHC que trouxe um impacto indiscutível no tratamento da Aids e na qualidade de vida de quem vive com o HIV.

Uma estimativa do Ministério da Saúde avalia que existam cerca 830 mil portadores de HIV no País. Entre eles, 84% são diagnosticadas e 74% estão em tratamento. Com esses índices, o programa criado no governo de Fernando Henrique Cardoso, mantido e ampliado nas gestões de Lula e Dilma, transformou o Brasil em referência mundial em tratamento e prevenção de HIV.

Em 2010, o então deputado federal Jair Bolsonaro falou ao programa CQC a respeito das declarações do papa sobre o uso da camisinha e polemizou em relação aos casos de HIV.

Reportava-se, obviamente, à população homossexual, que sempre fez questão de execrar e combater. Para Bolsonaro, estes são culpados por contrair o vírus, por isso não podem posteriormente querer que o Estado custeie seu tratamento, não tendo o direito de usar o dinheiro público.

Milhares que dependem desse tratamento têm sérios motivos pra se preocupar. O candidato demonstra o quanto é desinformado a respeito dos grupos e dos comportamentos mais vulneráveis à contaminação e reforça os estigmas relacionados à Aids, uma vez que associa o risco de contrair HIV a uma vida desregrada e condenável de acordo com seus valores morais.

Sobre o tratamento de HIV, Bolsonaro chegou a dizer que “o Estado deve tratar de doentes infortúnios e não de vagabundos que se drogam ou adquirem Aids por vadiagem”.

Pensar nos significados dessas declarações implica um questionamento de quaisquer programas de saúde pública. Não se pode simplificar uma questão dessa gravidade, tratando-a com base numa moralidade claramente homofóbica e excludente.

Prevenção e tratamento de HIV/Aids é uma questão de saúde pública e suspender essa intervenção em infectados seria assumir o risco de aumentar consideravelmente a transmissão e levar a epidemia a níveis incontroláveis.

Qualquer programa de governo deve considerar essas questões e não pode deixar nenhuma margem de dúvida sobre o que pretende fazer a esse respeito.

Milhares de vidas estão em jogo e cidadãos, que contribuem com a União por meio de seus impostos, têm direito a receber tratamento digno, independentemente de sua orientação sexual. A população LGBT não pode ser tratada como de segunda categoria.

Nas comunidades tradicionais de terreiro da cidade de São Paulo, a prevenção de DST/Aids tem observado e incluído, por meio de projetos específicos, as mudanças no perfil da doença.

Essas interfaces foram fundamentais, assim como a introdução de novas estratégias de cuidados para grupos com pouca visibilidade nos serviços de saúde, como é o caso dos adeptos do candomblé.

Há alguns anos, o Projeto Xirê promove rodas de conversas entre lideranças do candomblé e da umbanda e agentes municipais da saúde.

A proposta de trabalho procura integrar, por meio da multidisciplinaridade, as comunidades tradicionais de terreiro e o SUS para dar uma resposta conjunta e solidária à epidemia.

Além de ser uma proposta educativa político-pedagógica, o Projeto Xirê é um ensaio metodológico que pretende construir caminhos e criar redes de solidariedade que integrem todas as regiões da cidade e junte diferentes atores, conhecimentos e filosofias.

Enfrentar as questões relacionadas à vulnerabilidade dos portadores é uma necessidade de toda a sociedade e do Estado. Contudo, as religiões de matriz africana, por meio dessa relação com o SUS, introduzem na pauta aspectos étnico-raciais e valores civilizatórios da diáspora que podem interferir no processo saúde-doença-cuidado.

Não há dúvida de que os estigmas relacionados ao HIV são base para todos os pressupostos implícitos ou explícitos nas declarações de Bolsonaro.

Somem-se a isso os quesitos cor, raça, etnia e religião e teremos a ampliação de todos os preconceitos, discriminações e intolerância.

A suspensão do tratamento do HIV não pode sequer ser cogitada. O ideal seria ampliar os programas e promover uma aproximação das religiões afro-brasileiras com as diversas ações existentes, estabelecendo uma rede de prevenção e assistência, integrando os recursos do SUS aos saberes dos terreiros.

Essa troca de conhecimentos entre os profissionais de saúde e a comunidades afro-religiosas seria uma forma de reconhece-las como núcleos de promoção de saúde, reforçando sua identidade cultural e oferecendo informação para superar as vulnerabilidades do grupo específico e da sociedade como um todo.

Você conhece algum soropositivo? Alguém que morreu em decorrência da Aids? Sabe o quanto antirretrovirais são essenciais para a manutenção da qualidade de vida de milhares? O quanto são caros?

Caso o candidato seja eleito e leve adiante a ideia de extinguir ou mesmo restringir a distribuição dos remédios, imagine quantos não terão condições de fazer o tratamento e morrerão.

Esse programa é essencial. Portanto, deve ser resguardado como um valor primordial em uma sociedade justa e solidária, não podendo estar à mercê da irresponsabilidade de quem acha que a Aids é um mal ligado somente a homossexuais.

Para quem acredita que um gay deve ter menos direitos que os demais cidadãos, é preciso mostrar que ninguém merece morrer sem receber do Estado tratamento adequado, que mantenha não somente sua vida enquanto possível, mas respeite integralmente sua dignidade.

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