Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
O bolsonarista sem guerra cultural que desafia Nikolas Ferreira
De cantor de pagode a líder nas pesquisas para o governo mineiro, Cleitinho Azevedo surfa na indignação virtual e na desorganização dos adversários
O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) construiu sua carreira política longe dos gabinetes tradicionais de Minas Gerais. Há dez anos deixou de pesar tomates e cebolas no comércio da família, o Varejão Azevedo, em Divinópolis, cidade de 250 mil habitantes no centro-oeste de Minas Gerais, para disputar uma vaga de vereador. Ficou apenas metade do tempo no mandato e foi eleito deputado estadual. Quatro anos depois chegou ao Senado, com 4,2 milhões de votos.
No meio do caminho arrastou dois irmãos para a política. Gleidson Azevedo (Novo) é prefeito de Divinópolis e Eduardo Azevedo (PRD) é deputado estadual. Nas pesquisas mais recentes para o governo mineiro, Cleitinho dispara na frente.
O senador do Republicanos tem 34% das intenções de voto, seguido por Rodrigo Pacheco, ainda em busca de um partido, com 19%, Alexandre Kalil (PDT), com 11%, e o vice-governador Mateus Simões (PSD), com 9%. A pesquisa Real Time Big Data ouviu 2.000 eleitores entre 11 e 12 de março, com margem de erro de dois pontos percentuais e nível de confiança de 95%.
Antes da política, Cleitinho cantava pagode em bares da região como vocalista do grupo Brotos do Samba e também em carreira solo, enquanto ajudava no comércio da família. Nos shows e videoclipes passou a criticar políticos locais, o que, segundo ele, fechou portas. Em discurso no Senado, o próprio senador afirmou que prefeitos da região telefonavam a contratantes pedindo que ele não fosse mais chamado.
Indignado com o boicote, Cleitinho diz que decidiu disputar a eleição de 2016 depois de assistir a um programa do apresentador Ratinho. Na televisão, o apresentador desafiou pessoas revoltadas com a política a entrar na vida pública. “Começaram a tirar de mim o que eu mais gostava na vida, que era cantar. Agora vou entrar na política para tirar deles o que eles mais gostam, que é roubar”, disse o senador na tribuna.
Quem frequentava o varejão naquela época lembra de um rapaz magro, de fala rápida, que atendia clientes e gostava de discutir política. Esse estilo direto migrou para as redes e hoje soma 3,9 milhões de seguidores no Instagram.
Sua projeção veio de vídeos gravados com o celular, quase sempre em tom indignado, denunciando pedágios, buracos nas estradas, pontes rachadas e criticando salários do funcionalismo de alto escalão ou decisões do Judiciário.
O senador Cleitinho (Republicanos-MG). Foto: Edilson Rodrigues/Agência Senado
Nos vídeos, aparece com frequência usando camisas de time de futebol, como quem acabou de sair de um churrasco. A linguagem é simples, direta e pensada para circular rapidamente nas redes sociais, quase tosca.
Esse tipo de comunicação acolhe a frustração crescente com a política institucional. Em um país marcado por desigualdade e sucessivos escândalos, críticas a privilégios encontram terreno fértil. Cleitinho soube transformar esse sentimento em votos. Não é o primeiro a fazer isso nem será o último.
Durante o depoimento da influenciadora Virginia Fonseca, em maio de 2025, na CPI das Bets, ele interrompeu a sessão para pedir uma selfie e solicitar que ela gravasse um vídeo para sua esposa e sua filha. Disse que influenciadores seriam “fonte de riqueza”, enquanto políticos seriam “fonte de despesa” para o País, e pediu que ela deixasse de divulgar apostas online. O gesto gerou críticas dentro e fora do Congresso. Dias depois, o senador voltou à tribuna para pedir desculpas, dizendo que agiu por impulso.
Seus discursos no Senado atacam benefícios pagos a autoridades, criticam decisões de tribunais superiores e defendem pautas que mobilizam a base mais conservadora do eleitorado. Em diferentes momentos também declarou apoio ao ex-presidente Jair Bolsonaro e defendeu anistia para os golpistas de 8 de janeiro.
Contudo, Cleitinho se diferencia de outro fenômeno eleitoral da direita mineira, o deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). A cruzada contra pessoas gays e trans, eixo da atuação de Nikolas, não ocupa o mesmo espaço no discurso do senador. Em pronunciamento no Senado, Cleitinho manifestou solidariedade à família de uma mulher trans assassinada em Belo Horizonte e afirmou que “todas as vidas importam”.
Apesar de se declarar oposição ao governo Lula, o senador também diz apoiar a manutenção de programas sociais como o Bolsa Família e o Auxílio Gás. Defendeu a isenção do Imposto de Renda para quem ganha até 5 mil reais e defende a redução da jornada de trabalho na escala 6×1. Em um episódio pouco comum na direita bolsonarista, Cleitinho também se posicionou contra a tentativa de cassação do deputado Glauber Braga (PSOL-RJ).
