Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
Sem fazer o L e sem boné do MST, ex-tucano tenta virar o candidato de Lula em Minas
Gabriel Azevedo disputa o espaço que a recusa de Marília Campos deixou aberto no PT, enquanto a ex-prefeita de Contagem chama de equívoco estratégico a candidatura própria que Lula acabou de autorizar
Gabriel Azevedo, ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte e pré-candidato do MDB ao governo de Minas Gerais, quer o apoio de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), mas não pretende fazer o L. Também não vai vestir o boné vermelho do MST.
Caso divida o palanque com o presidente, o ex-tucano promete juntar os dedos para formar o triângulo da bandeira mineira e não o L de Lula. “Eu posso apoiar um presidente de maneira muito convicta, mas nunca deixar de ser quem eu sou”, disse Gabriel à coluna.
A cena resume a encrenca de Lula em Minas. O presidente autorizou o PT a lançar candidatura própria ao governo, mas o partido continua sem candidato definido. Marília Campos, ex-prefeita de Contagem e pré-candidata do PT ao Senado, não quer. Os parlamentares da sigla tampouco demonstram disposição de assumir a missão. Perder para governador só é bonito no discurso dos outros.
Enquanto isso, Gabriel tenta entrar pela porta que o PT deixou aberta enquanto esperou em vão por Rodrigo Pacheco (PSB-MG), senador e ex-presidente do Senado.
Na quarta-feira 24, Lula recebeu no Palácio da Alvorada a bancada mineira do PT e dirigentes nacionais da sigla. A reunião terminou com uma frase de efeito: o partido terá candidatura própria ao governo. Faltou combinar com a candidata.
Ao fim do encontro, segundo apurou a coluna, os deputados decidiram não vazar os bastidores para a imprensa. A tarefa de falar publicamente coube a Leninha Alves (PT), deputada estadual e presidente da sigla em Minas, que divulgou uma nota em nome do partido. O silêncio combinado, porém, não respondeu à pergunta principal: por que nenhum parlamentar petista colocou a própria bunda na janela para ser candidato?
Sem voluntário, a bucha voltou para Marília. Ela nem sequer participou da reunião. Ainda assim, saiu dela como o nome a ser pressionado para enfrentar Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), senador que lidera pesquisas, e Mateus Simões (PSD), governador de Minas, que tem a máquina estadual nas mãos.
No dia seguinte, Marília respondeu. Em nota, chamou a decisão de lançar nome próprio de “equívoco estratégico” e disse que a medida pode fragilizar o campo democrático e popular no estado. Defendeu uma aliança ampla com PT, PCdoB, PV, PSB, MDB, Rede, PSOL, PDT e outras forças do governo federal. E cravou: sua única disponibilidade política em 2026 é disputar o Senado.
Marília não apenas recusou a pressão. Devolveu o problema para Lula. Se o PT quer um palanque competitivo, argumentou a ex-prefeita, precisa liderar uma frente, não se fechar em candidatura própria.
Lula vê Marília como o melhor nome petista para o governo. Pesquisas internas apontam a ex-prefeita como a opção mais viável da sigla. Mas Marília deixou a Prefeitura de Contagem para percorrer Minas como pré-candidata ao Senado. Não pretende trocar uma campanha possível por uma missão que não deseja.
Nesse buraco, Gabriel se mexe. Ele se apresenta como pré-candidato desde novembro do ano passado, quando Baleia Rossi, presidente nacional do MDB, desembarcou em Belo Horizonte. Diz que já rodava o estado desde junho do ano passado com o projeto Minas Pensando Minas, voltado à construção de um plano de governo. Cita como colaboradores o economista Marcos Lisboa e o professor José Cláudio Junqueira, especialista em direito ambiental.
“Alguém tem que falar de ideia”, afirma. É uma frase feita, mas serve ao momento. Enquanto Lula esperava Pacheco, Gabriel tentava convencer o mundo político de que não era figurante. O ex-presidente do Senado era tratado em Brasília como candidato natural do campo lulista. Gabriel diz que nunca comprou essa aposta. Segundo ele, Pacheco afirmou mais de uma vez que não disputaria o governo.
