A prática do mal disfarçado em bem

Igreja tem se manifestado sobre questões de cunho político-social, afirmando a manifestação do testemunho do Evangelho

Papa Francisco. Foto: Alberto Pizzoli / AFP

Papa Francisco. Foto: Alberto Pizzoli / AFP

Diálogos da Fé

Desde a realização do Concílio Vaticano II com sua ampla abertura para uma “modernização” da Igreja e de sua forma de atuar junto e com o Povo de Deus, razão de sua existência, uma espécie de nova consciência sobre sua missão a serviço dos mais pobres, marginalizados e oprimidos despertou em seu seio. Estava declarada sua opção preferencial, fazendo resplandecer o verdadeiro espírito do Evangelho.

 

 

 

Afirmaram os Bispos reunidos no Sínodo de 1985 em Roma: “Jesus Cristo declarou bem-aventurados os pobres e Ele mesmo quis ser pobre por nós. Além da pobreza material, há a falta de liberdade e de bens materiais que, de algum modo, pode chamar-se uma forma de pobreza, e é especialmente grave quando a liberdade religiosa é suprimida pela força. A Igreja deve denunciar, de maneira profética, toda a forma de miséria e de opressão, e defender e fomentar em toda a parte os direitos fundamentais e inalienáveis da pessoa humana. Isto vale sobretudo quando se trata, de defender a vida humana desde o seu início, de a proteger em todas as circunstâncias contra os agressores e de a promover verdadeiramente em todos os seus aspectos”.

Nesse pequeno texto – atrelado a muitos outros -, fica clara qual a missão da Igreja no Brasil e no mundo, como afirma a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB. Para o povo cristão católico e também para as demais igrejas que atuam ecumenicamente, esta é uma verdade a ser seguida e apoiada. A Igreja é evangelizadora e eminentemente pastoral. Mas isto não significa, sob hipótese alguma, que deva omitir-se em relação aos problemas socioeconômicos na medida em que esses atinjam direta ou indiretamente questões éticas e morais.

Entende a Igreja que a ordem política está sugestionada à ordem moral e, por esta razão, busca definir com clareza as exigências de natureza moral a respeito de questões morais oriundas da ação política. Deste modo, não se omite – ao contrário, considera seu dever – emitir juízo sobre questões relacionadas com a ordem política, sempre que afetarem os direitos fundamentais da pessoa humana.

Em dias atuais, as declarações da Igreja e de seus Bispos indicam questões relacionadas aos valores da honestidade e da verdade, da liberdade e da justiça e da inclusão e participação de cada pessoa no processo administrativo do País, como centro de suas preocupações.

 

Há que se superar as falsas oposições entre, por exemplo, os serviços em favor do mundo e a missão espiritual

 

Indubitavelmente, o atual quadro sociopolítico brasileiro coloca em risco o processo democrático e sua consolidação e eleva o nível de preocupação da Igreja, que não tem ambições ou é animada por intenções políticas de qualquer natureza. Da mesma maneira, não tem a intenção de intrometer-se em disputas ideológicas ou partidárias. Mesmo tendo plena consciência de que seus discursos encontram elevada receptividade e têm grande penetração no seio do povo, não admite desviar-se de sua missão primordial.

Contudo, reconhece que um pretenso apoliticismo – lamentavelmente difundido e incentivado pelos setores dominantes da sociedade – pode resultar, na prática, em atitudes de concordância com ações contrárias aos anseios do povo trabalhador e dos mais empobrecidos, configuradas por determinados estilos de exercício do poder político. Nisto se configura sua missão política, contudo, na acepção plena do termo.

Com a lucidez que lhe é peculiar, a Igreja tem se manifestado sobre questões de cunho político-social, ético e moral, afirmando que o testemunho do Evangelho não está circunscrito à emissão de juízos críticos diante de injustiças cometidas, bem como a meras denúncias das situações de pecado da parte dos responsáveis pela institucionalização destas. Mas, sim, atuar de maneira solidária e comprometida para que uma sociedade mais humana e digna seja edificada. Esta é uma das razões – das mais fortes -, que impulsiona a Igreja a proclamar e defender a justiça social, e a não aceitar que sua missão seja limitada a uma concepção de princípios rigidamente atemporais.

Para nós, cristãos comprometidos com a liberdade, a justiça social e a ética a Igreja exerce relevante participação em defesa dos requisitos éticos, estimulando a todos que aceitam o Evangelho e o cristianismo a seguirem com retidão na direção da total restauração e fortalecimento da democracia em nossa nação.

