Diálogos da Fé

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Como igrejas contribuem para a continuidade da violência doméstica?

Lideranças religiosas têm se tornado cúmplices de crimes contra a mulher, quando silenciam as vítimas e não são o suporte necessário para denúncia

Caroline tinha 35 anos
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Conheci a Manoela Brazil no dia 3 de outubro de 2020, uns dias após ao assassinato da sua irmã, Carolline Brazil. A conheci em frente à Prefeitura da Cidade de Osasco (SP), em uma manifestação na qual exigíamos justiça por sua irmã.

A história de Carolline pode ser a mesma de muitas mulheres que vivem nas igrejas espalhadas pelo nosso País e, por isso, quero contá-la nesta semana, na qual fomos às ruas pelos direitos das mulheres, por condições dignas de vida e contra o machismo que trata mulheres como objeto.

Carolline era uma mulher muito conhecida na cidade. Comerciante, envolvida com projetos sociais e mãe de dois meninos. Uma mulher inteligente, competente na administração de sua empresa, independente profissional e financeiramente. Até que se converteu à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias. Manoela me disse que, a partir desse momento, Carol mudou, passou a ficar mais introvertida e a se comportar de maneira submissa aos ensinamentos da Igreja, dentre eles, a submissão da mulher ao homem.

Na mesma época, Carol se apaixonou por Luiz Felipe Mariano. Pude ler em seu diário que ela passou a acreditar que Luiz Felipe seria seu companheiro nesta vida e na eternidade. Segundo a crença professada por ela, haveria um selamento a partir do qual ela se uniria ao marido nesta vida e após a morte. Não sendo uma opção a possível separação. Algum tempo após o casamento, as coisas não andavam muito bem. Carol se sentia pressionada pelo marido a bancar financeiramente alguns caprichos e fazer investimentos com os quais ela não concordava. A incompatibilidade do casal se mostrava no dia a dia. Violência psicológica, cárcere privado e abuso financeiro começaram a acontecer, vizinhos relataram que aconteciam brigas e que suspeitavam de violência física – que não foi comprovada.

Embasada na fé e nos conselhos do bispo de sua comunidade, Carol não queria se separar. Ela acreditava piamente que haveria alguma bênção religiosa que faria com que seu marido mudasse, Foi orientada a insistir em um relacionamento que se mostrava a cada dia mais tóxico. Quando a família de Carol passou a perceber que as coisas não estavam bem, procuraram a igreja para pedir ajuda. Manu me disse que ouviu de lideranças religiosas que não poderiam intervir no que estava ocorrendo, porque o casamento era um selamento e que deveriam consertar as coisas, e não pensar em uma separação. E evidentemente essa tarefa era do casal, ninguém poderia intervir.

Carol, que já tinha um filho de um outro relacionamento, teve um filho com Luiz Felipe. O que a fez se agarrar mais ainda a essa necessidade de manter sua família unida, conforme a “vontade de Deus”. Mas, infelizmente, as coisas não andaram como Carol tanto desejava. É importante salientar que Luiz Felipe era extremamente religioso, respeitado em sua comunidade, como um exemplo de fé, pai e marido. E esse prestígio social fez com que a narrativa da família que desconfiava do relacionamento abusivo perdesse força. A própria família da Manu não imaginava que esse casamento poderia culminar na morte dela.

O relacionamento seguia de mal a pior e a comunidade de fé seguia incentivando Carol a se manter firme na “defesa” de sua família. Ela foi resistente à separação, ela queria manter seu compromisso com o selamento que havia feito, no dia de seu casamento religioso. Entretanto, mesmo não querendo, em março de 2020, Carol aceitou se separar do marido. Porém, mesmo com o divórcio, o casal continuou morando junto, por causa do filho pequeno, com três anos à época. Foram seis meses difíceis para Carol. Ela vivia em um lar que não era como ela desejava, pois tinha criado para si a fantasia de uma família perfeita, abençoada por Deus e acreditava piamente que tinha a tarefa de manter o lar unido. Assim, mesmo que sem relacionamento conjugal, gostaria de manter a relação do filho com o pai e a mãe juntos.

Seis meses se passaram após a separação e Carol estava começando a se reerguer, a se cuidar e a retomar as rédeas de sua vida. Estava com a autoestima elevada e seguia mais do que nunca cuidando de seus projetos sociais e profissionais. Isso, com certeza, feriu o ego de Luiz Felipe, que percebeu que não conseguiria manipular a ex-esposa e que poderia perder o conforto da casa dela ( pois a casa era de Carol, e não do casal), já que ela dava sinais de que estava se libertando da necessidade de manter o pai de seu filho debaixo do seu teto.

