Ao criticar perseguição religiosa na ONU, Bolsonaro só olha para fora

Presidente abre brecha para se pensar no próprio Brasil e nas manifestações de intolerância sofridas pelas religiões de matriz africana

Foto: Alan Santos/PR

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O discurso do presidente Jair Bolsonaro na ONU, nesta terça-feira 24, além de expor o obscurantismo do ex-capitão como é, sem diplomacia ou disposição de diálogo, indicou que ele continua, devido à crise política que assola o governo, a falar apenas para agradar seus iguais – um público interno que lhe é fiel e acrítico (hoje caindo para o patamar de 12%, segundo a pesquisa Datafolha de agosto).

É nesta estratégia, de esquecer o mundo e garantir o apoio interno que escorre pelos dedos do governo Bolsonaro, que foi inserido no discurso da ONU o tema da perseguição religiosa. Afinal, boa parte dos 12% dos fiéis ao “mito” são cristãos, e, predominantemente, evangélicos.

O ex-capitão afirmou na Assembleia da ONU que perseguição religiosa é um flagelo a ser combatido “incansavelmente” pois há “ataques covardes” contra fiéis “congregados em igrejas, sinagogas e mesquitas”. Registrou que o Brasil condena esses atos e que o “povo brasileiro” se preocupa com a crescente perseguição, discriminação e violência contra missionários e minorias religiosas em diferentes regiões do mundo”. Declarou que seu governo apoia “a criação do Dia Internacional em Memória das Vítimas de Atos de Violência baseados em Religião ou Crença, pois é ‘inadmissível que, em pleno século XXI (…) ainda haja milhões de cristãos e pessoas de outras religiões que perdem sua vida ou sua liberdade em razão de sua fé’”.

Um claro aceno a parcelas evangélicas que apoiam o governo Bolsonaro, detentoras de patrimônio suficiente para financiar suas próprias ações missionárias no exterior. Já há algumas décadas, o Brasil passou de País missionado, primordialmente por missões de igrejas evangélicas dos Estados Unidos, para potência missionária.

 

Estes grupos, que pertencem a igrejas específicas, de todas as vertentes evangélicas, mas também a agências missionárias interdenominacionais, produzem um envio cada vez mais intenso de pessoas das igrejas para todos os continentes. Buscam ocupar os vazios com o decréscimo do número de cristãos nas Américas e na Europa e ampliar o acesso aos países da África cristianizada pela colonização. Há algumas crises devido ao desrespeito que algumas destas missões praticam ao iniciarem atividades em regiões em que já há igrejas estabelecidas, mas isto é tema para outro artigo.

No entanto, há, no imaginário religioso evangélico, uma preferência pelos países não cristãos, do Oriente Médio, da Ásia e das Ilhas do Pacífico, que têm suas próprias e antigas religiões. A ideia de alcançar terras não cristianizadas se coloca como um desafio maior e, por conta da resistência à prática do proselitismo religioso, até mesmo por meio de leis que negam a liberdade religiosa, em alguns países, este imaginário é alimentado com a ideia de perseguição.

A violência, fruto da intolerância religiosa e da negação do direito humano à liberdade de crença, é fato, existe, e deve ser enfrentada por todos que prezam os direitos humanos. No entanto, o tema tem sido frequentemente instrumentalizado politicamente, desviando as discussões nele embutidas para uma dimensão puramente religiosa quando também há elementos racistas e xenófobos nele imbricados.

Ao falar à ONU e inserir este tema, Jair Bolsonaro acena mais uma vez ao seu público, que ainda tem boa parcela entre evangélicos, e contribui na alimentação desse imaginário dos desafios de cristianização do mundo e da consequente perseguição.

Porém, ao levantar a temática desta forma, o ex-capitão abre uma brecha para se pensar no próprio Brasil e nas intensas manifestações de intolerância e perseguição religiosas sofridas, muito especialmente, pelas religiões de matriz africana. O último relatório oficial sobre intolerância e violência religiosas no País é de 2015, do Ministério das Mulheres, da Igualdade Racial, da Juventude e dos Direitos Humanos, e mostra que as religiões de matriz africana são as que mais sofrem os mais diversos tipos de ataques.

 

Esta situação tem se agravado. A Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), criada no Rio de Janeiro, em 2008, tem visto as denúncias recebidas se multiplicarem. São 200 casos registrados até setembro de 2019, contra 92 registrados em 2018, 35% das denúncias na Baixada Fluminense.

A gravidade aumenta à medida que os casos vão para além do campo das ofensas e se ampliam com a ação violenta de traficantes que se tornam evangélicos e passam a vandalizar terreiros e intimidar os religiosos. Segundo a CCIR, há 200 casas de umbanda e candomblé sob ameaça apenas no Rio de Janeiro.

A intolerância e a violência historicamente sofridas pelos religiosos de matriz africana no Brasil não pode ser desconectada do racismo estrutural que o País experimenta. Religiões minoritárias não cristãs brancas não enfrentam esta realidade cruel no País. Uma vez que a Constituição do Brasil registra, no artigo 5º, o direito à liberdade de crença, e sendo laico o Estado tem a obrigação de garantir esta liberdade a todos os cidadãos. Os ataques às religiões de matriz africana demandam atenção urgente dos órgãos responsáveis, a começar pelo Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, pelo Ministério da Justiça e o Poder Judiciário.

Portanto, a fala do presidente da República na ONU, que acusa outros países de praticarem o que se expõe de forma gritante em sua própria terra, revela-se, no mínimo, uma grande intolerância!

 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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