Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

O sangue que irriga o fazendão: mortes no campo dobram no Brasil

O País aprofunda o modelo agroexportador, amplia pontes com o agronegócio e tensiona o combate ao trabalho escravo

O sangue que irriga o fazendão: mortes no campo dobram no Brasil
O sangue que irriga o fazendão: mortes no campo dobram no Brasil
Mural feito pelos indígenas após o Massacre de Guapoy Mirim, na Retomada Guapo’y Mirin Tujury, localizada ao lado da Reserva Indígena de Amambai. Foto: Tânia Rêgo/Agência Brasil
Apoie Siga-nos no
Eleições 2026

O Brasil registrou 26 assassinatos decorrentes de conflitos no campo em 2025, de acordo com a Comissão Pastoral da Terra (CPT), organismo ligado à Igreja Católica que atua em defesa dos povos do campo. O número dobrou em relação a 2024.

Ao olhar quem está por trás das mortes, o padrão se repete: 20 dos 26 assassinatos tiveram fazendeiros como responsáveis diretos ou indiretos. A disputa por terra segue concentrando 75% das ocorrências, com 1.286 casos, sendo a maioria ligada à violência contra posse e ocupação.

A radiografia da CPT ajuda a desmontar a ideia de que o conflito agrário é resíduo de um Brasil arcaico. Tanto nos conflitos por terra quanto nos conflitos pela água, aparecem mineradoras, empresários e fazendeiros entre os agentes causadores dessas violações. Esses números se conectam com a escolha econômica feita pelo País nas últimas décadas, a de se consolidar como exportador de commodities agrícolas e minerais.

Em artigo publicado em 2021, Marcio Pochmann, atual presidente do IBGE, descreveu o Brasil como um “fazendão do mundo”. Já naquela época, mais de dois terços das exportações brasileiras eram formadas por commodities minerais e agropecuárias, enquanto a indústria perdia peso e o País aprofundava sua dependência de produtos de baixo valor agregado.

A soja é a vitrine mais eficiente dessa escolha. O Brasil lidera a produção mundial do grão, com 171,5 milhões de toneladas na safra 2024/2025. Mato Grosso, sozinho, produziu 50,6 milhões de toneladas, volume que o colocaria como terceiro maior produtor do mundo se fosse um país, atrás apenas do Brasil e dos Estados Unidos.

Outro dado assustador: o Brasil registrou em 2025 o pior ano em intoxicações por agrotóxicos desde 2015, segundo dados do Ministério da Saúde analisados pela repórter Hélen Freitas na Repórter Brasil. Foram 9.729 casos, uma média de 27 pessoas intoxicadas por dia.

Além das mortes e do envenenamento, o custo de ser o “fazendão do mundo” também aparece no trabalho escravo. Segundo o relatório da CPT, 1.991 trabalhadores foram resgatados de condições análogas à escravidão no meio rural em 2025, em 159 casos. O número representa aumento de 5% em relação a 2024. Um dos episódios mais graves ocorreu em Porto Alegre do Norte, em Mato Grosso, onde mais de 500 pessoas foram resgatadas na obra de construção de uma usina de etanol.

A lista suja do trabalho escravo, cadastro criado em 2003 e reconhecido pela ONU como um dos principais instrumentos de transparência nessa área, virou objeto de disputa dentro do próprio Estado, comandado por um governo do PT. Não custa lembrar: PT significa Partido dos Trabalhadores.

O caso da JBS Aves é o mais emblemático. Em fevereiro, o ministro do Trabalho, Luiz Marinho, anulou autos de infração que responsabilizavam a empresa por condições análogas à escravidão em granjas fornecedoras no Rio Grande do Sul.

Dez trabalhadores haviam sido resgatados, com jornadas de até 16 horas e alimentação com frangos descartados. A decisão se baseou no entendimento de que a empresa não poderia ser responsabilizada diretamente por violações cometidas por uma terceirizada, contrariando a avaliação dos auditores fiscais, que apontavam a JBS como principal responsável pela organização do trabalho.

O caso não foi isolado. A BYD entrou na lista suja em abril de 2026 após fiscalização identificar trabalhadores em condições degradantes em obras da fábrica da montadora chinesa em Camaçari (BA), mas foi retirada dois dias depois por decisão judicial. Na sequência, o secretário nacional de Inspeção do Trabalho foi exonerado. O Ministério do Trabalho disse tratar-se de ato administrativo de gestão, mas a associação dos auditores fiscais repudiou a exoneração e a relacionou ao episódio.

