As raízes do verdadeiro preconceito contra evangélicos pentecostais

Para que as periferias estejam conosco, é necessário compreender que a fé, a Bíblia, o louvor são forças que impulsionam muitos a continuar

(Foto: iStock)

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Diálogos da Fé

Quando falamos do movimento pentecostal é preciso ter em mente que ele é plural e multifacetado, com contornos contextuais dos territórios que está presente. Um de seus elementos comuns, porém, é a experiência com o Espírito Santo.

Experiência é uma palavra escorregadia, com muitos significados. E muito questionada por não se tratar de conhecimento empírico. É inegável porém, que a experiência produz saberes que, por vezes, desafiam lógicas hegemônicas, mas não sem contradições. 

Essa fé experiencial questiona a racionalidade estabelecida, e apresenta uma visão que vai além da intelectualidade. No Reavivamento, famoso movimento foi iniciado pelo pastor afro-americano William J. Seymour na Rua Azusa, em Los Angeles, em 1906, um grupo de fiéis (em sua grande maioria negros e negras) vivenciou o avivamento espiritual. Para o pastor e teólogo Kenner Terra, esse movimento foi profético pois dignificou pessoas marginalizadas em meio às tensões socioeconômicas e raciais que aconteciam naquele período e promoveu igualdade de gênero em sua liderança.

A experiência do Pentecostes bíblico, reproduzida nesse microcosmo na Rua Azusa e posteriormente se multiplicando, foi influenciada pela cultura africana, deslocando assim a ordem de culto e litúrgica estabelecida por igrejas tradicionais. A africanidade litúrgica trouxe a herança dos rituais praticados pelos escravizados africanos: ring shout, as danças, palmas, devoção, com as experiências de glossolalia e a emoção que transborda nas celebrações e louvores. 

É impossível andar pelos bairros dos grandes centros urbanos e não ouvir os louvores, em alto e bom som, em lojas, casas ou igrejas. A musicalidade evangélica é um elemento crucial para essa transcendência espiritual, esse êxtase que transgride a religiosidade cristã racionalista, etnocentrista e branca.

Para além do aspecto religioso, o momento dessa mística é o espaço para os fiéis extravasarem seus problemas e dilemas, visto que grande parte das letras dos louvores pentecostais trazem temas como superação, liberdade, vitória e ser digno do amor de Deus.

Como conta Helena, fiel da Assembleia de Deus e acampada do MST em Goiás, em entrevista ao Instituto Tricontinental de Pesquisa Social: “(…) gosto muito de louvar, sinto uma alegria no coração, assim, quando tá cantando assim… Sabe, aquela tristeza sai, se tiver que chorar a gente chora e é muito bom, não tem nem explicação”. 

Muitas das pessoas nas periferias, aliás, têm acesso aos instrumentos musicais, canto, conhecimento de música através das igrejas nos territórios. E são nas igrejinhas que aprendem a tocar, a ter esse espaço de partilha da arte, de expressar sua voz.

Claro que a contradição existe. A pastora e teóloga Nancy Cardoso aponta: “Com a música, o louvor e a dança, o que fazem é criar um clima de liberdade e gozo, mas depois o controlam e o administram.” Portanto, ao mesmo tempo que o corpo é capaz de vivenciar o divino, é necessário controlar suas paixões e sexualidades.  O cristianismo,  é uma “fonte amarga” para a comunidade negra, como diria a teóloga Cleusa Caldeira, pois seu livro, a Bíblia, foi utilizada para legitimar a escravidão e amaldiçoar o povo negro.

Porém, apesar de toda dor, Cleusa afirma que “a comunidade negra hoje se aproxima da Bíblia porque acredita que ela pode ser também uma fonte de alegria e prazer, quando negras e negros tornam-se sujeitos na leitura bíblica. É uma reivindicação legítima o enegrecimento da teologia […] reflexão teológica deve partir da mulher negra e do homem negro, uma vez que uma teologia vinda de fora é susceptível de ser colonizadora.”

Muitos pesquisadores e pesquisadoras têm apontado que o preconceito contra evangélicos pentecostais está assentado em um racismo estrutural e na aporofobia – preconceito contra os pobres. Essa racionalidade pautada na experiência é questionada não só por cristãos de outras vertentes, mas também por setores progressistas que infantilizam e zombam das experiências e práticas de fé vividas pelos pentecostais. O que, para os setores fundamentalistas, serve de arsenal para acusações da chamada “cristofobia”, que sabemos que não existe no contexto brasileiro, mas antes é uma forma de distanciar pautas progressistas de esquerda dos setores evangélicos. 

Há muitas interpretações sobre o cristianismo, há muitas visões sobre a fé, Cristo, Bíblia… Como Magali Cunha pontuou em seu último artigo aqui na coluna Diálogos da Fé: ninguém representa ou fala pelos evangélicos como um todo! Para os pentecostais, a teologia, a busca por compreender mais sobre Deus, Bíblia, louvores e fé se dá na própria vivência. Como já bem disse o teólogo e ativista negro Ronilso Pacheco, em seu livro Teologia Negra: o sopro antirracista do Espírito (2019): “a fé é uma interpretação. A fé do povo é dinâmica a ponto de não sistematizar teologias, mas de teologizar realidades”. Realidades lamacentas de fome, desemprego, feminicídio, racismo, LGBTfobia… que atingem a todos, inclusive os evangélicos e evangélicas. 

 O que nos une é a luta cotidiana por dignidade e vida! Entretanto, se queremos que mais e mais pessoas se unam a nós, que nossas periferias estejam nas mesmas trincheiras, é necessário compreender que a fé, a Bíblia, o louvor são forças que impulsionam muitos a continuar. Novamente digo, com muitas contradições. Mas são nas fissuras que apresentamos outras visões de cristianismos libertadores, como a teologia negra!

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Teóloga, mestra em Ciências da Religião, professora e pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

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