Brasil não precisa de heróis, mas de gente comprometida com a justiça

A comunicação do governo federal presta-se, mais uma vez, a produzir ideologia

Foto: Sergio Lima/AFP

Foto: Sergio Lima/AFP

Diálogos da Fé

Na semana passada fomos surpreendidos com uma campanha da Secretaria de Comunicação (Secom) do governo federal, a propósito da “Semana da Pátria”. Denominada #UmPovoHeroico, a campanha se baseia em vídeos pelos quais o governo federal pretende “resgatar” a memória de heróis brasileiros supostamente esquecidos. 

 

 

O primeiro vídeo da campanha foi estrelado pelo ator que ocupa o cargo de secretário especial de Cultura do governo federal Mário Frias. O texto recitado, lembrando básicas (e corrigíveis) simplórias redações “de colégio” para a “Semana da Pátria”, diz: “A verdade é que somos um povo heroico e encaramos com um brado retumbante o destino que nos encara”.

A ideia de “um povo heroico”, de acordo com o discurso e os exemplos que aparecem no Twitter da Secretaria de Comunicação, enfatiza feitos individuais e sacrifícios pessoais. Esse discurso mantém o silêncio que caracteriza o olhar das classes privilegiadas do País sobre as ações e os movimentos que fizeram história, com indivíduos e grupos agindo pela justiça com paz.

A comunicação do governo federal presta-se, mais uma vez, a produzir ideologia. Um revisionismo questionável da história do Brasil: o silêncio e a produção de esquecimento em torno de marcas profundas e sofridas, que se tornou independente por decisão de quem colonizou o País. Dessa forma, as bases da colonização e seu sistema de exploração se mantiveram, como a escravidão, o racismo, o patriarcalismo e o latifúndio, e sufocaram movimentos de real independência que procuravam mudar essa realidade. Ainda assim, foram muitas as ações pela justiça com paz que contribuíram para mudar cursos na história. 

 

A comunicação do governo federal presta-se, mais uma vez, a produzir ideologia

 

Essa ideologia revisionista do governo do ex-capitão, identificado por exaltar a ditadura que buscou manter vivo o colonialismo na política, na economia e na cultura, atua para, mais uma vez, sufocar a memória que é alimento para movimentos por justiça com paz no presente. Com isso, apresenta uma visão perversa, populista, romantizada e falsificada do processo histórico que levou à independência do País e a todo o processo dela decorrente. A fala de pouco mais de três minutos do presidente da República, em cadeia de rádio e TV, no 7 de setembro, é o mais claro exemplo disto.

Por isso, a campanha ideológica da Secom serve para estimular nossa reflexão sobre a memória a respeito de quem, de fato, fez diferença na história do Brasil, em nome de ideais coletivos. Causas que foram orientadas pela certeza de que só há liberdade quando há justiça e paz para todas as pessoas.

Longe do sentido comum e questionável da idolatria e da mitificação de heróis (raramente apresentadas as heroínas), de “salvadores da pátria”, ou “agentes que corrigem a nação”, recuperar a memória de homens e mulheres, habitantes de uma mesma terra, com quem se ligam por laços geográficos, afetivos, culturais, históricos. Para além da ideia de um individualismo que gera ações, trazer à memória gente que agiu por cuidado para com esta terra e por compromisso com quem dela partilha para que seja um lugar de justiça com paz.

Por isso, importa, neste espaço, prestar uma homenagem nesta “Semana da Pátria” a pessoas de fé cristã que orientaram suas vidas em torno do compromisso com o País e seu povo sofrido e explorado, a ponto de que perderem suas vidas por essa causa. Destaco o período que até hoje tanto nos marca: o da ditadura. 

 

Indivíduos e grupos religiosos podem e devem ser patriotas, sim, comprometidos com a justiça e a paz!

 

Indivíduos e grupos religiosos podem e devem ser patriotas, sim, comprometidos com a justiça e a paz! Transformando a fé em ações de serviço, cuidado e defesa do País, a terra que une os que nela habitam. Não como “heróis”, “salvadores da Pátria”, mas como quem soma com outros que têm por ela um compromisso selado com afeto. 

Foram sete os evangélicos contados entre os mortos ou desaparecidos por conta das ações dos órgãos de repressão do regime militar, de acordo com o relatório da Comissão Nacional da Verdade.

Juarez Guimarães de Brito, membro da Igreja Presbiteriana, sociólogo, trabalhou na SUDENE. Atuou em várias organizações de oposição durante a ditadura e foi morto pela repressão, vítima de emboscada no Rio de Janeiro, em 1970.

Os três irmãos Daniel, Joel e Devanir José de Carvalho foram vítimas da ditadura. Daniel e Joel desapareceram aos 28 e aos 26 anos, e Devanir foi morto aos 28. Eram de família migrante de Minas Gerais, membros da Igreja Metodista e metalúrgicos no ABC Paulista. A fé e a atuação deles no movimento sindical os levaram a atuar em grupos de oposição ao regime. Uma armadilha, em 1974, tornou Daniel e o irmão Joel desaparecidos. Devanir foi preso no DOPS/SP, onde foi torturado e morto.

Heleny Telles Ferreira Guariba desapareceu aos 30 anos. Era membro da Igreja Metodista em São Paulo. Filósofa e teatróloga, sofreu censura em seu trabalho depois do AI-5 (1968), tornou-se militante de oposição à ditadura e foi presa no DOPS/SP em 1970. Lá sofreu tortura que lhe provocou grave hemorragia. Solta em abril 1971, preparava-se para deixar o País quando foi novamente presa em julho de 1971 e desapareceu. Uma testemunha viu uma moça no sítio clandestino da ditadura em Petrópolis (RJ), conhecido como “Casa da Morte”, naquele mesmo mês, e acredita ser Heleny Guariba. Pelo registro, ela foi torturada durante três dias com choques elétricos na vagina e morreu.

Ivan Motta Dias desapareceu aos 29 anos. Era membro da Igreja Presbiteriana no Rio de Janeiro e atuava no movimento estudantil. Foi preso no 30º Congresso da UNE, em Ibiúna/SP. Depois de solto, passou a atuar em grupos de oposição. Preso novamente em maio de 1971 por agentes da Aeronáutica no Rio de Janeiro, desapareceu. A mesma testemunha também teve informação da presença de Ivan Dias na “Casa da Morte”. 

Paulo Stuart Wright, desaparecido aos 40 anos, era membro da Igreja Presbiteriana e secretário regional da União Cristã dos Estudantes do Brasil (UCEB).  Foi o primeiro candidato evangélico à prefeitura de Joçaba/SC, em 1960, pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Perdeu por apenas 11 votos. Fundador da associação de cooperativas de pescadores catarinenses, em 1962 foi eleito deputado estadual pelo Partido Social Progressista (PSP). Chegou a sofrer um atentado planejado por seu suplente na Assembleia Legislativa. Foi cassado em 1964. Passou a atuar na militância de oposição. Em 1973, Paulo Stuart Wright foi sequestrado e levado ao DOI-CODI/SP. Testemunhas declararam que ele foi torturado e morto. 

Histórias de vida e de compromisso com a justiça e a paz que garantem a liberdade. Relatos desconhecidos de muitos ou, quando conhecidos, sem a menção da formação cristã evangélica que tiveram, e foi forte base para tal amor pelo Brasil. 

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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