Cosme, Damião e a infância perdida nos morros e becos deste Brasil

É triste, é trágico, mas há quem defenda a ação criminosa do Estado, há quem confunda pobreza com criminalidade

Cosme, Damião e Doum

Cosme, Damião e Doum

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Setembro deveria trazer as flores e as cores da Primavera. Era pra ser um mês festivo e alegre, mas neste ano veio marcado por uma dor profunda, que tomou conta de um Brasil que ainda consegue se indignar com os desmandos daqueles que deveriam proteger e zelar pela vida da população, principalmente a mais carente. Eu não sei se Ágatha era católica, crente, espírita, budista ou umbandista, mas agora isso pouco importa. Ágatha foi assassinada pela Polícia Militar do Rio de Janeiro em razão da política de segurança pública totalmente equivocada que o governador do estado insiste em levar adiante.

Na minha infância, o dia 27 de setembro era uma data especial. Dia de sair pelas ruas, ganhar muitos doces e brinquedos, comer bolo e tomar guaraná. Dia de festejar Cosme, Damião e Doum. Desde que os santos católicos foram assimilados pelas religiões de matriz africana, além de se tornarem admirados e ampliarem suas atribuições, ganharam novas histórias e até um irmão, comprovando que o sincretismo, enquanto processo de aculturação, é uma rua de mão dupla.

Cosme e Damião eram irmãos gêmeos, médicos e teriam vivido na Ásia Menor. Exerciam a medicina por caridade, defendiam os ideais cristãos e nada cobravam daqueles que curavam. Por isso foram perseguidos pelo imperador romano Deocleciano e degolados por volta do ano 300 depois de Cristo. A mesma tirania parece mover o governador do Rio de Janeiro, que ironicamente foi eleito por um partido cristão, mas vem implementando a necropolítica num nível que já atinge a desumanidade, um verdadeiro holocausto.

 

Desde que deixaram de ser apenas padroeiros dos farmacêuticos, médicos e das faculdades de medicina, São Cosme e São Damião incorporaram os valores e tradições dos terreiros de candomblé e umbanda. Passaram a proteger os gêmeos e as crianças e incorporaram diversas características de Ibeji, inclusive seu irmão, Idowu (Doú ou Doum), como os povos de origem iorubá chamam o filho que nasce depois de uma gravidez gemelar.

“Dois-Dois” é o apelido carinhoso dos santos gêmeos e em sua homenagem se faz uma comida muito apreciada na Bahia, o caruru. Na verdade, uma grande festa, conhecida como “Caruru de Sete Meninos”, com doces, frutas e várias iguarias, como vatapá, acarajé, xinxim de galinha, feijão fradinho e muito mais. Os Ibejis são considerados filhos de Xangô e Iansã.

De acordo com o antropólogo Vivaldo da Costa Lima, o sincretismo entre os orixás e os santos parece ter dado origem a uma devoção muito particular, que funde elementos das duas culturas, a ponto de Cosme, Damião, Doú, Alabá, Crispim, Crispiniano e Talabi serem considerados os sete irmãos simbolizados pelos sete meninos convidados pra comer o caruru primeiro. As promessas feitas aos orixás no altar dos santos católicos são pagas com essa celebração, que na Bahia chega a ser mantida como uma tradição até por aqueles que se converteram às igrejas evangélicas.

Aliás, o crescimento dessas igrejas trouxe consigo a demonização das tradições culturais afro-brasileiras, com uma verdadeira campanha para que as crianças rejeitem os doces de Cosme e Damião. O discurso “conciliatório” diz querer preservar a saúde das crianças, mas há uma série de vídeos nas redes sociais que espalham notícias falsas, dizendo até que os doces são envenenados. Hoje, terreiros de umbanda e candomblé têm dificuldade para distribuir seus doces e brinquedos porque muitas crianças realmente acreditam que são doces do diabo.

O caruru é um grande evento e está presente no calendário de festas populares da Bahia. Além das missas e procissões no bairro da Liberdade, onde fica a igreja dedicada aos santos, muitas pessoas enfeitam suas casas com bandeirolas, balões coloridos e flores, fazem defumações e preparam as comidas de origem africana com muito carinho e devoção.

A tradição de escolher sete meninos de rua para comerem o caruru deixa as crianças sempre animadas, porque além das comidas típicas, recebem muitos doces, balas, bombons e brinquedos. Na Bahia, o ritual começa com a arrumação da casa. Estende-se uma esteira ou uma toalha alva e as crianças se sentam e comem juntas, com as mãos, até se lambuzarem. Tudo isso em meio a muita diversão e alegria, cantos e rezas em homenagem aos santos e orixás.

Os adultos também são servidos e, de acordo com a tradição, aquele que encontrar no prato um quiabo inteiro terá que fazer um caruru para Cosme e Damião no ano seguinte ou contribuir financeiramente para a festa. Uma devoção que se espalhou Brasil afora, mas se vê ameaçada pela intolerância religiosa.

O caruru é um momento de regozijo, um tempo de festejar a infância, de celebrar a criança que existe em cada um. Ibeji, Idowu, Alabá, Talabi se juntam a Cosme, Damião, Crispim e Crispiniano e comem da mesma comida, do mesmo prato, num exemplo de comunhão que consegue promover o diálogo e se sobrepõe às diferenças. Um desafio distante num País que se entrega ao sectarismo cego dos regimes fundamentalistas.

A infância perdida nos morros, becos e vielas, nas comunidades e favelas deste Brasil. O sangue no uniforme, a escola na mira dos helicópteros, crianças morrendo com tiro de fuzil nas costas. É triste, é trágico, mas há quem defenda a ação criminosa do Estado, há quem confunda pobreza com criminalidade, há quem não se sensibilize com a dor de uma família.

Uma menina, uma criança de apenas 8 anos, mais uma vítima. A mãe tentou protegê-la, mas o que pode uma mãe contra um fuzil? O que pode uma comunidade contra um governo que tem no extermínio negro uma política de Estado? Quem matou Ágatha? O policial, o governador, o presidente ou aqueles que seguem inertes enquanto dizem que todas as vidas importam? São vidas negras, são corpos negros, são crianças negras. Ágatha não sobreviveu. Morreu com o descaso e a indiferença daqueles que sacrificam inocentes em nome da segurança pública. Segurança de quem? Porque nas favelas a polícia segue atirando a esmo e matando inocentes, mas importante mesmo é não comer os doces de Cosme e Damião.

 

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Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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