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Canta, Mangueira! Samba que o teu samba é uma reza

Enredo da Mangueira para o carnaval de 2020 é tão atual que foi capaz de mexer com o orgulho de muitos que se sentem ‘poderosos’

Cartaz do carnaval 2020 da Estação Primeira de Mangueira (Reprodução)
Cartaz do carnaval 2020 da Estação Primeira de Mangueira (Reprodução)
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Fevereiro! Aproxima-se a maior festa popular do Brasil: o carnaval. De norte a sul, de leste a oeste, o povo brasileiro se junta para brincar, pular, sambar e celebrar sua festa numa explosão de alegria. Reunidos em escolas de samba ou blocos carnavalescos, seguindo atrás de trios elétricos ou assistindo à passagem dos desfiles nos sambódromos do Brasil, celebram a alegria. Serão poucos dias, mas durante esse tempo as dores do dia-a-dia são postas de lado e os foliões se entregam a momentos de liberdade nos quais podem se expressar e botar para fora as mazelas do cotidiano.

Há quem enxergue nessa atitude uma completa alienação. Outros, de dedo em riste, condenarão o carnaval como algo maléfico e mundano. E é claro, nesta condenação, incluem também as pessoas que o celebram numa atitude típica de “senhores da verdade”.

Não há dúvida de que, envoltos pelo espírito do capitalismo selvagem que transforma tudo em mercadoria vendável e geradora de lucro, muitos enxergam no carnaval uma fonte de ganhos. Campanhas publicitárias para produtos das mais variadas origens são produzidas. A cada ano, pessoas que nutrem o desejo de se fantasiar e brincar o carnaval gratuitamente sentem mais dificuldades para fazê-lo. Tudo é norteado pelo ganho que o comércio pode gerar. Haja vista as campanhas de vendas de bebidas alcoólica, que em muitos casos figuram como patrocinadoras de transmissões televisivas dos grandes desfiles das escolas de samba. Apesar desses problemas e outros que possam surgir, o carnaval continua sendo a grande festa popular da expressão da alegria.

Mas não é só isso! Já há muitos anos escolas e agremiações têm utilizado seus sambas enredos para homenagear personalidades históricas e contemporâneas, bem como para protestar contra injustiças sociais, preconceitos, misérias, explorações… Porém, um tema merece destaque dentre todos os enredos apresentados: a religiosidade. Tradicionalmente, as cores do pavilhão da escola – conduzido e cortejado pelo casal de mestre-sala e porta-bandeira -, são as mesmas do padroeiro da escola. Em reportagem do jornal O Globo em fevereiro de 2016 sob o título “Carnaval e religião: a mistura entre fé e folia”, esclarece: “No início do carnaval carioca, era possível reconhecer o orixá de cada agremiação apenas pelo ritmo do toque das caixas da bateria. Nos ensaios da atualidade, os sons ainda estão presentes e são comuns os pontos de umbanda e candomblé, entoados como proteção. As tradições transformaram as escolas de samba em bastiões de resistência da cultura africana, mas elas sempre se mantiveram abertas a fiéis de outros credos. Uma convivência que nem sempre fez por merecer nota 10 em harmonia.”

Tal falta de harmonia é promovida por grupos religiosos radicais que não aceitam o carnaval como festa popular e insistem em condená-lo como “festa maldita”. São grupos que classificam o “Reinado de Momo” como uma festa da libertinagem e da promiscuidade, uma oportunidade para disseminação do pecado e da desordem moral embalados por bebedeiras e uso de drogas.

Mas isso não é de hoje. Desde os tempos em que o carnaval era visto como a representação espontânea da alegria festejada de modo mais inocente, essas pessoas já se valiam de “conceitos moralistas” advindos das concepções maniqueísta e neoplatônica que opunham corpo e espírito, defendendo tratar-se o homem de um composto de duas substâncias opostas. Este ensinamento encontrou espaço no cristianismo durante anos. Até mesmo Santo Agostinho compartilhou delas antes de converter-se ao cristianismo. Mas esse é assunto para outra oportunidade.

O que estamos dizendo é que religiosos radicais ultraconservadores servem-se do medo para impingir a outros uma condenação por participarem de festejos considerados mundanos e, consequentemente, fontes de pecados. Até mesmo a alegria espontânea que brota da reunião de pessoas é considerada “perigosa”.

Pode haver excessos por parte de alguém ou de algum grupo de pessoas? É claro que sim! Mas isso não é uma exclusividade do carnaval. Excessos são cometidos quase sempre, nas mais diferentes manifestações populares onde há o agrupamento de pessoas. Mas isso não é motivo para condenar a todos que delas participam.