Ciente de que as ações norteadas por interesses imediatistas e egoístas – mesmo que construídos com fórmulas habilidosas -, jamais trarão a paz e a ordem política esperadas pela maioria, a Igreja tem exortado os partidos políticos, grupos organizados, movimentos e pastorais sociais, bem como aos governos instituídos, a dirigirem seus olhares e focos para novos horizontes com maior amplitude.

Considerando que o restabelecimento da plena democracia em nosso país tem sofrido resistências, de um lado, pelo receio e o temor de muitos diante da possibilidade de acesso político de grupos sociais atualmente marginalizados e submetidos às decisões nacionais alçando esferas que lhes permitam defender seus direitos e, de outro, por minorias inconformadas com a perda de privilégios que sempre lhes foram garantidos pelo sistema político governamental.

Em sintonia com a Igreja de todo o mundo, a Igreja do Brasil manifesta sua comunhão com aqueles que sofrem perseguição por defenderem a justiça. Anuncia com destemor, que devemos buscar compreender integralmente sua missão salvífica em relação aos povos de toda a terra. Embora de cunho espiritual, sua missão implica também a promoção de melhores condições de vida das pessoas no campo material. Daí sua missão não ser reduzida a um monismo. Por certo, há uma clara distinção nessa missão, mas de modo algum uma separação entre os campos espiritual e material. Não se trata de um dualismo. Há que se superar as falsas oposições entre, por exemplo, os serviços em favor do mundo e a missão espiritual.

 

Não cabe em qualquer circunstância que seja, um cristão dar apoio às práticas de tortura, intimidação e pena de morte

 

Exemplo clássico desta missão e sua abrangência nos campos espiritual e material, foram – e continuam sendo – as Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. Constituídas por pequenos núcleos organizados nos meios urbano e rural, congregavam pessoas das mais distintas origens, em sua maioria, trabalhadores explorados pelos patrões, subordinados a condições impróprias de trabalho e salários irrisórios que não lhes permitiam viver com dignidade. Unidos pelas mesmas motivações, os participantes das CEBs buscavam, através da reflexão no Evangelho, um futuro melhor para si, seus familiares e demais famílias, um futuro melhor em comunhão com Cristo e seus ensinamentos. Sem dúvida, as CEBs constituíram o maior fenômeno religioso e pastoral da Igreja por décadas e, ainda hoje, apesar de todas as perseguições que sofreram, continuam resistindo e atuando junto ao povo mais sofrido da sociedade.

Durante a Segunda Assembleia Geral do Episcopado Latino-americano, realizado na cidade de Medellín – Colômbia em 1968, a CEBs foram objeto de atenção dos bispos ali reunidos. Na Terceira Assembleia realizada em Puebla – México em 1979, ocuparam lugar de destaque ao lado da Teologia da Libertação.

O documento final da Conferência de Puebla declara a respeito das CEBs:

A comunidade eclesial de base, enquanto comunidade, integra famílias, adultos e jovens, numa íntima relação interpessoal na fé. Enquanto eclesial, é comunidade de fé, esperança e caridade; celebra a palavra de Deus e se nutre da eucaristia, ponto culminante de todos os sacramentos; realiza a palavra de Deus na vida, através da solidariedade e compromisso com o mandamento novo do Senhor e torna presente e atuante a missão eclesial e a comunhão visível com os legítimos pastores, por intermédio do ministério de coordenadores aprovados. É de base por ser constituída de poucos membros, em forma permanente e à guisa de célula da grande comunidade. “Quando merecem o seu título de eclesialidade, elas podem reger, em solidariedade fraterna, sua própria existência espiritual e humana” (EN 58).

Os cristãos unidos em comunidade eclesial de base, fomentando sua adesão a Cristo, procuram uma vida mais evangélica no seio do povo, colaboram para questionar as raízes egoístas e de consumismo da sociedade e explicitam a vocação para a comunhão com Deus e com os irmãos, oferecendo um valioso ponto de partida para a construção duma nova sociedade, “a civilização do amor”. As comunidades eclesiais de base são expressão de amor preferencial da Igreja pelo povo simples; nelas se expressa, valoriza e purifica sua religiosidade e se lhe oferece possibilidade concreta de participação na tarefa eclesial e no compromisso de transformar o mundo. (Puebla, 641,642,643)

Como se pode observar, as CEBs reuniam em sua essência a missão da Igreja. Contudo, por tratar-se de um instrumento que evangelizava e formava as pessoas no que se refere a questões sociais, sofreu perseguições das mais diversas, o que, no decorrer dos anos as enfraqueceram. Vale registrar, que tais perseguições eram oriundas de esferas civis e religiosas, que não admitiam o empoderamento dos leigos, sobremaneira os mais simples, visto que estes estavam descobrindo seu verdadeiro poder frente a uma sociedade excludente e exploradora.

