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Candomblé não é religião

Religião implica ‘ethos’ – ou caráter moral – e visão de mundo, mas o contrário nem sempre é verdadeiro

Em se tratando do candomblé, sabemos que uma de suas grandes funções foi reconstituir a família extensa africana, completamente esfacelada como estratégia do sistema escravagista
Em se tratando do candomblé, sabemos que uma de suas grandes funções foi reconstituir a família extensa africana, completamente esfacelada como estratégia do sistema escravagista
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Tenho falado que o conceito de religião, até pela base cristã de sua etimologia, não dá conta de todas as significações do candomblé. “Ethos” é um termo de origem grega e quer dizer “caráter moral”. Por ser usado para descrever o conjunto de hábitos ou crenças que definem uma comunidade ou nação, “ethos” abarca um conjunto de sentidos que expressa de maneira mais profunda a essência dos cultos africanos e de seus processos de reinvenção em terras brasileiras e na diáspora.

Ao falar de religião como sistema cultural, Clifford Geertz amplia a noção de “ethos” e a utiliza para além do âmbito da sociologia e da antropologia, considerando que os costumes e os traços comportamentais que diferenciam um povo influenciam nos seus modos de crer, viver e operacionalizar o sagrado.

Em se tratando do candomblé, sabemos que uma de suas grandes funções foi reconstituir a família extensa africana, completamente esfacelada como estratégia do sistema escravagista. A maneira como as comunidades se organizavam imprimiam um modo de vida que resguardava ou recriava valores de sua cultura original, desde a produção e distribuição de insumos, passando por uma economia informal, que incluía e auxiliava os mais vulneráveis, até a manutenção das práticas corporais e do compromisso com a felicidade, apesar de estarem submetidos a condições tão aviltantes.

Edison Carneiro dizia, com toda razão, que o negro não teria sobrevivido à escravidão sem o candomblé. Entre tantas coisas que puderam animar esse povo em diáspora, a influência da musicalidade, os sentimentos e elos com a ancestralidade, as histórias que a memória recontava. Tudo isso pautou os comportamentos e o jeito de viver e reagir diante das adversidades do sistema. O “ethos” de um povo implica algo mais que conduta, também expressa os valores que caracterizam um movimento cultural ou a formatação de novas estratégias de sobrevivência.

 

Embora pareça óbvio que a visão de mundo dos povos africanos difere profundamente daquela disseminada pela cultura judaico-cristã ocidental, o contato dos povos em diáspora com as imposições do colonialismo desvirtuou em alguns momentos a essência de seus elementos culturais, que tiveram que ser reinventados num contexto muito adverso, mas ainda assim legaram características morais, sociais e afetivas que definiram o comportamento do grupo. Enquanto territórios de resistência, os terreiros de candomblé são a evidência de que o “ethos” implica um espírito motivador de ideias e costumes que reiteram a capacidade humana de reconstituir instituições e ritos por meio da memória coletiva e da reconstrução de identidades.

Visão de mundo, cosmovisão ou ethos nos lançam a uma perspectiva com a qual uma comunidade ou uma sociedade, e até mesmo o próprio indivíduo, compreendem a humanidade e suas questões ao longo da história ou em contextos específicos. Isso significa que o conjunto de valores culturais e o conhecimento acumulado nos terreiros permitiu a manutenção de uma herança ancestral que ainda funciona como um elo que permite e promove o diálogo entre Brasil e África, Brasil e Cuba e toda a diáspora.

Como existe um conjunto ordenado de crenças, valores, impressões, sentimentos e concepções de mundo, entendimento do sagrado, ritos, mitos, tradições e costumes que foram se preservando e se reproduzindo durante e depois da escravidão, pode-se dizer que há também um sistema de conhecimento ordenado, uma epistemologia que coaduna com certa orientação cognitiva fundamental, tanto do indivíduo quanto da comunidade, que procura compreender e explicar a partir e para aquele universo cultural a origem e o sentido das coisas. Assim, gênese, natureza e todas as suas inferências compõem esse “ethos”, essa visão de mundo, que sempre pressupõe uma ética e filosofia de vida, além dos princípios fundamentais, tanto existenciais como normativos, que incluem valores, emoções e outros conteúdos.

Ao ver, interpretar e explicar a realidade por meio das referências suscitadas pelos terreiros, um adepto do candomblé expressa uma percepção geral do mundo e reitera os valores preservados pelo grupo. Todo esse parâmetro de ideias e crenças forma uma descrição ampla, abrangente, com a qual um indivíduo, uma comunidade ou grupo e mesmo uma cultura concebe e decifra os elementos de seu ambiente e as condições a que está de algum modo submetido.

Religião implica “ethos” e visão de mundo, mas o contrário nem sempre é verdadeiro. A complexidade da noção reside principalmente na diversidade com que a humanidade a imprime e vivencia. Pensando a cultura enquanto uma teia de significados, Geertz remete não só à abrangência de conceitos, mas sugere que a reflexão possa incluir outras construções que fogem da lógica ocidental, normalmente eurocêntrica, e deem conta das diferentes expressões que um ser humano é capaz de tecer.

 

Apesar de concebidas muitas vezes num nível inconsciente, as visões de mundo podem ser formatadas ou transmitidas de forma deliberada. Devidamente decodificadas, possibilitam uma mudança para pessoas que não se enquadram ou não se identificam com certas concepções. Numa estrutura que utiliza a culpa como um instrumento de controle e limitação, o candomblé muitas vezes se apresenta como uma crença libertadora, não num sentido salvacionista, mas como uma dimensão mais real e inclusiva de viver e gozar a vida.

Quando se lança mão de uma visão de mundo de forma consciente, é possível designar novas práticas e transformar completamente o modo como nos envolvemos com a vida, com as outras pessoas, com a natureza e a sociedade. O compromisso com a felicidade ancestral é uma marca do candomblé que sempre atraiu gente das mais diversas origens. O entendimento dos saberes dos orixás também é colocado à disposição dos que buscam superação e mudança, sobretudo num contexto extremamente competitivo e de pouca ou nenhuma solidariedade.

Talvez o “ethos” seja uma espécie de lente com a qual buscamos enxergar, interpretar e nos relacionar com o mundo. Considerando as religiões de matrizes africanas, em geral, e o candomblé, em particular, como um sistema de crenças inter-relacionadas que atua como um decodificador por meio do qual as manifestações culturais de um povo se tornam visíveis e inteligíveis, vemos aí um resumo da diáspora, com seus valores, saberes e sentidos. Cada povo interpreta o universo a seu modo. Inserido nesse contexto, o indivíduo enxerga, age e pensa de acordo com a visão de mundo que a sua cultura suscita.

O “ethos” influencia e por vezes determina o pensamento e o comportamento de pessoas e grupos. Numa estrutura social, além de definir o que pode e o que não pode, a visão de mundo indica caminhos, condutas. Inspira e contribui para estratégias de resistência e luta. No candomblé, a magia dos orixás, revivida nos rituais, recontada nos mitos, reinventada em cânticos e danças, narra a história de um povo que foi arrancado de sua origem, mas se religa à ancestralidade pela força de uma civilização que inscreveu com sangue o caminho do retorno.

Pai Rodney

Pai Rodney
Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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