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A Disney é que deveria conhecer minha mãe

Minha mãe foi empregada doméstica a vida inteira e não sei se visitar a terra do Mickey Mouse fez parte de suas aspirações

(HenningE / pixabay.com)
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Minha mãe foi empregada doméstica a vida inteira. Cozinhou, lavou, passou, limpou banheiro, cuidou da casa de uma mesma família por mais de 30 anos. Pessoas boas, é verdade, que ainda preservam a amizade e a tratam com carinho e respeito. Aposentou-se para cuidar da saúde, mas sente falta da rotina. Hoje, enquanto escrevo este texto, ela está internada no Hospital das Clínicas, tratando de uma insuficiência renal em decorrência das complicações do diabetes.

Não sei se ir à Disney fez parte de suas aspirações. A única vez que manifestou a vontade de viajar ao exterior quis ir a Portugal. Chegamos a tirar seu passaporte inclusive, porém, a doença ainda não permitiu a realização desse sonho. Tenho esperança, mas a debilidade física é resultado de uma vida extremamente sacrificada, cheia de provações, privações, frustrações. Agora que tenho condições financeiras de levá-la pra Europa e até pra Disney, se ela quisesse, constato que depois de duas paradas cardíacas, inúmeras internações, uma trombose que segue rondando, insuficiência renal e cardíaca vai ser muito difícil.

Minha mãe nem completou 68 anos de idade e as consequências de tudo que viveu, ou deixou de viver, desembocam numa velhice problemática, dura, complicada. O que poderia ser o momento de desfrutar de tudo que conquistou (e ter um filho doutor é uma grande conquista dela) continua sendo um tempo de luta. Minha mãe, que ficou viúva aos 32 anos, batalhou a vida inteira como empregada doméstica pela própria sobrevivência e dignidade de sua família e hoje luta pela vida.

Acredito que ver os filhos bem encaminhados e formados, com trabalho, respeito e, principalmente, vivos, tenha sido seu maior desejo, que foi plenamente realizado. Mas sinto que ela concretizou outros sonhos, que passou por experiências incríveis a cada viagem que eu fazia e quando fui à Disney, de algum modo, ela também foi.

Confesso que não sei se era um sonho de criança que de tão impossível passou a ser algo execrado em meu inconsciente, mas viajei para Orlando sem grande empolgação, na onda de uma aventura acessível (talvez minha viagem mais barata). É claro que a economia pujante da “Era Lula”, com nossa moeda mais valorizada, foi o grande atrativo, era hora de “aproveitar”.

No decorrer da viagem nada de mais, até que na chegada ao Magic Kingdom uma melodia despertou meus sentidos. A música “Small World”, na sua versão “Pequeno Mundo”, embalou os domingos de minha geração. A gente andava de chinelo ou Kichute, mas desejava um tênis Montreal, comia o que tinha, mas queria uma Caloi de aniversário, sonhava com o Mickey, a Minnie e o Pateta, mas, com muito sacrifício, ia no máximo ao Playcenter, uma vez na vida, numa excursão da escola.

 

Aquele som ativou minhas memórias mais obscuras, mais tristes. Um nó na garganta. Não me contive. Era pensar em mim, nos meus. Perceber de onde eu vinha e onde eu estava. Era uma vitória. A Disney é emblemática, soa pra muitos de nós como um ritual de passagem. Sobretudo pra um menino pobre, negro, um sobrevivente, é como ultrapassar definitivamente a linha da miséria e não olhar pra trás. É uma ilusão, uma fantasia. Catarse. Eu estava finalmente liberto das dores profundas da infância.

Passado o transe, meu olhar crítico (coisa de antropólogo, talvez) começa a perceber os grupos de brasileiros, muito fáceis de se identificar porque sempre havia um ou mais homens com a camisa da seleção, aquela amarelinha que se tornou uniforme de “gente de bem”. Eram muitas. Muita gente média, digo, de classe média, fazendo questão de demarcar as diferenças. Uma necessidade de se mostrar turistas, um esforço para não se integrar, para não se misturar.

A Disney, certamente, não teve nem tinha pra eles o mesmo significado que teve pra mim. Os sentidos despertados em minha memória não condiziam com aquele tipo de comportamento. Tive pena deles. Olhei solidário inúmeras vezes para as babás, sempre negras e de branco, com olhos brilhando para os brinquedos que seguiriam apenas em sua imaginação. Que bom que minha mãe não foi.

O dólar baixo permitiu que as empregadas domésticas viajassem pra Disney, mas para continuar a serviço dessas famílias, sem nenhum direito ao sonho, sem nunca participar da tal festa. No imaginário racista, classista, elitista de pessoas como Paulo Guedes, a empregada que viaja para continuar trabalhando é uma afortunada, teve o alto privilégio de ir aos Estados Unidos, de andar de avião.

Nas raias da brincadeira, das frases infelizes, do mal-entendido caem sempre as afirmações do presidente e de seus ministros. Ele avisou. Todos sabem pra quem governam, mas o gado desavisado segue esperando sua vez. Uma arma na mão pra mudar o destino, pra resolver todos os problemas do país.

Seguirão fazendo arminha com a mão apenas, sonhando com a redenção de Cristo e dizendo “amém”. O Brasil tornou-se uma grande igreja neopentecostal, vendendo esperança aos incautos, controlando mentes com as falácias dos falsos messias. É o projeto.

Eu realmente acredito que “há um mundo bem melhor”, mas a quem cabe alcança-lo? Minha mãe me ensinou a sonhar com o pé no chão. Ela me levou a tantos países e sempre esteve comigo, em cada viagem, em cada conquista. Eu quero que ela recupere a saúde e que possamos comemorar seu próximo aniversário em Portugal. Minha mãe passou a vida inteira fazendo do pranto uma canção. Uma heroína. A Disney é que deveria conhecê-la.

Pai Rodney

Pai Rodney Pai Rodney de Oxóssi é antropólogo, escritor e babalorixá. Doutor em Ciências Sociais pela PUC-SP. Há mais de 20 anos pesquisa relações raciais, racismo e religiões de matriz africana. É sacerdote do Ilê Obá Ketu Axé Omi Nlá. Escreve neste espaço às sextas-feiras.

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