Em 28 de setembro de 2020, o que nem a comunidade de fé, nem a família e nem os amigos de Carol pensaram que aconteceria, aconteceu: ela desapareceu. A ordem dos acontecimentos é meio nebulosa, ainda. O que Manu me contou é que a irmã saiu para dar uma espairecida, sem levar absolutamente nenhum pertence, nem bolsa, nem celular. Carol saiu de casa por volta das 20h. Perto volta das 21h, Luiz Felipe ligou para a polícia e deu queixa do desaparecimento da ex-esposa. Em seguida, avisou a mãe da Carol de que ela havia sumido e de que ele teria registrado queixa de desaparecimento.

Por volta das 21h15, o carro de Carol apareceu queimado no bairro do Jardim Padroeira, na cidade de Osasco. Ao consultar a placa do carro, a polícia descobriu que o carro era de Carol, que acabara de ser dada como desaparecida. Não muito tempo depois, alguns policiais foram até a casa de Carol, onde encontraram Luiz Felipe com todos os registros de propriedades, contas bancárias e demais documentos pessoais de Carol organizados sobre a mesa da cozinha. Ele foi encaminhado para a delegacia, prestou depoimento e foi liberado.

No dia seguinte, Carol foi encontrada, em um campo de futebol no bairro do Bandeira, em Osasco, com um tiro nas têmporas e outro na virilha. As especulações começaram e a tese que começou a circular na cidade foi que Carol havia traído o marido e, por isso, fora assassinada. O tiro na virilha sexualizou a morte de Carol – um ataque à sua memória e à família enlutada. Com os fatos contados pelos familiares, a denúncia de desaparecimento e o comportamento de Luiz Felippe começaram a dar indícios de que Carol foi vítima de feminicídio a mando do ex-marido.

O caso é investigado pelo Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) de Osasco. E atualmente, em março de 2022, ainda está em fase de investigação. Essa é a queixa de Manoela, pois a irmã está sofrendo um outro tipo de violência: cair no esquecimento. A família acredita que o reconhecimento social e influência da família do suspeito possam ter relação com a demora do andamento do processo. Mesmo com tantas evidências e indícios de que seja de fato um feminicídio, ainda não terminou a fase de investigação. A família também reclama de que testemunhas que são importantes no caso não foram ouvidas, sendo privilegiadas as que são favoráveis ao suspeito. A família, hoje, além da dor da perda de Carolline, também amarga a sensação de injustiça.

O caso de Carolline não é exceção dentro das Igrejas e não é um problema apenas do segmento religioso que ela professava. A ideia de família perfeita, de que com oração podemos mudar maridos violentos e abusivos, a pressão social para que a mulher seja uma boa esposa, submissa e que honra seu marido contribuem para que muitas mulheres religiosas continuem em relacionamentos abusivos. Relacionamentos que podem culminar em morte, como, infelizmente, aconteceu com Carol.

Se faz necessário que pastores e lideranças religiosas entendam que violência doméstica é crime e, portanto, deve ser denunciado nas Delegacias da Mulher ou pelo Disque 180. É preciso que pastores que tenham mulheres em suas comunidades que sofram violência, acompanhem essas mulheres na denúncia, na proteção, na estrutura necessária quando se denuncia: acolhimento quando essas mulheres precisam deixar suas casas, apoio jurídico e acompanhamento psicológico. Lideranças religiosas e comunidades inteiras de fé têm se tornado cúmplices de crimes contra a mulher, quando silenciam as vítimas e não são o suporte necessário para denúncia.

Essa passividade das comunidades religiosas frente a casos de violência é uma das muitas facetas da violência religiosa de gênero. Violência na qual a qualidade de vida das mulheres é colocada abaixo do que se imagina ser o modelo ideal de família. Em que a submissão, a disposição sexual (muitas mulheres são orientadas a fazer sexo contra a sua vontade dentro das Igreja, para agradar os maridos) e a oração para que seus maridos sejam pessoas melhores ocupam o lugar do que de fato deve acontecer: uma mulher que sofre violência deve denunciar sim, Deus não quer que as mulheres sofram violência. Deus não sonha com uma família na qual mulheres apanham e são desrespeitadas.

Essa falácia de orar para que “seu marido mude” apenas serve para que o ciclo de violência se mantenha dentro das igrejas, e que homens possam, em nome de Deus, abusar de suas esposas. Se você conhece alguma mulher que é religiosa e que sofre violência, e quiser orientação sobre isso, vou indicar os coletivos Rede de Mulheres Negras Evangélicas e Movimento Social de Mulheres Evangélicas do Brasil para que encontre apoio nesse processo tão doloroso que é enxergar a reprodução da violência dentro da Igreja.

Infelizmente, essa ajuda não chegou a tempo para Carol. Mas pode chegar a tempo para outras mulheres.

“Quero que a história da minha irmã não caia no esquecimento e que a partir da nossa luta muitas outras mulheres sejam libertas da violência”, diz Manu Brazil.

Seguimos juntas, contra a violência religiosa de gênero!

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