Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Pastora da Lagoinha usa fumaça no Irã para desviar o foco do Caso Master

Ana Paula Valadão celebra bombardeios no Oriente Médio. No Brasil, a igreja aparece em reportagens e investigações sobre o banco e voos de campanha que envolveram Nikolas Ferreira

Pastora da Lagoinha usa fumaça no Irã para desviar o foco do Caso Master
Pastora da Lagoinha usa fumaça no Irã para desviar o foco do Caso Master
Foto: Divulgação
Apoie Siga-nos no

Um dos rostos mais conhecidos da Igreja Batista da Lagoinha, a pastora e cantora Ana Paula Valadão disse, em vídeos nas redes sociais, estar “emocionada” com os ataques dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã. Falou da “igreja perseguida” no país persa e acrescentou sobre os bombardeios: “Tão precisos, né? Fico impressionada, tão certeiros ali”. Em tom messiânico, concluiu: “Vem, senhor Jesus!”.

A Igreja Batista da Lagoinha, fundada em Belo Horizonte, tornou-se ao longo das últimas décadas uma das maiores estruturas religiosas do País. Expandiu-se com mais de 600 unidades no Brasil e no exterior. O Diante do Trono, banda gospel criada em 1998 e liderada por Ana Paula, ajudou a transformar o culto em espetáculo. O grupo vendeu milhões de discos, lotou estádios e consolidou a marca Lagoinha para além do templo.

O vídeo da pastora e cantora gospel circulou enquanto o mundo acompanhava a escalada militar no Oriente Médio, mas, no Brasil, a instituição que projetou Valadão atravessa outro tipo de turbulência. Nos últimos meses, a Lagoinha passou a ser citada no noticiário sobre a Operação Compliance Zero, da Polícia Federal, que apura suspeitas envolvendo o Banco Master, controlado por Daniel Vorcaro.

A irmã do banqueiro, Natália Vorcaro Zettel, é pastora na igreja. O marido dela, Fabiano Zettel, também pastor e cunhado de Vorcaro, foi preso temporariamente no âmbito da operação e depois liberado. A Lagoinha nega qualquer envolvimento em irregularidades e sustenta que a relação com Vorcaro é de natureza religiosa, não empresarial.

Contudo, a família Vorcaro apoiou financeiramente a Rede Super, emissora vinculada à Lagoinha. O próprio Daniel Vorcaro apresentou um programa na TV ligada à igreja na juventude.
Como mostrei na coluna O pastor, o banqueiro e a igreja, a expansão da Lagoinha combinou religião e poder.

Fabiano Zettel foi um dos maiores doadores nas eleições de 2022: destinou 3 milhões de reais à campanha de Jair Bolsonaro e 2 milhões à de Tarcísio de Freitas, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral. As doações foram legais e declaradas, mas ajudam a dimensionar a mistura entre dinheiro, religião e política.

É nesse ponto que entra o furo de Johanns Eller, publicado na coluna de Malu Gaspar em O Globo, nesta terça. A reportagem revelou que o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) participou da caravana “Juventude pelo Brasil”, no segundo turno de 2022, utilizando um avião registrado na empresa Prime You, da qual Vorcaro era sócio. Ao lado de Nikolas estava o pastor Guilherme Batista, da Lagoinha.

A reconstrução das rotas foi feita a partir de sinais de transponder e cruzamento com agendas públicas. O avião percorreu as capitais do Nordeste, Brasília e cidades estratégicas em Minas Gerais entre 20 e 28 de outubro de 2022.

A empresa responsável pela operação da aeronave afirmou que os voos eram fretados dentro das regras do táxi aéreo e não informou quem contratou, citando confidencialidade. A defesa de Vorcaro sustenta que o avião não pertence pessoalmente ao banqueiro, embora ele fosse sócio da empresa proprietária à época.

Nikolas confirmou que viajou. Disse que não sabia quem era o proprietário do avião e afirmou não ter “qualquer vínculo pessoal, comercial ou institucional” com Vorcaro. Acrescentou que em 2022 não havia motivo para suspeita.

Vale registrar que Nikolas não é integrante da Lagoinha. Ele frequenta a igreja liderada por seu pai, o pastor Edésio de Oliveira, também em Belo Horizonte, mas de alcance muito menor, com uma única sede.

Como relatei em outra coluna em CartaCapital, o ambiente religioso que o projetou o deputado combina discurso moral rígido e formação política. Ainda assim, mesmo vindo de estruturas distintas, os mundos das duas igrejas se tocaram na campanha de 2022, a bordo de um avião ligado ao banqueiro investigado.

Nada do que foi relatado aqui é ilegal por definição. Laços familiares não configuram culpa institucional. Doações declaradas não são crime. Viagens em jatos fretados não são, por si, ilícitas. Mas o conjunto revela como fé, dinheiro e política se entrelaçam no Brasil.

A narrativa construída por Ana Paula Valadão apresenta heróis e vilões claros, com a guerra convertida em sinal de libertação espiritual. Em meio a reportagens e investigações que aproximam a Lagoinha do Caso Master por vínculos familiares e relações de proximidade, a exaltação do conflito externo ajuda a deslocar o debate.

Justamente no momento em que a Lagoinha aparece no noticiário por conexões com um banco sob investigação, sua pastora mais conhecida eleva o tom sobre uma guerra distante. A fumaça que sobe no Oriente Médio ajuda a mudar o assunto. Não elimina, porém, o que ainda precisa ser explicado dentro de casa.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

Apoie o jornalismo que chama as coisas pelo nome

Muita gente esqueceu o que escreveu, disse ou defendeu. Nós não. O compromisso de CartaCapital com os princípios do bom jornalismo permanece o mesmo.

O combate à desigualdade nos importa. A denúncia das injustiças importa. Importa uma democracia digna do nome. Importa o apego à verdade factual e a honestidade.

Estamos aqui, há mais de 30 anos, porque nos importamos. Como nossos fiéis leitores, CartaCapital segue atenta.

Se o bom jornalismo também importa para você, nos ajude a seguir lutando. Assine a edição semanal de CartaCapital ou contribua com o quanto puder.

Quero apoiar

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo