Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
Por que é tão difícil torcer para o Brasil na Copa?
O Brasil que a televisão vende durante a Copa é polido demais. O Brasil que vejo como repórter é bruto demais
Assisti ao Jornal Nacional desta segunda-feira 9 e senti uma irritação que demorei um pouco para entender. A Copa do Mundo se aproxima e a Globo colocou em marcha sua operação habitual para transformar o torneio em acontecimento nacional obrigatório. Renata Vasconcellos ancorava o telejornal de Nova York, de uma varanda na Times Square, enquanto as reportagens exibiam imagens bonitas, trilha emocional e aquela embalagem que funde publicidade e entretenimento com muito pouco de jornalismo até ninguém saber exatamente onde termina uma coisa e começa a outra.
Eu deveria ter sido capturado pelo ufanismo. Durante boa parte da vida, fui um alvo fácil para esse tipo de convocação sentimental. Gosto de Copa do Mundo desde antes de entender direito o que era uma Copa do Mundo. Na infância, acompanhei a de 1990 datilografando escalações das seleções em uma máquina de escrever que havia em casa. Além do Brasil de Careca, Alemão (mineiro de Lavras, como meu pai sempre ressaltava) e de Dunga, adorava Camarões de Roger Milla e a Colômbia de Higuita e Valderrama.
Em 1994, aos 12 anos, vi o Brasil ser campeão como quem assiste a uma revelação. Lia a revista Placar de forma compulsiva, decorava nomes, esquemas, camisas, histórias e estatísticas. Até poucos anos atrás, sabia de cor todos os placares e autores dos gols, mas a Covid corrompeu minha memória. Antes de querer ser repórter, antes de passar anos cobrindo desgraças e violações de direitos humanos, eu queria ser jornalista esportivo. Mais especificamente: queria trabalhar na Placar e saber tudo de futebol. Nunca fui, como todos que acompanham minhas colunas nesta CartaCapital podem imaginar.
A ultradireita brasileira a vestiu a camisa amarela com tanto método que muita gente, como eu, simplesmente deixou de conseguir usá-la (Foto: Joédson Alves/Agência Brasil)
O futebol também foi a língua mais constante entre mim e meu pai, morto em 2019. Flamenguista fanático, ele falava da seleção de 1982 com uma devoção que marcou minha infância. Nasci naquele ano e cresci com a sensação estranha de ter chegado atrasado ao mundo: a coisa mais bonita que já havia acontecido num campo de futebol, segundo ele, tinha sido jogada quando eu ainda tinha poucos meses de vida.
A seleção já não consegue convocar o País porque o País já não se reconhece nos mesmos símbolos
Leandro, Júnior, Falcão, Cerezo, Zico, Éder, Luizinho, Sócrates e companhia formavam, na narrativa dele, uma utopia estética. Eu jamais veria aquilo ao vivo, mas precisava aprender sobre aquele time para conversar com ele.
Foi assim que aprendi futebol. Eu perguntava se Jorginho era o melhor lateral-direito que ele tinha visto. Ele respondia que não, porque antes vieram Leandro e Carlos Alberto Torres, e então explicava as diferenças entre um e outro. Eu gostava muito do Rivaldo e perguntava o que ele achava. Ele xingava o craque pernambucano, reclamava de alguma coisa no jeito dele jogar, e logo depois admitia que o sujeito era craque demais.
A conversa seguia por horas – às quartas-feiras à noite, sábados e domingos, com jogos na televisão, no estádio ou no clube. Eu, meio filho, meio entrevistador, tentando arrancar dele memórias de um futebol que eu não tinha visto.
Essa é a dimensão mais difícil de explicar para quem acha que futebol é só futebol. O jogo organiza relações. Cria vocabulário comum entre pai e filho, entre amigos, entre gerações que nem sempre sabem conversar sobre outras coisas.
Quando comprei recentemente um álbum de figurinhas da Copa, fiz isso também para tentar dividir esse ritual com meu enteado. Era uma tentativa de transmitir adiante alguma coisa. Só que a edição pachecona do Jornal Nacional me fez entender que sem paixão não se chupa nem um Chicabon… e nem se completa um álbum de figurinhas.
A cobertura do JN me incomodou porque parecia vender consumo e entusiasmo, mas vi ali somente uma tentativa de produzir uma atmosfera. O telespectador era tratado como consumidor de uma emoção vazia e não como cidadão.
A Globo anunciou uma operação gigantesca distribuída por internet, televisão, influenciadores e muito marketing. Uma máquina de vender Copa em que jornalismo, entretenimento, publicidade e influência digital aparecem cada vez mais misturados.
