Até onde é liberdade de expressão?

Assassinato não pode ser justificado de maneira alguma; verdadeiro crente deve repelir o mal com o bem sempre

Local onde professor francês foi decapitado. Foto: Anne-Christine POUJOULAT/AFP

Local onde professor francês foi decapitado. Foto: Anne-Christine POUJOULAT/AFP

Diálogos da Fé

O profeta Muhammad é o personagem central, depois do Alcorão, quando se trata de estudar o islam como um sistema religioso e estilo de vida. Ele é o primeiro exegeta do Alcorão e pô-lo em prática mostrando como devem ser praticadas as ordens vindas por meio do Sagrado Livro. Por esta razão, a tradição dele – isto é, a sunna – é tida com o a segunda fonte de legislações e decisões no campo da jurisprudência islâmica. Ele é o último dos profetas e aquele que une os ensinamentos de todos que antecederam a ele e, desta forma, completa a mensagem divina enviada à humanidade por meio de 124 mil profetas e mensageiros, entre eles Abraão, Moisés e Jesus como os principais e os mais destacados.

 

 

No contexto histórico emergencial do islam, no século VII da era comum, a sociedade em que o islam surgiu é descrita como uma sociedade politeísta. Segundo os relatos feitos pelos historiadores islâmicos, o politeísmo na sociedade árabe da antiguidade pré-islâmica começou por atos como pegar um pedaço da terra de Meca ao viajar para outros lugares como uma forma de “matar a saudade” e se recordar da cidade sagrada.

 

No islam, não é permitido, de maneira alguma, desenhar a imagem do profeta Muhammad mesmo que isso esteja acontecendo por boa intenção

 

Outro ato que levou ao politeísmo, ainda para os estudiosos e historiadores islâmicos, foi a criação de estátuas e desenho de imagem das pessoas tidas como virtuosas para não esquecer da exemplaridade que elas tinham e seguir os passos delas. Com o tempo, isto foi se tornando em adoção destas imagens e estátuas por divindades e deuses, e o ser humano “caiu no pecado de atribuir parceiros ao Único e Absoluto Deus”. Por causa disso, no islam, não é permitido, de maneira alguma, desenhar a imagem do profeta Muhammad mesmo que isto esteja acontecendo por boa intenção. 

No dia 16 de outubro, última sexta-feira, o professor Samuel Paty, um cidadão francês de 47 anos de idade, foi decapitado por um “extremista muçulmano” depois de ter apresentado uma charge do jornal Charlie Hebdo durante a aula de liberdade de expressão. Após ver esta notícia, fiquei espantado, mas ao mesmo tempo sem saber o que falar nem fazer, pois realmente o caso é chocante mostrando o ponto de delírio a qual o ser humano pode alcançar. 

No dia 19 de outubro, segunda-feira, recebi o link de uma notícia afirmando que o jornal Folha de S. Paulo havia republicado a charge publicada em 2012 no Charlie Hebdo. Em primeiro lugar, não quis acreditar, porém, ao clicar no link enviado, constatei que realmente isso aconteceu. 

A humanidade está passando por um momento crítico em que o bem e o mal estão muito confundidos. O mal consegue falar bem mais alto do que o bem e inclusive disfarçado do bem. Além de lamentar a perda da vida de uma pessoa, descrita por muitos como gentil e apaixonada pela profissão, lamentei pela minha religião ter sido usada mais uma vez como motivo de possíveis explosões ou delírios psicológicos de um jovem desorientado. Não posso deixar de lamentar também que haja, além dos extremistas, aqueles que insinuam o extremismo e cutucam, mesmo que não seja propositalmente, uma ferida que por ora não está sendo curada. 

 

Além de lamentar a perda da vida de uma pessoa, descrita por muitos como gentil e apaixonada pela profissão, lamentei pela minha religião ter sido usada mais uma vez como motivo de possíveis delírios psicológicos

 

Após ver a charge, que eu nunca havia visto, fiquei com ranço de quem configurou uma pessoa tão querida daquele jeito em nome da “liberdade de expressão”, mas também daquele que usando esta desculpa difama o nome da religião que eu sigo, conheço e vivo de um jeito bem mais diferente, assim como a maioria dos meus correligionários. Reflito também até onde incitar ódio, preconceito e blasfêmia pode ser “liberdade de expressão”. Até onde ofender as religiões e as figuras religiosas pode ser liberdade, se é que a minha liberdade acaba onde a do outro começa? 

O assassinato de um ser humano não pode ser justificado de maneira alguma. O Alcorão ensina que o verdadeiro crente deve repelir o mal com o bem sempre e assim acabaremos com a inimizade. Desejo que o mal e a incitação ao mal acabem logo para que possamos acabar com a inimizade e discórdia. 

 

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Cientista da religião, mestre e doutorando em Ciência da Religião pela PUC-SP. Membro do Centro de Estudos das Religiões Alternativas e de Origem Oriental no Brasil-CERAL da PUC-SP e do Grupo de Trabalho Oriente Médio e Mundo Muçulmano-GTOMMM da USP.

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