Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Em Minas, o PT odeia o petismo

Ao trocar quadros próprios por herdeiros, empresários e alianças com a direita, o partido se distancia de seu projeto nacional no estado que decide as eleições

Em Minas, o PT odeia o petismo
Em Minas, o PT odeia o petismo
Lula e Pacheco, durante cerimônia de anúncio do programa Gás do Povo em Belo Horizonte (Foto: Ricardo Stuckert/PR)
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Eleições 2026

Os eleitores do Partido dos Trabalhadores em Minas Gerais deverão votar para o governo em um político bem distante da palavra trabalhador. Lula vem insistindo, quase implorando, para que o senador Rodrigo Pacheco (PSD) aceite disputar com seu apoio.

Antes de entrar para a política, Pacheco fez carreira atuando no direito empresarial e criminal, representando grandes empresas e clientes ricos e influentes. Vem de uma família bem-sucedida do empresariado mineiro, origem social que ele nunca escondeu. O problema não é esse. O descompasso está entre a trajetória do candidato preferido do Planalto e o discurso histórico de um partido que nasceu da luta sindical e da organização popular.

Este não é mais um texto purista, nem um lamento nostálgico sobre um PT que já não existe. Desde 2002, trabalho e capital caminham juntos na ideologia do partido. O que salta aos olhos em Minas, porém, é quem engoliu quem.

O PT mineiro parece não acreditar que possam surgir novas estrelas entre seus próprios quadros. Marília Campos e Margarida Salomão são sistematicamente escanteadas

Para perceber isso, basta olhar para o plano B do partido: Josué Alencar, que tenta herdar o capital político do pai, o ex-vice-presidente José Alencar, morto há 15 anos. Josué também manteve a interlocução direta com Lula e com o empresariado. Foi presidente da Fiesp e hoje atua na condução da recuperação judicial da Coteminas, com bilhões em dívidas renegociadas. Em 2014, tentou o Senado por Minas sem sucesso. À época, declarou um patrimônio próximo de 100 milhões de reais.

A terceira opção é outro que já nasceu rico, Alexandre Kalil (PDT). Herdou as empreiteiras do pai, Elias Kalil, e também a ascendência paterna sobre o Atlético Mineiro. Como presidente do clube, contratou Ronaldinho Gaúcho, venceu a Libertadores e transformou o sucesso no futebol em capital político. Surfou nessa popularidade para se eleger prefeito de Belo Horizonte por dois mandatos, entre 2017 e 2022.

Em 2022, apoiado formalmente pelo PT, tentou o governo de Minas e caiu no primeiro turno. Quem acompanhou a campanha saiu com a sensação de que Kalil produziu mais antipatia no meio petista do que capacidade de atrair votos fora dele. O ex-prefeito é um personagem típico da política mineira recente: personalista, avesso a partidos e com dificuldade de construir um projeto coletivo.

Não há nada de ilegítimo em ser herdeiro político, empresário ou advogado de sucesso. O abismo está entre o discurso histórico do PT e os personagens que o partido passou a oferecer ao eleitor mineiro.

Enquanto isso, sobram nomes da ultradireita. O deputado federal Nikolas Ferreira (PL) e o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) são especulados dias sim, dias também. Já o vice-governador Mateus Simões deixou recentemente o Partido Novo, legenda que o revelou, e migrou para o PSD em busca de mais dinheiro, mais tempo de televisão e mais estrutura de campanha.

A opção número um de Lula, Rodrigo Pacheco, queria mesmo era o STF. Trabalhou para isso, articulou nos bastidores e contou com apoios importantes, mas acabou preterido por Jorge Messias. Ficou chateado, ou, como se diz em Minas, emburrado. Passada a birra, passou a se movimentar para deixar o PSD, partido que passou a abrigar Mateus Simões, e migrar para o União Brasil.

Sim, o União Brasil. Um partido que nasceu da Arena da ditadura, virou PFL, depois DEM e, após a fusão com o PSL, partido que elegeu Jair Bolsonaro em 2018, passou a se apresentar como alternativa moderada para o PT montar palanque em Minas.

O União Brasil carrega uma linhagem política que vai do apoio incondicional à ditadura militar ao neoliberalismo dos anos 1990 e chega ao bolsonarismo recente. Mesmo assim, virou porto seguro para um partido que nasceu da luta sindical e da teologia da libertação.