Talvez por isso eu tenha sentido saudade da velha ESPN de José Trajano, Juca Kfouri, Paulo Vinícius Coelho, Fernando Calazans e tantos outros que fizeram parte da minha formação. Ali era legal ser chato. Ou, melhor dizendo, era possível gostar de futebol sem desligar o cérebro.
A seleção podia ser discutida como futebol, mas também como política, cultura, negócio e corrupção. Aquele jornalismo partia da ideia de que amor pelo jogo e desconfiança crítica não eram inimigos. Ao contrário: uma coisa melhorava a outra.
Claro que esse incômodo não nasceu apenas de uma edição do JN. Vem de longe e passa pela própria história da camisa amarela. Cobri intensamente, como repórter do Estado de Minas, os protestos de 2013 e o período que antecedeu a Copa de 2014. Estava trabalhando em Belo Horizonte no dia do 7 a 1, na rua, acompanhando a reação da torcida à derrota para a Alemanha.
Aquele vexame pareceu, na hora, apenas uma catástrofe esportiva. Visto de hoje, entrou para uma sequência maior de fraturas. A camisa da seleção passou a aparecer cada vez mais como uniforme de uma indignação difusa, antipetista, antipolítica, moralista e frequentemente raivosa.
O uso político do verde e amarelo não começou com Bolsonaro, mas encontrou nele seu destino mais agressivo. Depois da reeleição apertada de Dilma Rousseff, em 2014, a camisa apareceu nas manifestações contra o resultado das urnas. Em 2015 e 2016, virou uniforme do impeachment. Em 2018, já estava organicamente associada ao bolsonarismo. Em 2022, apareceu em atos eleitorais, acampamentos diante de quartéis e, depois, nas imagens da tentativa de golpe. A ultradireita brasileira a vestiu com tanto método que muita gente, como eu, simplesmente deixou de conseguir usá-la sem sentir constrangimento.
A sensação não é apenas minha. A última pesquisa Datafolha mostrou que 54% dos brasileiros dizem não ter interesse pela Copa de 2026, o maior índice desde que o instituto começou a medir esse indicador. Apenas 29% acreditam que o Brasil será campeão.
Há razões esportivas evidentes para isso: a seleção perdeu identidade, acumula frustrações desde 2002 e chega ao Mundial sem a aura de outros tempos. Mas reduzir o desinteresse ao desempenho em campo é pouco. A seleção já não consegue convocar o País porque o País já não se reconhece nos mesmos símbolos.
Essa distância também cresceu dentro dos estádios. Sigo cruzeirense, continuo acompanhando os jogos, continuo sofrendo. Mas fui deixando a arquibancada aos poucos. Não foi só por causa das derrotas (muitas nos últimos anos), preço de ingresso ou preguiça, mas por sentir um desconforto, mesmo demorando a entender o que é.
Os cantos homofóbicos, a agressividade gratuita, a necessidade de transformar o adversário em inimigo moral, a celebração da violência como prova de pertencimento. Eu sempre brinquei, provoquei e avacalhei atleticanos, como manda a tradição civilizatória de Minas Gerais. Mas outra coisa é estar num ambiente em que a graça vai sendo substituída pelo ódio.
Não existe Brasil em estado puro. Existe um país desigual, violento, racista, devastado por elites predatórias e capaz de escolher, por voto, projetos políticos que desprezam direitos humanos. Boa parte de quem comunga desses ideais pode estar ao seu lado na arquibancada, vestindo as mesmas cores do seu time.
Claro que existe também um país que joga bola, inventa beleza no improviso, colore as ruas em Copa do Mundo e produz memórias afetivas que nenhuma análise política dá conta de explicar.
Minha dificuldade de torcer nasce desse choque. O Brasil que a televisão vende durante a Copa é polido demais. O Brasil que vejo como repórter é bruto demais e, muitas vezes, pode ser o mesmo de um torcedor que te abraça na hora do gol.
Meu pai certamente acharia parte disso uma chatice. Ele sabia que havia cartola corrupto, propaganda e cinismo. Sabia que a conquista de 1970 tinha sido explorada pela ditadura militar. Sabia que a CBF não era uma associação de santos. E, ainda assim, conseguia amar um passe de Zico, um toque de letra de Sócrates e um cruzamento de Leandro. Ele tinha uma capacidade de separar as coisas que fui perdendo. Ou que o Brasil foi me tirando.
Por isso, continuo tentando. Compro álbum, vejo convocação, reclamo da ausência do Mateus Pereira, discuto Neymar, assisto aos jogos e espero que algum lampejo vença a montanha de propaganda, ressentimento e cansaço.
Torcer para o Brasil ficou difícil porque exige carregar tudo isso e reencontrar o menino que ainda gostaria de acreditar que uma seleção pode, por 90 minutos, fazer um país inteiro esquecer suas diferenças.
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