 

Fé

Fiquemos alertas para não sermos enganados por ‘lobos em pele de cordeiro’ que se infiltram entre homens e mulheres de boa-fé. Foto: istock

 

Para combate-la, comunidades, Igrejas e seitas neopentecostais proliferaram numa velocidade espantosa. Acusando as CEBS de serem núcleos comunistas, adotaram interpretações fundamentalistas das Sagradas Escrituras e criaram conceitos de fé que beiravam o fanatismo. Adotando a chamada Teologia da Prosperidade, grande número dessas “igrejas”, munidas de apoios diversos vindos de diversos setores sociais, apresentaram-se como um reduto seguro para milhares de pessoas.

Com discursos radicais, condenavam a participação das pessoas em questões políticas e sociais, instruindo-as a “aguardarem em Deus as melhoras que desejavam para suas vidas”. Pastores e líderes religiosos tornaram-se verdadeiros gurus espirituais, exercendo poder de controle e dominação assustadores.

Não tardou para que grupos políticos e sociais de pensamento ultraconservador – e por que não dizer de ultradireita -, se aproximassem e conseguissem influenciar diretamente tais agremiações ditas religiosas.

Movidos ou induzidos para se posicionarem radicalmente contra qualquer tipo de movimento ou religião de cunho mais progressista, normalmente enquadrados como “marxistas e/ou comunistas”, estas novas religiões disseminam o ódio e a intolerância religiosa. Não bastasse, instigam seus adeptos a não votarem em candidatos ditos de esquerda ou progressistas, acusando-os de libertários e defensores de uma “sociedade desregrada”. Estimulam o preconceito contra minorias, condenando-as ao “inferno” e acusando-as de serem as causadoras de todos os infortúnios sociais, pois como “pecadores”, provocaram a “ira de Deus”.

Não obstantes, envoltos pela política mercadológica do consumismo e do possuir cada vez mais, amplamente difundida pela Teologia da Prosperidade, milhares de fiéis são levados a “negociar com Deus” numa proposta de ser recompensado na medida em que investe financeiramente nas “obras da Igreja”. Diga-se ainda, também nos meios católicos neopentecostais.

Ainda em termos políticos, são muitos os que enxergaram neste viés religioso a oportunidade de se elegerem para diversos cargos públicos. Outros, em troca de apoio a determinados candidatos ou partidos políticos, negociaram cargos ou comandos de órgãos públicos diversos. Contudo, ao se elegerem ou ocuparem cargos de alto escalão nas diversas esferas administrativas, seja no executivo ou no legislativo, distanciam-se das pessoas que os elegeram. Prova desta prática está configurada nas Chamadas Bancadas Evangélicas presentes no Congresso Nacional, Assembléias Legislativas e Câmaras de Vereadores e na nomeação de religiosos para cargos importantes e com altos salários.

 

Baseando-se no amor fraterno, na misericórdia e na graça de vivermos como irmãos que somos, o papa nos presenteia com um manual de conduta ética a ser seguida face às atrocidades hoje impostas pelos ‘donos do poder’ àqueles condenados a viverem na extrema pobreza e no abandono total por parte dos governos em todo o mundo

 

Importante observar, que quando em campanha, todos defendem a ética e a moral como bandeiras a serem defendidas a qualquer custo. Classificam como imoral aquilo que percebem ser rejeitado pelos eleitores que buscam. Entretanto, onde está a ética e a moral em suas condutas?

Recentemente, Gerd Wenzel, comentarista da ESPN Brasil e colunista da Deutshe Welle, divulgou em seu Twitter a seguinte informação: “…o torturador Brilhante Ustra também era membro e presbítero da Igreja Presbiteriana do Brasil. Fazia parte do quarteto de ferro que perseguia subversivos na igreja, composto pelos coronéis Renato Guimarães, Teodoro Almeida e Walter Faustini, todos presbiterianos”.

