Diálogos da Fé

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Diálogos da Fé

Brumadinho, metáfora de nosso tempo

Buscamos quem nos livre da amnésia da destruição, da afonia que nos acomete diante dos horrores tóxicos da lama

Casa destruída pela lama de Brumadinho (Foto: AFP)
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Sinto-me numa incapacidade mental de ater-me a qualquer assunto particular que nos aflige hoje. São tantos… Penso em um e logo outro e mais outro se intercepta em minha mente.

É como se eu estivesse em déficit de ideias, de opiniões, de julgamentos, apenas estarrecida diante de nossa vida coletiva danificada por uma onda de lama de texturas, odores e consequências diferentes.

Encoberta metaforicamente por ela busco distinguir os vários objetos que lá estão soterrados e descobrir-lhes a história e o sentido. São muitos pedaços de coisas, algumas pouco distinguíveis, muitas histórias que a lama não conta, mas que apenas adivinhamos o triste desfecho através dos que choram sua perda.

De repente em meio aos escombros acumulados encontro um pedaço de Bíblia. Percebo que lhe faltam páginas, pedaços rasgados, lama encobrindo letras, páginas molhadas, desbotadas ou coladas umas às outras impedindo a leitura e a compreensão.

De quem é mesmo esse livro? Seria do profeta Oséias ou seria Isaias ou da profetisa Hulda? Ou seria de Jesus, segundo Marcos? Difícil saber.

Diante da impossibilidade de reconhecer os autores históricos e suas respectivas histórias melhor é atribuí-las a um desconhecido que todos aceitam, “um tal Deus”, que não se sabe bem quem é, mas se presume que guarda todos os segredos do mundo. E mais, sua Lei está acima de todas as leis regionais ou particulares e apenas alguns, os que se julgam seus escolhidos, podem interpretá-la.

Por isso, entram em conflito com todos e todas que se inspiram nele e o interpretam de formas diferentes das interpretações julgadas as verdadeiras. Uma intolerância crescente se instaura entre os diferentes grupos que se ameaçam mutuamente e não se permitem concessões, visto que o objeto de litígio é a interpretação de um livro cujo autor é invisível. A insensatez nos domina e nos leva a fazer descaso real dos que sofrem.

Dizem também que o Deus invisível sabe tudo e pode tudo. Por isso, apesar da dor e das dúvidas, melhor é invocá-lo para que nos ajude, pois sendo um desconhecido podemos atribuir-lhe qualquer coisa e ele aceita e não reclama.

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Sua figura invisível dá poder a muitos e tira de muitos. Até mesmo o livro que disseram que era sagrado e era dele agora está enlameado e quase totalmente destruído. Triste fim de uma obra magistral.

Resta-nos apenas recolher os pedaços que restam e dizer novamente que é ‘Palavra de Deus’.

Os especialistas do Museu Nacional tem a árdua tarefa de reconstituí-lo. Provavelmente colarão partes que eram de um capítulo em outro na tentativa de dizer ao povo que o Livro foi recuperado.

Ele, o Livro, é supernecessário para a manutenção da ordem. Ele é a proteção para os que agem na Lei e os que agem fora da Lei. Ele é a garantia do salário de muitos e do poder de alguns. Precisa ser reconstituído, refeito, completado como tarefa prioritária de ‘limpeza’ da lama.

E os técnicos nesse ofício e nessas leituras o fizeram como prioridade para que o povo não se desespere diante da falta de razões para essa lama toda. E o fizeram afirmando que o escritor Deus, o todo poderoso, nos está castigando por sermos desviantes de sua ordem, por sermos feministas, gays, lésbicas, transexuais, esquerdistas, anarquistas, panteístas, idólatras e outros qualificativos mais densos e diretos.

A Bíblia do celeste Deus foi resgatada pelos bons. Aqueles que apenas matam os maus, os desviados, os pervertidos, as assassinas de fetos e defensoras de seus corpos. Estamos anunciando de novo o Reino dos bons.

O Messias esperado chegou. Em breve a ‘ordem e o progresso’ reinarão na ‘terra verde amarela’ e não haverá ideologia, nem gênero, nem ideias que criem desordem.

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As famílias se reunirão para o almoço do domingo e a mesa estará farta de ‘pizza’.

Nossa memória histórica será apenas alegre, não deverá lembrar os tristes eventos do passado, nem dos torturados, nem dos assassinados, nem dos famintos e maltratados. Apenas lembrar com orgulho daqueles que conseguiram matando as matas e camponeses deitar “em berço esplendido” e cantar “à pátria amada”.

Nosso corpo todo dói de disfunção orgânica generalizada, de crise de fé em nós mesmos e nas leis que criamos. Até os médicos que podiam ajudar na cura foram acometidos da mesma doença como no livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago. Todos estão cegos, uma cegueira branca, contagiante, que não apenas impede de ver, mas impede até de pensar com mínima clareza.

Buscamos quem nos livre da amnésia da destruição, da afasia diante dela, da afonia que nos acomete diante dos horrores tóxicos da lama e das muitas lamas que fizemos descer encosta acima e rio abaixo.

Mas parece que não há um salvador e nem uma salvadora. Cegos, andamos nos arrastando…

Apenas o encontro de uma mão na outra poderá nos ajudar a dar o próximo passo. ‘Segurem as mãos’, gritam alguns. O que é isso? Uma nova metáfora.

Na lama não deu para segurar mãos. Ela arrastou todos num golpe certeiro. Poucos se salvaram, mas não se salvaram das consequências da lama. E ainda assim dizemos que “dar as mãos” é a saída.

Quais mãos de fato seguram as nossas mãos? Os religiosos cantam “Segura na mão de Deus”… Confesso que a estou buscando, apalpo paredes, espinhos, mas não a encontro. Está muito alta, não a vejo e nem sei se está estendida para mim.

Quis cantar, mas não consegui… Repeti interiormente os muitos distúrbios que me afetam, lembrei-me das síndromes do lado esquerdo de meu cérebro, perscrutei as do lado direito, mas em vão encontrei respostas…

Quem dará as mãos aos desempregados, aos desassistidos, aos que estão sem escola, sem médicos, sem hospitais, sem direitos e sem leis… Há “mãos grandes” unidas que precisam ser nacionais, outras locais e outras apenas cotidianas… Ontem eu subia a ladeira de minha casa ofegante carregando três litros de água…

E um rapaz desconhecido me disse: “Vó, posso levar a sua água”. “Sim, moço, obrigada”, respondi.

E acreditei na mão pequena que me sustentou… Foi um passo. Desculpem, sei que bem pequeno.

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