A luta antirracista das mulheres negras na Igreja

Não aceitamos o que se tem feito em nome de Deus para garantir que as desigualdades sociais se perpetuem em nossa sociedade

Imagem: iStock

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Diálogos da Fé

Em agosto de 2018, várias lideranças evangélicas do Brasil se reuniram no Recife para realizar o primeiro encontro de mulheres negras cristãs, da Rede de Mulheres Negras Evangélicas. No encontro, as participantes firmaram um compromisso de lutarem contra o racismo religioso, contra o genocído de Estado, o fundamentalismo religioso e por um ensino bíblico que respeite a lei 10.639/03, que institui o ensino da História e da Cultura Afro-Brasileiras nas escolas. Estamos em novembro, e quero compartilhar com vocês os labirintos das Igrejas Evangélicas que não estão nas TVs dos grandes impérios religiosos.

Eu comecei a integrar a Rede em nosso encontro de Salvador (BA). Ali, conheci mulheres potentes que estão na base da sociedade brasileira lutando por justiça e paz e que compartilharam a experiência da maternidade negra, em que os filhos estão expostos à violência de Estado. A cada 23 minutos, morre um negro pelas mãos da polícia. Ouvimos histórias de quem dá duro todos os dias para garantir o pão na mesa e que, nos labirintos desconhecidos das igrejas evangélicas, praticam a solidariedade.

 

No Brasil, são quase 20 milhões de mulheres negras evangélicas que, quando se pensa em várias igrejas, são apagadas de alguma forma por pastores brancos, ricos, fundamentalistas e que exploram a fé pelo dinheiro.

Neste novembro negro, quero contar um pouco sobre como mulheres negras evangélicas estão nas igrejas e como a potência de suas redes de afeto e luta são fundamentais para que se combata o racismo no meio religioso.

A consciência de sua negritude é o primeiro ponto. A Rede de Mulheres Negras Evangélicas vem trabalhando com a recuperação da negritude, a valorização de nossa ancestralidade e a luta contra o racismo que acomete nossas irmãs de religiões de matrizes africanas. Temos aprendido que nos reconhecer negras é um passo fundamental para que o racismo não seja naturalizado em nossa espiritualidade. Quando mulheres negras leem a bíblia e a interpretam a partir dos seus corpos e experiência de vida é revolucionário. É o poder do homem branco sendo fraturado por uma rede de mulheres que entendem qual o seu papel histórico e político, em um momento em que o fundamentalismo religioso está empoleirado no Congresso Nacional e de braços dados com o neoliberalismo.

Assim, quando negras evangélicas que lutam pela equidade de raça e gênero se posicionam é um marco para a queda de um religião cristã branca que há séculos coloniza e cristianiza uma população que é economicamente explorada. Ora, de quem são os filhos que estão sendo explorados pelo capitalismo recebendo um valor de miséria senão os nossos?

A consciência política é um segundo passo importante pelo qual lutamos. Temos que saber que a exploração dos nossos corpos pretos não é vontade de Deus, é vontade do homem branco colonizador. Mais do que a exploração do dízimo, denunciamos a exploração das pessoas pretas pela precarização do trabalho, pelo mercado informal que fez com que as negras fossem as maiores vítimas da pandemia da Covid-19.

Uma coisa bonita de se ver é como essa geração mais jovem de mulheres negras evangélicas é uma geração de jovens que entraram nas universidade e com as ferramentas da educação passaram a questionar a exploração e a submissão que acomete nossa população preta em muitas igrejas. O acesso à educação é fundamental para que pastores de má fé – como aquele que proibiu as filhas de cursarem uma graduação – não explorem as pessoas mais vulnerabilizadas no Brasil.

A luta por direitos humanos também é um imperativo da Rede de Mulheres Negras Evangélicas. Ora, como teremos uma sociedade igualitária se todas as pessoas não tiverem garantidos direitos básicos como educação, saúde, moradia e renda? E por isso mulheres negras evangélicas devem e fazem política.

Em 2020, tivemos cerca de cinco candidatas às eleições municipais. Nós firmamos um compromisso de lutar por justiça, paz, igualdade e pelo Estado laico. Sabemos que faz parte da nossa tarefa lutar contra a relação promíscua entre a religião evangélica e o governo Bolsonaro. Não aceitamos o que se tem feito em nome de Deus para garantir que as desigualdades sociais se perpetuem em nossa sociedade.

Há um movimento de mulheres negras evangélicas, que envolve outros coletivos evangélicos feministas, que coloca em primeiro lugar a luta contra o racismo e contra o uso da Bíblia para manter a hierarquia entre pessoas brancas e negras. Rosa Parks, Sojourner Truth, Fannie Lou Hamer, dentre outras mulheres negras protestantes que marcaram a história por combaterem o racismo e a desigualdade social são alguns nomes dessa luta.

Se faz necessário que as pessoas reconheçam outras narrativas sobre as mulheres negras evangélicas, que reconheçam seu protagonismo dentro das igrejas, nas ações de solidariedade e na rede de afeto que há entre elas. Há de se reconhecer que a religião evangélica é a religião brasileira mais negra e periférica. E, enquanto movimento negro, não podemos acreditar que vamos combater uma estrutura racista sem estar ao lado de mulheres e homens negros evangélicos que sofrem o peso do racismo diuturnamente em suas vidas.

As pessoas negras evangélicas que leram este texto juntem-se a nós. Combater o racismo é parte de uma fé que se guia pelo Jesus de Nazaré, perseguido político, pobre e marginalizado pelos grandes religiosos de sua época. A Teologia Negra tem nos mostrado que devemos ter um lado nesta sociedade, contra o genocídio da população negra, a pobreza e a desigualdade que acomete na maior parte de nós. Uma fé atirracista é possível e o primeiro passo é reconhecer que a Igreja deve escolher o lado dos movimentos sociais, das lutas por moradia e Justiça.

Por fim, um evangelho negro feminista brasileiro é viável, pois o vejo acontecer todos os dias quando acolhemos umas às outras em nossas reuniões: defendendo uma irmã que sofreu racismo por causa do cabelo, ou pelo tom da pele dentro das igrejas, e lendo a bíblia segundo nossos corpos e experiências de vida.

A revolução antirracista não acontecerá sem os milhões de negras e negros cristãos brasileiros. Temos que fazer essa mensagem ecoar e chegar ao maior número de pessoas possível. Um novembro de lutas! Viva Zumbi dos Palmares!

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Evangélica, cientista social, mestra em educação e doutoranda em antropologia. É da Rede de Mulheres Negras Evangélicas e articuladora da Coalizão Evangélica Contra Bolsonaro

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