Não estamos aqui condenando ou julgando a Igreja em questão. Mas o que nos incomoda é saber que uma Igreja de Confissão Cristã tenha tido em seus quadros presbíteros que torturavam e matavam dissidentes do sistema de governo da época.

Não cabe em qualquer circunstância que seja, um cristão dar apoio às práticas de tortura, intimidação e condenação à pena de morte ou a quem as defenda ou pratique. Isto contraria radicalmente os ensinamentos do Mestre de Nazaré, que à sua época, também foi considerado subversivo e condenado à tortura e morte de cruz. Como uma pessoa pode se afirmar cristã, se posicionando favorável àqueles que condenaram o Cristo à pena de morte sob tortura? Algo aqui não se encaixa.

Por fim, podemos dizer, que o incentivo a todo tipo de preconceito, à prática da xenofobia, da homofobia, da intolerância religiosa, da disseminação do ódio contra as minorias, da defesa inconteste desse sistema neoliberal que exclui e condena à miséria milhões de pessoas, de uma economia capitalista que privilegias os ricos e sacrifica os pobres não cabe e não pode ser defendido por que confessa sua Fé em Cristo e afirma viver de acordo com o Evangelho.

Àqueles que acreditam num Brasil melhor com mais justiça e menos desigualdades, conclamamos a não se calarem, a não se omitirem diante de tantas práticas contraditórias diante das verdades éticas e morais. Devemos nos manter atentos para não perdemos os nossos direitos conquistados a duras penas. Devemos defender a democracia social tendo clareza de sua importância para a constituição de uma sociedade mais justa e solidária.

 

Que tenhamos a sabedoria para reconhecer em nosso meio àqueles que verdadeiramente buscam viver e defender a verdade, a justiça e a paz para todos indiscriminadamente.

 

Recomendamos a leitura da nova Encíclica do Papa Francisco “Fratelli tutti – sobre a fraternidade e a amizade social”. O Santo Padre exorta-nos a resgatarmos os verdadeiros valores cristãos e de solidariedade entre os homens. Baseando-se no amor fraterno, na misericórdia e na graça de vivermos como irmãos que somos, o papa nos presenteia com um manual de conduta ética a ser seguida face às atrocidades hoje impostas pelos “donos do poder” àqueles condenados a viverem na extrema pobreza e no abandono total por parte dos governos em todo o mundo.

Fiquemos alertas para não sermos enganados pelos “lobos em pele de cordeiro” que se infiltram entre os homens e mulheres de boa-fé, para lhes enganar e tirar proveito de sua bondade – e por que não dizer -, ingenuidade.

Fiquemos firmes. Usemos o cinturão da verdade. Vistamo-nos com a couraça da justiça. Calcemos os pés com a prontidão para o Evangelho da paz. Estejamos sempre com o escudo da fé, com qual poderemos apagar as flechas inflamadas do maligno. Peguemos o capacete da salvação e a espada do Espírito, que é a palavra de Deus (Ef 6, 14-17), para resistirmos a todos os embustes e embusteiros que se escondem em nosso meio.

É nossa missão, enquanto Igreja – Povo de Deus, levar a Boa Nova de Cristo à todas e todos, em espírito e em verdade, amando verdadeiramente não apenas com palavras ou com a língua, mas por obras e em verdade (1Jo 4 1).

Que tenhamos a sabedoria para reconhecer em nosso meio àqueles que verdadeiramente buscam viver e defender a verdade, a justiça e a paz para todos indiscriminadamente.

Que sejamos capazes de amar uns aos outros com destemor, “pois no amor não existe medo. Pelo contrário, o amor perfeito joga fora o medo, porque o medo supõe punição; e quem sente medo, ainda não se encontra perfeito no amor” (1Jo 4, 18).

Lembremo-nos sempre destas palavras: “Se alguém disser: ‘Eu amo a Deus’, mas odeia seu irmão, esse tal é um mentiroso. Pois quem não ama seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê”. (1Jo 4,20)

Shalom!

 

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Pároco da Paróquia São Francisco de Assis de Ermelino Matarazzo, Diocese de São Miguel Paulista, na zona leste de São Paulo-SP. Importante liderança dos Movimentos e Pastorais Sociais da região, atua nas mais diversas áreas em defesa de Políticas Públicas que atendam efetivamente às necessidades da população.

É licenciado em Filosofia e bacharelando em Teologia. Escritor, agente de pastoral, assessor de movimentos sociais, gestor da Rede de Escolas de Cidadania de São Paulo.

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