Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
Simões herda o governo de Zema, mas faltam carisma e votos para ser reeleito
O novo governador de Minas assume após anos como gerente de Zema, mas chega ao cargo com trajetória eleitoral modesta, baixa popularidade e o peso de um estado em crise que já administrava
Empossado neste domingo 22, Mateus Simões (PSD) assume o governo de Minas Gerais com uma missão dupla: tornar-se conhecido e tentar converter em votos a herança política de Romeu Zema (Novo), que deixou o cargo para concorrer à Presidência. Sem nunca ter disputado uma eleição majoritária, Simões está atrás dos principais adversários nas pesquisas recentes e ainda enfrenta alta taxa de desconhecimento entre os eleitores.
Homem de confiança de Zema, ele construiu a trajetória mais como gerentão do governo do que como liderança com apelo popular. Fora dos gabinetes, carrega um ar de bedel de grupo escolar, mais afeito a distribuir ordens e falar grosso do que a criar empatia com o eleitor.
Desde que se engajou na pré-campanha, Simões perdeu muitos quilos após uma cirurgia bariátrica, deixou de usar óculos e também abandonou o terno completo como uniforme quase diário, adotando combinações mais simples, a exemplo do padrinho Zema. Antes do rebranding, críticos ironizavam sua aparência, comparando-o ao impopular personagem Seu Barriga, interpretado por Édgar Vivar no seriado mexicano Chaves.
A mudança de imagem é evidente, mas ainda não virou voto. Ele segue distante do principal adversário, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos), que construiu sua trajetória com vídeos diretos nas redes sociais, quase sempre vestido com camisas de time de futebol. Cleitinho lidera com folga as pesquisas para o governo e é, até o momento, o preferido da direita mineira.
Simões aposta na hipótese de Zema disputar a vice-presidência em uma chapa encabeçada por Flávio Bolsonaro (PL), movimento que, na sua leitura, reorganizaria o tabuleiro em Minas. “A união nacional entre Novo e PL encerraria a discussão local sobre a unificação da direita”, disse em entrevista à Folha de S.Paulo.
A dificuldade de Simões em construir empatia com o eleitor se revela em episódios recentes de confronto direto. A deputada estadual Lud Falcão (Podemos) afirmou ter recebido uma ligação do então vice-governador em tom exaltado, na qual ele teria dito que iria “fechar as portas” do governo para ela e para o marido, o prefeito de Patos de Minas, caso não houvesse um pedido de desculpas por críticas à gestão estadual.
Segundo a deputada, ele deu prazo até a meia-noite e afirmou que “nenhum porteiro do estado” atenderia suas demandas. Simões negou as ameaças e classificou o caso como narrativa de vitimização.
O episódio teve efeito político imediato. Lud Falcão deixou a vice-liderança do governo na Assembleia, e a crise extrapolou o gabinete. Seu marido, Luís Eduardo Falcão (Republicanos), que preside a Associação Mineira de Municípios, aceitou convite de Cleitinho para ser seu vice na disputa pelo governo.
O mesmo tom aparece em outros momentos. Durante a greve dos professores da rede estadual, Simões afirmou que o sindicato deveria “criar vergonha na cara”.
Ao comentar decisões que barravam ou atrasavam ações do governo, elevou o tom e confrontou a Justiça. “Se tentarem atravessar a linha, vão ter que sofrer as consequências, porque não estamos submetidos ao Judiciário como muitas vezes parece. Eles têm limite, e alguém tem que começar a frear as ações dos juízes neste país”, disse Simões.
O estilo direto e pouco conciliador não consegue abafar o cenário fiscal que Simões agora assume. Minas iniciou 2026 com déficit bilionário e uma dívida com a União de 187 bilhões de reais. Ao mesmo tempo, o governo ampliou a concessão de isenções fiscais, que já ultrapassam 20 bilhões de reais por ano.
A lista de empresas beneficiadas é mantida em sigilo, sob a justificativa de proteção ao segredo industrial. Na prática, isso impede saber quem recebe os incentivos, em que condições e qual o retorno efetivo para o estado.
Durante o governo Zema, foi sancionada uma lei que beneficia o setor de locação de veículos e tem impacto estimado em cerca de 460 milhões de reais por ano em perda de arrecadação de IPVA. Entre as empresas alcançadas pela medida estão grupos ligados à Localiza, cujos sócios aparecem entre financiadores da campanha de Zema, segundo registros da Justiça Eleitoral.
Com a cara na urna, Simões teve uma trajetória eleitoral curta e de alcance limitado. Em 2014, tentou uma vaga de deputado estadual pelo PSDB e ficou suplente. Dois anos depois, já pelo Novo, elegeu-se vereador em Belo Horizonte com 5.522 votos.
A relação com o governo Zema, porém, vem desde o primeiro mandato. Em 2018, Simões coordenou a transição do novo governo e, depois, assumiu a Secretaria-Geral. Na prática, consolidou-se como um dos principais operadores políticos e administrativos da gestão antes mesmo de chegar à vice-governadoria.
Essa trajetória ajuda a explicar o descompasso entre currículo e popularidade. Procurador concursado, professor de Direito, Simões construiu uma imagem de eficiência nos bastidores que não se converteu em reconhecimento público.
Ao perceber esse vazio, sua equipe apostou em uma estratégia de exposição nas redes sociais, com vídeos sobre rotina, humor e montagens de gosto duvidoso. Em uma delas, o então vice-governador aparece ganhando superpoderes ao tomar café.
A tentativa de humanização expôs o problema que buscava resolver. Quando tenta se aproximar, soa artificial. Quando tenta se impor, recorre ao tom duro. Entre uma coisa e outra, ainda não conseguiu construir uma linguagem própria com o eleitor.
É nesse cenário que se insere sua fragilidade eleitoral. Nas pesquisas, Simões aparece atrás de adversários com maior capacidade de comunicação direta com o eleitor, como Cleitinho.
Atrás do líder nas pesquisas está ainda o senador Rodrigo Pacheco, que deve deixar o PSD após a filiação de Simões ao partido e busca uma nova legenda para disputar o governo. Pacheco é o nome preferido do presidente Lula (PT) em Minas e tem participado de agendas ao lado do petista no estado, após meses de hesitação sobre a candidatura. Em seguida surge Alexandre Kalil (PSB), embora ainda haja a possibilidade de uma composição com Pacheco, com o ex-prefeito de BH concorrendo ao Senado ao lado de Marília Campos, já lançada pelo PT.
Nesse tabuleiro fragmentado, Simões depende de um ativo que não controla diretamente. Depois de Zema, seu principal fiador político é o deputado federal Nikolas Ferreira (PL), hoje o nome mais influente da direita mineira e um dos políticos com maior alcance nas redes sociais.
Nas últimas semanas, os dois intensificaram agendas conjuntas pelo interior do estado, com registros frequentes nas redes sociais de ambos. A exposição ao lado de Nikolas funciona como um impulso direto à tentativa de Simões de ampliar sua visibilidade.
Nikolas não será candidato ao governo em 2026. Em acordo com o presidente nacional do PL, Valdemar da Costa Neto, deve disputar a reeleição como deputado federal, com a expectativa de puxar votos suficientes para ampliar a bancada do partido em Minas.
Uma vitória de Cleitinho agora criaria um obstáculo relevante nesse arranjo, ao colocar no Palácio Tiradentes um adversário com forte apelo popular e potencial de reeleição. Isso dificultaria o projeto político de Nikolas, que mira o governo em 2030 enquanto aguarda idade para disputar a Presidência em 2034.
O problema é que, até aqui, o novo governador depende mais da força política dos outros do que do capital próprio.
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