Bíblia: o livro da classe trabalhadora

O campo popular ainda precisa compreender que a Bíblia é um elemento de fé importante para a classe

Foto: istock

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Diálogos da Fé

Desde muito nova a Bíblia me acompanhou. De família pentecostal, sempre me encantava com suas palavras difíceis ou ia logo no final de algumas edições para ver os mapas da Galiléia, o Monte Gólgota. Era muito comum os adultos grifarem versículos com marca-texto bem chamativo.

Lembro que um dia peguei a Bíblia do meu pai e grifei um Salmo. Já não me recordo mais qual era, mas, quando viu, ele me perguntou: “mas você lá entendeu alguma coisa?” Provavelmente não entendi, claro, palavras tão difíceis, metáforas tão complexas, mas ainda assim um texto tão próximo, que caminhou – e caminha – lado a lado comigo, como com todo o povo evangélico.

Essas experiências com a Bíblia me instigaram a ponto de me debruçar sobre e fazer teologia. Com ela, aprendi um bocado de palavras estranhas: hermenêutica, exegese, pneumatologia… Assim, descobri que toda a nossa leitura já vem carregada de conceitos, experiências, visões, experiências de vida: nenhuma leitura – de nenhum texto, muito menos os textos sagrados – é neutra!

Todo domingo é dia de ver gente andando pelas ruas com sua Bíblia na mão. Aliás, hoje em dia, nem é preciso ser no domingo, pois é tão comum encontrarmos trabalhadores e trabalhadoras indo ou voltando de seus ofícios nos transportes públicos carregando e lendo uma Bíblia, podendo ser física ou digital, pois com ela nos smartphones você a tem a todo instante. A pesquisadora Christina Vital, em seus estudos sobre o tráfico, periferia e pentecostalismo, descreve os territórios das comunidades repletas de versículos bíblicos espalhados como graffiti pelas paredes.

É inegável que a Bíblia é um elemento da classe trabalhadora, e é com ela que os fiéis vão tecendo suas visões de mundo, sua forma de ser e agir no aqui e agora, seus conceitos e preconceitos, e é por meio dela que muitos encontram as esperanças, o amor, a acolhida.

Claro, tudo isso imerso na maior contradição possível, principalmente quando pensamos que a Bíblia, como apontou Franqueline, evangélica e militante do MST, pode ser também um elemento da classe dominante, que a usa como forma de opressão e para construir suas políticas e visões reacionárias. E é nesse terreno fértil, mas com muitas pedras, que os movimentos populares e a esquerda precisam transitar.

Ler a Bíblia é o incentivo que muita gente encontra para aprender a ler, como aponta o pastor da Assembleia de Deus e coordenador da RELEP Brasil (Rede Latino-americana de Estudos Pentecostais), David Mesquiati Oliveira: “Nos programas sociais de inclusão pela leitura, a educação de adultos contou com forte presença pentecostal, motivados pela vontade de fazer sua própria leitura da Bíblia.” Para os evangélicos, a Bíblia é o grande tesouro e é nela que buscam respostas para as diferentes necessidades subjetivas e espirituais. O desprezo ou a minimização do texto por parte de setores de esquerda faz com que o abismo criado pela direita, que nunca abandonou a Bíblia, se torne cada vez maior.

Partindo do princípio que todo o texto sagrado, ou texto da religião, é fruto da cultura, ou seja, molda o pensamento de seu contexto histórico-social, como estamos lidando com a questão da Bíblia entre a esquerda? Há um analfabetismo cultural acerca do texto, que vai além da fé, mas de compreensão de seu conteúdo, relevância histórica e impactos políticos-religiosos nas sociedades em que a Bíblia esteve presente – para bem e para mal. Setores conservadores e fundamentalistas nunca largaram de mão, e continuam a dizer que detêm o poder e controle sobre ele, que há apenas uma única visão acerca da Bíblia.

Vale lembrar que a Bíblia foi e é instrumento de resistência e luta em nossa América Latina. Na tradição latino-americana, temos a preciosidade do método da Leitura Popular da Bíblia (LPB), que surgiu a partir dos encontros populares e das comunidades eclesiais de base (CEBs) na tentativa de encontrar correlações bíblicas para a história do povo sofrido. A LPB possui método de leitura que consiste na tríade: Realidade – conviver com o povo, aprender o que eles sabem, ser povo; Bíblia – trazer a Bíblia para o diálogo com o cotidiano, para a realidade, e buscar respostas; Comunidade – partilhar o pão, a vida, através da transformação comunitária da realidade.

O campo popular ainda precisa compreender que a Bíblia é um elemento de fé importante para a classe trabalhadora, e que esse fiel é também interseccionado pelas múltiplas opressões que o neoliberalismo racista e hetero-patriarcal opõe sobre ele ou ela. Para muitos, a Bíblia, diz Mesquiati, “assim, não se trata apenas de um livro (uma coisa), mas, performaticamente, é percebido como Deus falando-lhes por meio do texto”. É através da Bíblia, da oração, da comunhão na igreja que é possível dele se enxergar como um ser humano digno e amado. O caminho é longo, mas o primeiro passo para um diálogo real é o respeito. Só assim laços de confiança serão estabelecidos nos territórios e conseguiremos avançar com as pautas progressistas dos direitos humanos.

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Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

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