Pacheco saiu de cena. Lula ficou sem o conservador educado que preferia. O PT ficou sem plano B viável e Gabriel ficou com a pré-campanha na rua.
O problema é o passado tucano, agora remexido em praça pública. Nos últimos dias, vários jornais nacionais publicaram reportagens sobre o histórico que torna Gabriel indigesto para parte do PT: filiação ao PSDB aos 19 anos, à frente da estridente Turma do Chapéu, agitprop nas campanhas de Antonio Anastasia e Aécio Neves e, mais tarde, um pedido de impeachment contra Dilma Rousseff.
Gabriel tenta virar a página citando Geraldo Alckmin (PSB), vice-presidente da República, antigo adversário de Lula. Também lembra que redigiu pedido de impeachment contra Jair Bolsonaro (PL), ex-presidente, a quem chamou de “a pior coisa da política brasileira”, e que acabou expulso do Patriota após criticar o bolsonarismo.
É uma tentativa de defesa, mas não apaga o incômodo. Para parte do PT, o problema não é apenas saber onde Gabriel está agora. É lembrar onde ele estava quando o partido apanhava.
Há ainda uma ironia conveniente. Pacheco, o candidato que Lula passou meses tentando empurrar para o governo de Minas, também apoiou o impeachment de Dilma quando era deputado federal. A diferença é que Pacheco vinha embalado no papel de fiador institucional da democracia. Gabriel chega com um álbum de fotos no sofá de Aécio e com o chapéu tucano pendurado no armário.
Ele insiste que será candidato mesmo sem o PT. O apoio de Lula, porém, mudaria o tamanho da campanha e o lugar político de sua candidatura.
A recusa aos símbolos petistas, como fazer o L e usar o boné vermelho do MST, ajuda Gabriel a escapar de uma armadilha previsível: ser reduzido pela direita a uma reedição do palanque de Fernando Pimentel, ex-governador de Minas Gerais, que saiu pessimamente avaliado e nem chegou ao segundo turno quando tentou a reeleição, em 2018, derrotado por Romeu Zema (Novo). Alexandre Kalil (PDT), ex-prefeito de Belo Horizonte, já tentou uma aliança ostensiva com Lula em 2022. Também caiu no primeiro turno, derrotado por Zema.
O ex-tucano, atual emedebista quer outro papel. Não quer ser o candidato do PT. Quer ser o candidato apoiado pelo PT. Gabriel afirma que oito anos como vereador, incluindo dois anos como presidente da Câmara de Belo Horizonte, o ensinaram a conversar com todos os campos. Lembra que aprovou propostas com votos petistas e que já esteve no mesmo palanque do PT em 2008, na campanha de Márcio Lacerda, então candidato do PSB à Prefeitura de Belo Horizonte.
A lembrança, contudo, é um pouco cruel. A aliança de 2008, patrocinada por Aécio Neves (PSDB-MG), hoje deputado federal, e Fernando Pimentel, elegeu Lacerda e ajudou a empurrar o PT de Belo Horizonte para a margem. Quase duas décadas depois, Lula volta a Minas e encontra o partido ainda procurando alguém para chamar de candidato.
Gabriel sabe onde cutucar. Elogia Marília, diz que conversa com ela quase todos os dias e afirma que a petista “transborda o Partido dos Trabalhadores”. Ao mesmo tempo, trata a candidatura dela ao Senado como o lugar natural numa eventual composição.
Marília também prefere uma frente ampla. Sua nota menciona nominalmente o MDB entre os partidos que deveriam compor a aliança. O PV, que integra a federação com PT e PCdoB, também se mexe nessa direção. Parte dos verdes já defende Gabriel. Comunistas reclamam da condução petista e cobram negociação com atores externos.
Edinho Silva, presidente nacional do PT, também não fechou a porta. Antes da reunião com Lula, dizia que a resolução por candidatura própria servia para o partido não entrar nas negociações na defensiva, mas defendia conversas com lideranças de fora, inclusive o MDB. Em Minas, a candidatura própria nasceu com cara de decisão e cheiro de instrumento de barganha.