A comparação com Nikolas ajuda a entender melhor o lugar que Cleitinho ocupa hoje na direita mineira. Nikolas tem sido, nas últimas semanas, um fiador importante da tentativa de emplacar o vice-governador Mateus Simões como sucessor de Romeu Zema (Novo).
Simões trocou o Novo pelo PSD em busca de mais dinheiro para campanha e apoios políticos, mas com o carisma negativo não consegue emplacar nas pesquisas. Na semana que vem, assume o governo de forma definitiva com a saída de Zema, que quer ser candidato a presidente.
Nikolas e Simões estão quase grudados nas últimas semanas. Circulam juntos pelo estado em agendas públicas, inaugurações, anúncios de obras e entregas de recursos.
Nos bastidores, essa aproximação também é interpretada como cálculo político de Nikolas. Uma eventual vitória de Cleitinho colocaria no Palácio Tiradentes um adversário forte demais para a eleição de 2030, já em posição de disputar a reeleição.
Nikolas tem 29 anos e ainda não possui idade para concorrer à Presidência da República. Se quiser usar o governo de Minas como trampolim nacional, vencer a eleição estadual de 2030 aparece como a etapa intermediária mais provável de seu projeto político.
Nesse cenário, Simões funcionaria como uma solução de transição. Atual vice-governador, ele assumirá o cargo com a saída de Romeu Zema e não poderia disputar a reeleição em 2030. Cleitinho, ao contrário, poderia chegar ao governo agora e entrar na disputa seguinte com a vantagem da máquina estadual. Nikolas só completará 35 anos em maio de 2031, idade mínima exigida pela Constituição para concorrer à Presidência.
Do lado mais próximo ao governo federal, o nome que aparece é o de Rodrigo Pacheco. Lula insiste em tratá-lo como peça fundamental para a disputa mineira, mas o ex-presidente do Senado não se assume candidato. Além da baixa empolgação eleitoral, o político ainda não resolveu o próprio abrigo partidário. O PSD, sua legenda, foi ocupado em Minas por Simões. Pacheco virou um pré-candidato sem palanque, sem partido definido e sem pressa de entrar de fato na corrida.
Kalil também aparece nas simulações, mas já sem a mesma densidade política de outros momentos. O ex-prefeito de Belo Horizonte segue conhecido do eleitorado, porém não parece mais capaz de reorganizar sozinho um campo político em crise.
O quadro mineiro, hoje, é este: Nikolas tenta empurrar Simões, Lula aposta em Pacheco, Kalil ronda o cenário e nenhum deles consegue ocupar com firmeza o espaço que Cleitinho passou a preencher. É nesse vazio que o senador cresce. Não apenas por mérito próprio, mas também pela fragilidade dos adversários.
Há, porém, contradições difíceis de ignorar na trajetória do candidato que se apresenta como voz do cidadão comum contra o sistema. O entorno político e econômico de Cleitinho inclui alianças com figuras influentes da política e do empresariado mineiro, algo comum em campanhas, mas que relativiza a narrativa do outsider solitário.
Fiador de sua ascensão, o deputado federal Euclydes Pettersen, presidente do Republicanos em Minas, atua como articulador da pré-candidatura ao Palácio Tiradentes. Pettersen aparece citado em investigações da Operação Sem Desconto, que apura um esquema bilionário de descontos indevidos em aposentadorias do INSS. O deputado também contratou como assessor um piloto já preso por tráfico internacional de drogas e citado em reportagem do Intercept Brasil sobre ligação com o PCC.
O episódio virou munição para os adversários. Após as pesquisas indicarem Cleitinho na frente da corrida pelo governo, Simões afirmou que poderia expor o envolvimento do presidente do partido do senador no escândalo do INSS..
Outro personagem importante nesse entorno é o primeiro suplente de Cleitinho, o empresário Alex Sandro Coelho Diniz. Herdeiro da rede de supermercados Coelho Diniz, com mais de vinte lojas no interior do estado, ele integra a família que se tornou o maior acionista do Grupo Pão de Açúcar, com cerca de 24,5% das ações.
Nas eleições, Alex Diniz declarou patrimônio de 66,1 milhões de reais à Justiça Eleitoral. Somadas, as doações dele e de dois familiares representaram mais de 50% dos recursos arrecadados pela campanha de Cleitinho.
Por enquanto, as pesquisas indicam que Cleitinho larga na frente na corrida pelo Palácio Tiradentes. Minas já experimentou uma ruptura com a eleição de Zema em 2018, um empresário neófito na política que chegou ao poder querendo governar o estado como se fosse uma empresa herdada.
Com o tempo, Zema percebeu que, na terra de Nikolas e Cleitinho, também precisaria performar nas redes e passou a investir em vídeos de gosto duvidoso, chegando a comer banana com casca diante das câmeras. Agora, o político que veio do sacolão bate à porta do Palácio e ameaça o candidato escolhido por Zema para sua sucessão.
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