Diálogos da Fé

A Palestina continua a clamar

Os últimos conflitos me fizeram lembrar de uma visita à região em 2016 e dos apelos que ouvi por paz e justiça

Protesto na Espanha, um de vários pelo mundo, contra a violência de Israel
Protesto na Espanha, um de vários pelo mundo, contra a violência de Israel

Os palestinos voltaram mais uma vez aos destaques do noticiário. É um povo muito sofrido, como o é boa parte dos habitantes do Oriente Médio, alvo histórico de muita exploração econômica e política.

O Conselho Mundial de Igrejas tem a Palestina e Israel como prioridade para ações e para o incentivo à solidariedade ativa das igrejas espalhadas pelo mundo.

Em 2016, o Grupo de Referência do projeto Peregrinação de Justiça e Paz visitou Israel (Jerusalém) e a Palestina (Belém). Sou parte deste grupo, formado por 25 integrantes de igrejas e países diferentes e um líder judeu e outro islâmico.

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Nossa tarefa consiste em visitar, anualmente, países e regiões que vivem em situações-limite pela falta de justiça e paz, e depois de observar situações e ouvir moradores, reunirmo-nos para propor ações específicas para o CMI e para igrejas sensíveis a estas causas em todo o mundo.

Acompanhando com indignação, tristeza e preocupação o noticiário sobre o que tem acontecido na Palestina, reli o meu diário da visita à região em fevereiro de 2016, em busca de esperança. Compartilho neste espaço o trecho de um dos dias.

Visitar o Muro da Separação construído por Israel, com todo o concreto, com os checkpoints de portões de aço e com as intimidantes torres de vigilância é algo marcante para a vida.

Impressiona a separação, a segregação e a humilhação impostas. A barreira física de quase 800 quilômetros, construída, segundo o governo de Israel, para “evitar a infiltração de terroristas”, corta terras palestinas e isola quase meio milhão de seres humanos. Apesar de condenada pelo Tribunal de Haia, em 2004, por conta das implicações políticas, legais e humanitárias, a construção prossegue.

Chegamos no bloqueio de Kalandra (Ramallah) às cinco e meia da manhã para testemunharmos o tratamento aos trabalhadores palestinos que têm documento de trabalho em Jerusalém e são obrigados a cruzar o muro. Além deles, crianças, adolescentes e gente de todas as idades beneficiárias de escolas e hospitais que ficam do outro lado do muro têm de passar ali diariamente.

São filas intermináveis para atravessar três portões com corredores e catracas estreitíssimas, com revista, raio X e guichê para identificação. Há um corredor separado (chamado ironicamente de “Linha Humanitária”) destinado a crianças, mulheres e idosos, nem sempre aberto.

O processo é lentíssimo. Os policiais agem com visível brutalidade e grosseria. Quem precisa atravessar pode ficar horas à espera. As fisionomias falam do sofrimento. Muitos jovens. Não é difícil deduzir o que leva um desses jovens a tornar-se um extremista…

Os soldados também são garotos de seus 20 anos. Empoderados com metralhadoras potentes nas mãos, usam-nas muitas vezes para intimidar (como nos momentos em que entraram no nosso micro-ônibus para nos interrogar nos muitos bloqueios). Frequentemente usam suas armas para bater em quem, segundo eles, estaria atrapalhando a longa fila, seriam suspeitas ou o fazem ainda por motivos banais. Como não chorar por estes jovens, tanto de um lado quanto do outro?

O muro, apresentado como “segurança”, revela-se muito mais do que isto. Tornou-se uma barreira para aumentar a ocupação ilegal do território palestino por “colonos israelenses”, que, além de tirar recursos dos palestinos (como terra cultivável e água), limitam a chegada de ajuda humanitária para campos de refugiados e áreas afetadas por seca.

A questão da água (um tesouro na região) causa indignação: Israel tem controlado as reservas locais, permitindo que cada residência palestina tenha 20 litros por dia, enquanto os “colonos” têm 700.

As palavras que ouvimos do Bispo da Igreja Evangélica Luterana no Jordão e na Terra Santa Munib Younan, ele mesmo um palestino, foram marcantes. Para o bispo, enquanto não houver paz com justiça entre Israel e Palestina, haverá mais e mais problemas no Oriente Médio.

 “Tenho esperança, mas não sou otimista”, disse. Isto porque, pensa o bispo, extremistas do lado israelense (conservadores que governam) e do lado palestino (grupos que promovem terror) não querem a solução baseada na criação de dois Estados. Cada qual quer dominar um Estado próprio. Cada um fala como se falasse por todos do seu grupo e eles não representam este todo.

O Bispo Younan diz: “É preciso bom senso e razão numa terra que está cansada de humilhação. Falem a verdade aos poderes. Esta terra está sangrando e precisamos de vozes pela paz, pela reconciliação e pela justiça.”

Ele pediu para não cairmos nas armadilhas de israelenses que acusam de antissemitismo todos os que criticam as suas políticas e agem contra elas. Ele lembra: “Antissemitismo é ódio aos judeus por serem judeus. Respeitamos os judeus, mas odiamos a ocupação ilegal que fazem, pois ela não é própria do judaísmo. Com a ‘islamofobia’ é a mesma coisa”.

O bispo prossegue em sua reflexão: “Também se critica que igrejas falando de justiça estão fazendo política. Mentira. As injustiças precisam ser enfrentadas com a linguagem da verdade e do que é direito… Nós, cristãos aqui, não somos perseguidos por muçulmanos. Quem divulga que há perseguição aqui são alguns grupos evangélicos conservadores que querem esconder o cenário com profecias de que a ‘tribulação final’ é iminente. Querem mostrar que o islã é o mal. Quem fala isto não ama os cristãos, ama este cenário de violência”.

As idas e vindas dos palestinos ao noticiário não podem nos permitir esquecer do seu clamor. Em outra oportunidade, compartilharei novos trechos do meu diário.

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