Jarbas Soares Júnior, ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais e pré-candidato do PSB ao governo, também tentou aparecer na fotografia. Depois da reunião de Lula com o PT, divulgou nota dizendo que sua pré-candidatura continuava “bem-vinda”. Horas depois, postou foto em Miami, de camisa da seleção, celebrando jogo do Brasil na Copa. Para quem tentava provar que não tinha sido escanteado, escolheu um jeito curioso de mostrar foco na campanha.
Gabriel tenta se oferecer como a barganha que virou saída. Em 2024, disputou a Prefeitura de Belo Horizonte pelo MDB, com Paulo Brant (PSB) como vice. Não venceu, mas cresceu nos debates e saiu da eleição maior do que entrou. Antes, construiu a imagem de vereador falante, técnico e briguento.
É um salto grande e Gabriel diz gostar disso. Afirma conversar com PSB, PV, PCdoB, PT, Agir, Avante, Solidariedade e PRD. No PSB, visita Otacílio Neto, o Otacilinho, prefeito de Conceição do Mato Dentro e presidente estadual da legenda.
No campo lulista, tenta convencer quem teme uma campanha petista pura demais. No centro, tenta parecer palatável. Na direita democrática, tenta vender a ideia de contenção contra Cleitinho, Nikolas Ferreira (PL-MG) e o bolsonarismo mineiro.
Na entrevista, defendeu a redução da escala de trabalho e a tarifa zero. Mas não se fantasia de esquerdista. Ao falar do MST, diz que tomou café da manhã com integrantes do movimento, recebeu arroz e feijão de presente e ouviu deles que não precisava usar boné. “Não é sobre isso”, afirmou. “É sobre discutir nutrição, agricultura familiar, infraestrutura, bom uso da terra”, afirma.
Questionado, não fala em confronto com latifúndio. Fala em sentar à mesa com agronegócio, MST, produtores de café e carne. Apesar da idade, 40 anos, parece um político mineiro de antigamente, desses que passam correndo em uma cristaleira e tentam não trincar nenhuma taça.
Enquanto isso, a direita mineira está dividida. Zema largou o governo para tentar uma aventura presidencial que não empolga, segundo as pesquisas. Simões herdou o Palácio Tiradentes, mas não herdou carisma nem votos, também segundo as pesquisas. Cleitinho lidera pesquisas com a estética do indignado nas redes sociais. Nikolas segue aguardando a idade mínima para disputar o Senado ou, mais adiante, a Presidência, e continua como principal ativo digital da extrema direita. O PL calcula se embarca em Cleitinho ou fabrica outro palanque.
Lula precisa de Minas para se reeleger. O PT precisa provar que ainda existe no estado. Marília quer o Senado. Gabriel quer governo. A matemática é simples. A política, nem tanto. Para a militância petista, apoiar Gabriel pode soar como repetição do erro que esvaziou o partido em Minas: entregar a cabeça de chapa a alguém de fora e depois reclamar que faltam lideranças próprias. Para Lula, perder Minas por apego à liturgia partidária seria luxo caro.
O ex-tucano entendeu a encruzilhada. Precisa convencer Lula de que pode segurar parte do eleitorado que votou 13 contra Bolsonaro, mas não compraria uma volta ao governo de Fernando Pimentel. Precisa ser aliado sem parecer convertido. Precisa do PT sem ser engolido pelo PT. Por isso, não fará o L nem usará o boné vermelho do MST.
A sucessão mineira virou uma quadrilha sem casamento no fim, daquelas que Carlos Drummond de Andrade tão bem colocou em versos. Lula queria Pacheco, que não queria o governo. O PT queria Marília, que queria o Senado. Marília queria frente ampla, que o partido resistia em montar. Jarbas queria ser lembrado, mas foi passear em Miami. Gabriel queria ser o candidato de Lula, mas sem fazer o L.
Na terra de Drummond, Lula talvez precise escolher um anjo torto da política local, pois em Minas, ser candidato do presidente pode até ajudar. Parecer candidato do PT, porém, ainda pode ser uma rima ruim demais para virar solução.
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