Rodrigo Pacheco, por sua vez, construiu imagem de político afeito à conciliação e à costura nos bastidores. Como presidente do Senado, foi fiador de uma relação ambígua com o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, interlocutor confiável de Lula. Quando foi eleito senador era filiado ao DEM, ancestral do União Brasil.

Um episódio reforça o componente mineiro dessa trinca. Nos últimos meses, o nome de Pacheco foi citado em documentos apreendidos e na relação com investigados pela Polícia Federal no âmbito da Operação Rejeito, que apura um esquema bilionário de corrupção no setor da mineração em Minas Gerais, com fraude em licenças ambientais. Por envolver autoridade com foro privilegiado, a menção levou o caso ao STF.

Petistas deixados de lado

Enquanto aposta em poderosos e herdeiros, o PT mineiro parece não acreditar que possam surgir novas estrelas entre seus próprios quadros. As prefeitas de Contagem, Marília Campos, e de Juiz de Fora, Margarida Salomão, são sistematicamente escanteadas.

Marília, vez ou outra, deixa escapar publicamente seu descontentamento com a postura do partido. Foi lançada como pré-candidata ao Senado, mas arrisca ser atropelada por uma composição de cúpula caso o ministro Alexandre Silveira (PSD) decida entrar na disputa.

Outros nomes de peso da cena política mineira sequer entram no radar. A deputada estadual Beatriz Cerqueira, liderança consolidada na educação e nos movimentos sociais, não é cogitada. A ministra dos Direitos Humanos, Macaé Evaristo, com trajetória reconhecida na área social e educacional, também não.

Na última eleição municipal, ambas foram preteridas pelo deputado federal Rogério Correia, que terminou em sexto, com 4,37% dos votos. Em 2020, o PT lançou Nilmário Miranda na disputa pela prefeitura de Belo Horizonte. Ele obteve apenas 1,88% dos votos e também ficou em sexto. Em 2016, Reginaldo Lopes foi o candidato do partido e teve desempenho igualmente pífio, quarto lugar, com 7,27%.

Apostando reiteradamente em nomes que controlam a máquina partidária, mas não empolgam o eleitor, o PT encolheu na capital. A sucessão de fracassos esvaziou o partido em Belo Horizonte e rompeu sua conexão com novos setores da sociedade.

É evidente que esse declínio ocorreu em um contexto nacional de antipetismo, marcado pelo Petrolão, pela Lava Jato, pelas jornadas de 2013 e 2014 e pelo impeachment de Dilma Rousseff. Mas, sem apostar em renovação, o PT perde relevância em Minas e tenta sobreviver por meio de alianças que pouco dialogam com sua história.

O preço político da conciliação

Minas Gerais é o segundo maior colégio eleitoral do país e, desde 1989, todos os presidentes eleitos venceram ali. O eleitor mineiro costuma reproduzir a média nacional com precisão quase cirúrgica. Quem perde Minas, dificilmente governa o Brasil.

Ainda assim, o PT parece incapaz de formular um projeto próprio para o estado. Governou Belo Horizonte por três mandatos consecutivos — com Patrus Ananias, Célio de Castro e Fernando Pimentel. Foi Pimentel, aliás, quem arquitetou a aliança com Aécio Neves para eleger Márcio Lacerda em 2008.

Lacerda venceu, foi reeleito, e entre os petistas da capital permanece a sensação de que aquela aliança salinizou o solo do partido. Nada mais brotou. Funcionou apenas para Pimentel, eleito governador em 2014, mas derrotado fragorosamente na tentativa de reeleição. O vácuo abriu caminho para o Partido Novo e para Romeu Zema, por dois mandatos consecutivos.

Curiosamente, o legado de Lacerda foi mais fértil para o PSOL mineiro e para o carnaval de rua de Belo Horizonte. A repressão e o fechamento de espaços públicos catalisaram protestos, novas lideranças e o renascimento cultural da cidade.

O PT, no entanto, parece não ter aprendido. Mais uma vez aposta em alianças ao centro e à direita para tentar encerrar o ciclo Zema e conter o bolsonarismo, seja com Nikolas, seja com Cleitinho.

Com os nomes cogitados, nem o petista mais fiel acredita de fato na vitória. Pode até fazer campanha, levantar bandeira, cumprir o ritual. Mas, mesmo vencendo, é difícil sustentar que os trabalhadores sairão ganhando. Em Minas Gerais, o PT não apenas abandonou o petismo. Passou a odiá-lo.

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