Se esse fazendão que é o Brasil tivesse de escolher uma trilha sonora, ela poderia ser embalada pelos cantores Leonardo e Amado Batista. Os dois já entraram na lista suja do trabalho escravo, em momentos diferentes. Leonardo foi incluído em 2024 após fiscalização encontrar seis pessoas, incluindo um adolescente de 17 anos, em uma casa abandonada, sem água potável, sem banheiro e sem camas, com tábuas de madeira e galões de agrotóxicos improvisados como estrutura para dormir, em fazendas de Goiás.

O nome de Leonardo foi retirado da lista em 2025 após acordo com o Ministério Público do Trabalho em Goiás. O compromisso previu pagamento de 500 mil reais por danos morais coletivos, além de medidas como contratação direta com vínculo formal, programa interno de integridade trabalhista e auditoria independente. Amado Batista entrou na lista em 2026, após duas fiscalizações em Goiás, em atividades relacionadas ao cultivo de milho.

Como estamos em um ano eleitoral, vale perguntar se há um projeto em curso para enfrentar essa engrenagem. O governo Lula se apresenta como anteparo à extrema-direita, e há diferenças reais em relação ao período Bolsonaro, especialmente na recomposição de áreas ambientais e indigenistas.

Mas a política mostra outra direção. A filiação de Kátia Abreu ao PT, em abril, é sintomática. Ex-presidente da Confederação Nacional da Agricultura (CNA) e ex-senadora pelo Tocantins, ela foi uma das principais vozes da bancada ruralista nos anos 2000.

Em 2010, durante a Conferência do Clima de Cancún, no México, recebeu de ativistas do Greenpeace e de movimentos indigenistas o troféu Motosserra de Ouro. A ONG a apontava como uma das orquestradoras do enfraquecimento do Código Florestal.

Pelo andar da carroça, não surpreenderia se ao invés do cacique Raoni Metuktire subir a rampa com Lula, em caso do petista ser reeleito, a escolhida fosse a política contemplada com a motosserra de ouro.

Em São Paulo, a pré-campanha de Fernando Haddad (PT) também olha para dentro da porteira. A pecuarista Teresa Vendramini, conhecida como Teca, ex-presidente da Sociedade Rural Brasileira, foi sondada para ser vice na chapa ao governo paulista. A lógica é encontrar alguém capaz de sinalizar diálogo com o agronegócio e com o interior conservador, numa operação semelhante à escolha de Geraldo Alckmin como vice de Lula em 2022.

O agro, portanto, não é apenas um setor econômico. Seus próceres matam e desmatam e, além de soja, milho e gado, produzem linguagem, símbolos e alianças para vender a imagem de pujança e apagar os rastros de sangue e veneno.

A pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap) Renata Nagamine propõe, em artigo, o termo “agrocristianismo” para pensar essa fusão. Ela deixa claro que ninguém se apresenta como “agrocristão”. O conceito funciona como uma fotografia, uma forma de tornar visível a articulação entre campo econômico, linguagem religiosa e regime moral.

Nagamine parte de exemplos como a presença do evangelista Deive Leonardo e do padre Frei Gilson na festa do peão de Barretos para mostrar que a antiga fórmula “boi e Bíblia” ficou curta. O que aparece ali não é apenas aliança parlamentar, mas produção de uma imagem de Brasil em que rodeio, família, louvor, propriedade, ordem e prosperidade passam a circular juntos e formam um modo de imaginar e falar que disputa a própria ideia de País.

Esse processo ocorre em um Brasil menos católico e mais fragmentado religiosamente. O Censo 2022 mostrou que os católicos caíram de 65,1% para 56,7% da população de 10 anos ou mais entre 2010 e 2022. Os evangélicos subiram de 21,6% para 26,9%. O dado não autoriza transformar toda mudança religiosa em adesão automática à extrema-direita, mas ajuda a entender por que a disputa política também passou a ser travada em templos e palcos sertanejos.

