Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
O bolsonarismo e a tentação de terceirizar a soberania
Com Jair fora de cena, os interessados em seu espólio eleitoral exploram o sequestro de Maduro para atacar Lula
Na virada do ano, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) apareceu no noticiário por motivos bem menos épicos do que aqueles que costuma prometer aos seguidores. No fim de dezembro, passou por um segundo procedimento médico para tentar conter soluços persistentes. Dias depois, sua defesa pediu providências pelo barulho do ar-condicionado na cela, alegando ruído “contínuo e permanente”.
Preso em Brasília desde 22 de novembro, Bolsonaro não se pronunciou sobre a operação dos Estados Unidos na Venezuela que terminou com o sequestro de Nicolás Maduro. Quem disputa seu espólio, porém, se apressou para ocupar o espaço vazio.
O episódio virou munição doméstica, sob a velha fantasia de que Washington segue sendo uma espécie de tribunal supremo do continente, capaz de consertar países como quem substitui uma peça defeituosa da máquina.
“Lula será delatado. É o fim do Foro de São Paulo: tráfico internacional de drogas e armas, lavagem de dinheiro, suporte a terroristas e ditaduras, eleições fraudadas”, escreveu o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).
Ungido pelo pai como herdeiro, Flávio tenta compensar com retórica o que ainda lhe falta em votos. Em um dos cenários testados pelo Datafolha em dezembro, o senador aparece com 18% contra Lula, que aparece com 41%. Em um hipotético segundo turno, Flávio marca 36%, ante 51% do petista.
Outra possível herdeira do bolsonarismo, Michelle Bolsonaro tratou a ação como um aviso, exaltou a captura de Maduro e falou em “libertação” e no desmonte de “estruturas de poder narcoterroristas”.
No momento em que a soberania de um país vizinho ao Brasil foi rasgada por uma ação militar estrangeira, o discurso mais animado do bolsonarismo não foi o do incômodo com a violação, mas o da torcida pelo resultado.
O sempre estridente deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) publicou uma montagem em que o presidente Lula aparece sendo preso por agentes do Exército dos Estados Unidos, o que levou o deputado Ivan Valente (PSOL-SP) a anunciar que acionará a Procuradoria-Geral da República.
Tarcísio de Freitas, Ratinho Jr., Romeu Zema e Ronaldo Caiado, todos os governadores presidenciáveis, também entraram na onda. O governador de SP declarou que a prisão de Maduro “seja o primeiro passo no caminho da liberdade para a Venezuela”.
As reações dizem muito sobre como a extrema-direita brasileira trata a ideia de nação. A palavra “patriotismo” aparece em camisetas, bandeiras e slogans. Mas, quando o assunto é a intervenção de uma potência sobre um país latino-americano, a indignação some.
É impossível entender esse impulso sem olhar para a história. A América Latina conhece bem a lógica que se vende como “ordem”, “segurança” e “libertação”, e que frequentemente chega em nome de princípios universais, mas com objetivos bem particulares. Ao longo de dois séculos, os Estados Unidos acumularam um repertório de interferências na região, ora por invasões diretas, ora por ações encobertas, ora por pressão econômica e diplomática.
A participação americana no golpe de 1964 está fartamente documentada. Houve apoio político e logístico ao movimento que derrubou João Goulart e a preparação da chamada Operação Brother Sam, com estrutura militar pronta para dar suporte aos golpistas caso houvesse resistência.
Documentos e reconstruções históricas mostram que esse respaldo fazia parte de uma estratégia mais ampla de alinhamento regional durante a Guerra Fria. Não era necessário desembarcar tropas: bastavam o recado, a engrenagem montada e a certeza de que haveria apoio externo.
O episódio venezuelano, pelo que se sabe até aqui, retoma essa tradição com menos disfarce e mais força bruta. Do ponto de vista diplomático, a captura de um chefe de Estado em território estrangeiro, seguida de sua transferência para julgamento nos Estados Unidos, sinaliza que limites básicos do direito internacional deixaram de ser referência.
Ao celebrar a intervenção, parte do bolsonarismo sinaliza que gostaria de ver a mesma lógica aplicada aqui: contra adversários internos, contra instituições e contra a própria ideia de freios e contrapesos. Na prática, é o desejo de terceirizar a política para uma potência estrangeira.
Hoje, aplaudem porque foi na Venezuela. Amanhã, porém, podem descobrir que a régua usada para medir “ditadores disfarçados” é tão elástica quanto o interesse de quem a segura.
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