Diálogos da Fé

Blog dedicado à discussão de assuntos do momento sob a ótica de diferentes crenças e religiões

Diálogos da Fé

A religião que sacrifica vidas

‘O mercado passa a ser apresentado como um ser supra-humano a quem devemos servir, um deus’, escreve Magali Cunha

Foto: iStock
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As posturas do governo federal brasileiro diante da pandemia do coronavírus, que até a redação deste artigo havia matado quase 570 mil brasileiros/as, desde o início deixaram claro a prioridade de suas ações diante de toda a situação: a economia do País.

Continua a sair, frequentemente, da boca do Presidente da República a frase “a economia não pode parar”, quando ele critica medidas de prevenção à pandemia, baseadas no resguardo social de todos os cidadãos. Nesta lógica, comércio, indústria e serviços estiveram sempre em primeiro lugar para funcionar plenamente com seus trabalhadores e consumidores, ainda que esses arrisquem suas vidas no transporte público e na convivência direta em espaços de trabalho.

Há algumas décadas a economia tornou-se prioridade nos projetos de governo e na execução de suas ações.

Mas não a economia da vida, no sentido de “administrar a casa”, a nossa casa comum, como é o sentido do termo grego οικονομία que lhe dá origem, mas a economia que tem como prioridade a concentração de renda, o lucro dos grandes grupos, o mercado (oferta e circulação de bens e serviços que demandam consumo) e suas ramificações (o sistema financeiro).

Desde que houve a derrocada do bloco socialista no mundo, no final dos anos 1980, juntamente com a explosão da revolução tecnológica informática, duas ideologias passaram a vigorar com força: 1) a história chegou ao fim, isto é, toda a evolução da história desembocou na plena realização do sistema capitalista (do mercado); 2) o mercado desregulado é a única salvação para as economias do mundo.

A ideia central desta ideologia que ganhou o mundo nos anos 90 é que a crise-econômico social, especialmente vivida nos países mais pobres, é resultante dos desmandos do Estado que controlava tudo e não era eficiente na produção de riquezas. O lema passou a ser “menos Estado, mais iniciativa privada”, ou seja, tudo o que ficava sob os cuidados do Estado (saúde, educação, lazer, aposentadoria, serviços, bens e empresas públicos) deveria ser entregue à iniciativa privada (privatização) pois seria cuidado com eficácia. Ainda que as nações tivessem que experimentar “alguns sacrifícios”, o capitalismo ofereceria a “abundância de consumo”.

Para se atingir o paraíso, abandonou-se o espírito de solidariedade e comunhão, criou-se uma cultura da insensibilidade e da indiferença social, impondo-se a competição para a sobrevivência dos mais capazes, merecedores de um “lugar ao sol”. O mercado passa a ser apresentado como um ser supra-humano a quem devemos servir, um deus, que tem sentimentos (“o mercado fica nervoso” diante de certas crises sociais ou “o mercado aceita” algumas ações governamentais) e os revela na queda e na subida de bolsas de valores ou de moedas.

Com o abandono da sensibilidade, da solidariedade e da caridade e a imposição da competição, emergem os sacrifícios humanos. Para o deus se manter em seu poder, idolatrado, vidas que não contam nesta lógica (quem não domina tecnologia, quem vive de trabalho considerado “desqualificado”, quem não pode pagar pelo atendimento às necessidades básicas, quem vive à margem deste sistema) não são priorizadas e são lançadas à própria sorte.

Basta recordar episódios no Brasil, como o rompimento de barragens de Brumadinho e Mariana e o que (não) foi feito da vida de trabalhadores da Samarco/Vale e da população que habitava os locais. Da mesma forma, a indiferença em relação ao extermínio de povos indígenas e da população prisional, das consequências de operações policiais nas favelas e periferias das cidades, entre tantas outras situações.

Na lógica mais recente deste sistema, emprego deve ser extinto, dando prioridade ao trabalho informal e que cada um seja “chefe de si mesmo”, com seu CNPJ. É o tal “empreendedorismo”, uma ideologia que exalta a retirada de direitos sociais referentes ao trabalho para a privatização, ou individualização, de tudo o que diz respeito a ele, ou seja, sem qualquer regulação, no preceito do “cada um por si”.

Nesta lógica, tanto consertar computadores quanto vender bolinhos ou fazer entregas de bicicleta é empreender. O que significa trabalhar 14 horas por dia, ou mais, 365 dias por ano, se se quiser, de fato, ter alguma renda básica e pagar as contas, manter uma família, para o resto da vida. Quem não consegue não construiu mérito, não se esforçou o suficiente. Por isso, é passível de ser sacrificado.

Quem rompe com esta ideologia, a questiona e busca alternativas é classificado, no mínimo, como defasado, pré-histórico, ou como comunista, preguiçoso e desmerecedor de qualquer agrado do sistema.

A versão religiosa desta ideologia chama-se “Teologia da Prosperidade”, baseada na “Teologia da Retribuição”, pela qual se prega que deus, na verdade o próprio sistema, abençoa quem faz por merecer. Quem não toma posse da bênção é amaldiçoado, sacrificado.

É neste contexto que a advogada e professora de Direito, deputada estadual católica Janaína Paschoal (PSL/SP) fez declarações públicas contra o Padre Julio Lancellotti, que atua no atendimento solidário de moradores de rua. Como solidariedade não tem seleção, o Padre Lancellotti atende viciados em crack, que habitam a chamada “cracolândia”, e, por isso, foi acusado pela deputada de colaborar com o crime, ao cuidar dessas vidas. Janaína declara ter fé no mesmo Deus do Padre Lancellotti, mas se revela fiel do deus-sistema, do individualismo, da meritrocracia, da insensibilidade e da indiferença.

Bolsonaros, Guedes e Janaínas estão por aí como sacerdotes da religião do sacrifício das vidas na terra. No entanto, enquanto a religião do amor, da solidariedade, da empatia, do cuidado, se encarnar em Lancellotis espalhados neste Brasil e no mundo, com títulos ou sem eles, que teimam em andar na contramão do sistema, vale a pena cultivar a esperança de que um outro mundo é possível.

Magali Cunha

Magali Cunha
Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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