É nesse terreno que o professor João Cezar de Castro Rocha, da Uerj, identifica o avanço da chamada teologia do domínio. Em artigos publicados no ICL Notícias, ele sustenta que não se trata de retórica religiosa, mas de um projeto de poder que ganhou força ao convergir com a extrema-direita e com o militarismo.

Segundo o autor, essa doutrina se apoia em uma leitura seletiva das Escrituras, com ênfase no mandamento de “dominar” a terra, para defender que o Estado deve ser reorganizado segundo princípios cristãos. A estratégia é ampliar o número de fiéis, converter esse crescimento em força eleitoral e, a partir daí, alterar as leis para construir uma ordem social baseada na Bíblia.

Essa leitura ajuda a entender o que Nagamine chama de agrocristianismo. De um lado, uma doutrina que propõe ocupar as instituições. De outro, um campo econômico e simbólico que organiza valores em torno da terra, da produção e da autoridade. O resultado é um ambiente em que essas dimensões passam a operar no mesmo sentido e disputam a própria ideia de País.

A militarização fecha esse triângulo simbólico com o agro e a religião.Pesquisa conduzida por King’s College London, UFPE, UFMG e Sciences Po mostrou que o interesse de jovens brasileiros por carreira nas Forças Armadas cresceu de 43,8% para 55,6% entre 2021 e 2025. A resposta “definitivamente sim” — ou seja, jovens que afirmam querer seguir carreira militar — subiu de 19,9% para 30,7%. O dado não prova adesão ideológica, mas revela aumento do prestígio de instituições associadas à ordem, à hierarquia e ao uso legítimo da força.

O que esses dados mostram, juntos, é uma convergência. De um lado, um modelo econômico que expande soja, boi, mineração e energia sobre territórios em disputa. De outro, uma reorganização cultural em que cristianismo midiático, defesa da propriedade, ordem e imaginário militar passam a se reforçar no debate público. No meio, seguem povos indígenas, quilombolas, ribeirinhos, extrativistas, pequenos agricultores e trabalhadores sem terra.

A nova fronteira dos minerais críticos repete o roteiro com roupa tecnológica. O Brasil tem reservas estratégicas de terras raras, lítio, nióbio e outros minerais importantes para a transição energética, para a indústria eletrônica e militar.

Há uma ofensiva dos Estados Unidos para ampliar acesso a esses recursos e reduzir a dependência da China. Contudo, as terras raras não são apenas uma disputa comercial. São uma questão de soberania. O valor maior está no processamento e na industrialização, não na exportação bruta da matéria-prima.

Levantamentos da repórter Isabel Harari, da Repórter Brasil, mostram que 278 terras indígenas estão cercadas por requerimentos de exploração de minerais críticos. Outro levantamento identificou 1.827 pedidos de mineração a menos de 40 quilômetros de áreas com povos isolados na Amazônia, afetando ao menos 45 grupos.

A promessa da transição energética pode repetir o velho padrão brasileiro: o lucro viaja, o buraco fica e a violência permanece no território.

Esta coluna não trata somente de mais uma coleção de números tristes. Os dados da CPT mostram que a violência no campo é parte do funcionamento normal de um país que chama exportação de vocação e devastação de progresso.

O Brasil ampliou sua capacidade de produzir, exportar e gerar riqueza, mas não resolveu a disputa por terra, não eliminou o trabalho escravo e não reduziu a letalidade dos conflitos. O fazendão ficou mais moderno, mas parte dos fazendeiros, quando contrariados, continuam atirando, mesmo que o colete que usem seja daqueles corriqueiros na Faria Lima.

ENTENDA MAIS SOBRE: , , , , ,

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo

2026 já começou

Às vésperas das eleições de 2026, o País volta a encarar um ponto de inflexão: o futuro democrático está novamente em jogo.

A ameaça bolsonarista não foi derrotada, apenas recuou. No Congresso, forças conservadoras seguem ditando o ritmo. Lá fora, o avanço da extrema-direita e os conflitos em Gaza, no Irã e na Ucrânia agravam a instabilidade global.

Se você valoriza o jornalismo crítico, independente e comprometido com a democracia, este é o momento de agir.

Assine ou contribua com o quanto puder.

Leia também

Jornalismo crítico e inteligente. Todos os dias, no seu e-mail

Assine nossa newsletter

Assine nossa newsletter e receba um boletim matinal exclusivo