Dentre os grandes profetas do nosso tempo, destacamos hoje – tempos de carnaval -, Dom Hélder Câmara, a fim de resgatar uma crônica feita por ele no dia 1 de fevereiro de 1975, durante seu programa “Um olhar sobre a cidade”, que ia ao ar diariamente pela Rádio Olinda.

“Carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de caridade por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. (…) Brinque meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que quarta-feira a luta recomeça. Mas, ao menos, se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida!

Em dia atuais, é bem verdade, o povo brasileiro não tem tido muitos motivos para comemorar. Aliás, a muito para se lamentar. Mas, mesmo em meio a tantas agruras, em todos os rincões do Brasil não importando o tamanho da cidade ou da comunidade, este mesmo povo se prepara para celebrar o carnaval.

Dentre as escolas tradicionais do Rio de Janeiro, uma delas vem sendo alvo de críticas e ataques por parte de religiosos envoltos por um conservadorismo beirando o fanatismo, que enxergam em seu samba enredo uma ofensa a Jesus Cristo e a religião cristã; e por setores da ultradireita da sociedade. Estamos falando do Grêmio Recreativo Escola de Samba Estação Primeira de Mangueira ou simplesmente Mangueira, carinhosamente chamada de “Verde e Rosa”.

Mantendo sua tradição, a Mangueira vem para o Sambódromo trazendo em seu enredo uma crítica social capaz de reacender em muitos a chama da esperança e o desejo de lutar por melhores condições de vida. Para tanto, tocando no lado religioso das pessoas, o samba enredo fala de um “Jesus da Gente”, que nasce e vive no Morro da Mangueira, filho de pai desempregado e de uma das tantas Marias das Dores que sofrem as dores de mães que têm seus filhos vitimados por um regime de exclusão.

Parece-nos que a ideia de apresentar um Jesus humano com cara e jeito de povo, que se coloca ao lado dos oprimidos e marginalizados foi o que despertou a ira de setores conservadores -tanto na esfera religiosa quanto político-social -, contra a escola de samba. Afinal de contas, como afirma Leandro Vieira, carnavalesco da Mangueira em entrevista ao jornal Opção de 2 de fevereiro/2020: “…mais recentemente, em nome de um avanço conservador e da representatividade política de determinados setores políticos da sociedade brasileira, Jesus tem se tornado uma espécie de fiador de uma política que incita o ódio”.

Após ouvir atentamente o samba enredo “A verdade vos fará livre”, procedemos com a leitura de seus versos. Feito este exercício, entendemos que o enredo da Mangueira para o carnaval de 2020 é tão atual que foi capaz de mexer com o orgulho de muitos que se sentem “poderosos” e de outros tantos que seguem seus pensamentos retrógrados e preconceituosos.

A conclusão a que chegamos é que o samba enaltece a pessoa de Jesus e seus ensinamentos. Não enxergamos aqui nenhuma blasfêmia. Trata-se, isto sim, de uma exaltação à liberdade, de um convite àqueles que sofrem sob o jugo da opressão para se erguerem pacificamente contra os opressores e “profetas da intolerância”, cantando, sambando, rezando e elevando ao céu suas preces unindo a elas as ações necessárias.

No Evangelho de João, Jesus nos diz: “Eu vim para que tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10, 10). Temos aqui o sentido da missão e obra de Jesus, que é a vida plena da humanidade, e é para isso que ele forma em torno de si uma comunidade de pessoas que ouvem sua voz, têm certeza de que ele age como pastor que dá a própria vida, e se comprometem com seu projeto, o que significa seguir seus ensinamentos e pô-los em prática, construindo um mundo onde não haja exploradores e explorados nem opressores e oprimidos, mas sim, a harmonia proporcionada pela partilha de tudo entre todos. Onde há partilha e amor, não sobra espaço para o ódio, o rancor, o preconceito.

Por fim, só nos resta bradar:

“Alô Nação Mangueirense, chegou a hora:
Canta, Mangueira! Teu samba é uma reza pela força que ele tem.”

Professor Waldir Augusti

Professor Waldir Augusti É licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia. Escritor, agente de pastoral, assessor de movimentos sociais, gestor da Rede de Escolas de Cidadania de São Paulo.

Padre Ticão

Padre Ticão Pároco da Paróquia São Francisco de Assis de Ermelino Matarazzo, Diocese de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo-SP. Importante liderança dos Movimentos e Pastorais Sociais da região, atua nas mais diversas áreas em defesa de Políticas Públicas que atendam efetivamente às necessidades da população.

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