A fé e a ventania que derruba estátuas e estruturas

Uma ventania derrubou a estátua da rede de lojas Havan, em uma cidade do Rio Grande do Sul. Podemos tomar esta imagem como símbolo revelador

(Foto: Reprodução)

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Diálogos da Fé

Depois de perder mais uma pessoa querida para a covid-19, dou uma pausa na análise do lugar dos evangélicos no cenário político do Brasil, oferecida neste espaço nas últimas semanas. Peço licença aos leitores e leitoras de Diálogos da Fé para partilhar uma inspiração neste novo tempo do calendário cristão, iniciado neste maio: Pentecostes. 

Nestes dias tão difíceis que estamos vivendo, este é um tempo muito propício tanto para pessoas que têm fé, quanto para aquelas que não têm. É um convite para nos deixarmos levar no vento, aquele que sopra onde quer, derruba barreiras, demole estruturas. Como a canção popular ecoa: “Vento, ventania… me deixe cavalgar nos seus desatinos, nas revoadas, redemoinhos…”

A festa de Pentecostes, que significa “sete semanas”, foi originalmente criada pelos judeus para celebrar a colheita de suas plantações. Na tradição cristã, ela ganha novo sentido, pois registra que foi durante o Pentecostes, 50 dias depois da Páscoa, que os seguidores e seguidoras de Jesus, reunidos no mesmo lugar, fechados, com medo de serem perseguidos, foram surpreendidos com a presença divina, expressa simbolicamente em um vento forte e em línguas de fogo. 

A partir dessa experiência, estas pessoas sentiram-se encorajadas a interagirem com outras pessoas e povos, superando barreiras sociais e de línguas. Segundo a narrativa da Bíblia, naquele dia o vento soprou forte e as línguas de fogo aqueceram a fé daqueles homens e mulheres pobres e iletrados. Eles passaram a se comunicar com pessoas de outras culturas presentes à festa: um entendia o outro na sua própria língua, quebrando barreiras culturais e sociais. Além disso, tomaram coragem e se sentiram empoderados para confrontarem os poderes imperiais, ainda que tivesse que pagar o alto preço da perseguição, prisão, tortura e martírio. 

O Pentecostes é, portanto, um período do calendário cristão simbolicamente marcado pelo vento, este que entra por portas e janelas e tira tudo do lugar, derruba estruturas que sedimentam sistemas e relações injustas, e transforma para que tudo seja novo de acordo com a justiça. 

Não é por acaso que a Semana de Oração pela Unidade dos Cristãos acontece, no hemisfério Sul, na semana que antecede o Domingo de Pentecostes. Este evento existe desde 1908 e é celebrado em todo o mundo para desafiar cristãos e cristãs a se soltarem com o vento e superarem as barreiras dogmáticas e doutrinárias que os impede de dialogar e cooperar em defesa da vida em todas as suas dimensões. 

É uma ação significativa das igrejas, abertas e dispostas à unidade em nome da justiça com paz, em um mundo marcado por tantas barreiras socioeconômicas e culturais. Diversas comunidades cristãs espalhadas pelo Brasil estiveram unidas no desejo-oração para que o vento do Espírito derrube estas barreiras em nosso próprio país, em especial neste tempo de pandemia e de escárnio de necropolíticos.

Falando de escarnecedores, não é que tivemos a notícia, no dia seguinte ao Domingo de Pentecostes, de que uma ventania derrubou a estátua da rede de lojas Havan, em uma cidade do Rio Grande do Sul? Como ninguém ficou ferido, podemos tomar esta imagem como símbolo revelador e inspirador deste tempo do calendário cristão.

E a canção popular segue, embasando o desejo de um Pentecostes necessário e urgente: “Vento, ventania, agora que estou solto na vida, me leve pra qualquer lugar, me leve mas não me faça voltar”. Que uma ventania derrube estruturas injustas e políticas de morte, como as que estamos presenciando. Que ela também nos solte as amarras dos lugares seguros e nos encoraje a interagir em “qualquer lugar”: Jacarezinhos, Amazônias, ruas e praças. E que isto seja feito com quem consideramos diferente e gere em nós empatia para quebrarmos as barreiras que nos dividem como humanos e como brasileiros. Ah, e que não nos faça voltar ao mesmo estado de coisas! 

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Jornalista e doutora em Ciências da Comunicação. É pesquisadora do Instituto de Estudos da Religião (ISER) e colaboradora do Conselho Mundial de Igrejas. Escreve neste espaço às quartas-feiras.

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