Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
Carta a um marciano sobre o caso do Banco Master
Enquanto a internet discute as playlists e a vida íntima do banqueiro, ficam em segundo plano as suspeitas que atravessam política, religião e tribunais
No último sábado, eu e minha companheira fomos provar o torresmo empanado servido por um bar no bairro Esplanada, em Belo Horizonte. Crocante por fora, macio por dentro, dessas pequenas epifanias mineiras que ainda justificam sair de casa. De barriga cheia, voltamos, sentamos na varanda e seguimos a conversa tranquila que começou no bar, sem nenhuma pretensão de encerrar a noite discutindo um escândalo financeiro.
Já deitado na rede, comentei que tinha visto nas redes sociais uma notícia curiosa. Internautas haviam montado no Spotify uma playlist com as músicas citadas nas mensagens trocadas entre o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master, e a influenciadora Martha Graeff, sua então namorada. A lista, claro, já tinha nome de novela ruim: “Vorcaro – Amor Master”. Resolvemos ouvir.
A seleção vai de Chet Baker a Bruno e Marrone. Passa também por Al Green, Tracy Chapman, Toto e Extreme. A trilha cria uma atmosfera curiosa: ora lembra o deck de uma mansão no litoral da Bahia, ora uma festinha privê em Ibiza, e em certos momentos parece trilha de churrasco em condomínio de Nova Lima ou até de motel de beira de estrada na BR-040. Digo isso de ouvir falar, porque me faltam roupa e vontade de frequentar cenários compatíveis com a trilha.
Passamos música por música e rimos da situação. A playlist cumpriu bem o papel de matar a curiosidade, mas não era exatamente o que eu queria ouvir num sábado à noite. Voltei ao meu algoritmo e logo começou a tocar Alô, Alô Marciano, composição de Rita Lee na voz de Elis Regina.
Enquanto Elis cantava sobre a loucura do planeta e a high society em queda livre, me ocorreu uma pergunta: como explicar para um marciano o que está acontecendo no Brasil nesse caso do Banco Master?
O enredo mistura dinheiro, religião, STF, jatinho, resort, lobby no Banco Central, milícia privada, playlist melosa e aquele tipo de intimidade cheio de tatibitati que deveria interessar, no máximo, aos envolvidos e ao terapeuta deles.
Nos últimos dias circulou uma enxurrada de prints, áudios e mensagens de WhatsApp envolvendo Vorcaro e Martha. Parte desse material acabou entrando também na cobertura jornalística, como se a vida íntima do casal ajudasse a entender um esquema financeiro bilionário.
Quando um escândalo explode, a fronteira entre interesse público e curiosidade costuma ser atropelada sem muito remorso. Nem tudo que vaza, porém, ajuda a entender o poder. Talvez uma forma de organizar a confusão seja escrever uma carta. Então vamos lá.
“Caro marciano, se você acabou de pousar por aqui e está tentando entender essa história, o melhor é começar pelo protagonista. Daniel Vorcaro é mineiro, de Belo Horizonte, tem 42 anos e assumiu em 2017 o controle do antigo Banco Máxima, rebatizado dois anos depois como Banco Master. A partir daí passou a circular com desenvoltura nos ambientes da high society.
Basta olhar para a escala de suas celebrações. Em setembro de 2023, Vorcaro organizou na Sicília uma festa de cinco dias estimada em cerca de 222 milhões de reais. O evento ocupou hotéis de luxo como o San Domenico Palace, da série White Lotus, e espaços históricos como o Teatro Grego de Taormina e o Castello degli Schiavi, locação de O Poderoso Chefão.
No palco, reuniu um elenco de estrelas internacionais: Coldplay, Andrea Bocelli, Michael Bublé, The Strokes, Seal, David Guetta e o DJ sul-africano Black Coffee. O cachê do Coldplay teria chegado a 11,4 milhões de dólares, e sete helicópteros ficaram à disposição dos convidados.
O padrão de extravagância vinha de antes. Em 2021, no auge da pandemia, Vorcaro pagou 976 mil dólares para alugar a ilha privativa Little Pipe Cay, nas Bahamas, para o aniversário da filha, com direito até a bolsas da grife Cult Gaia para os convidados.
Dois anos depois, na festa de debutante da adolescente em uma mansão em Nova Lima, mandou asfaltar uma rua inteira para facilitar o acesso e ofereceu hospedagem em hotéis cinco estrelas aos vizinhos que pudessem se incomodar com o show do DJ Alok. Foi nessa valsa de 15 anos que a aniversariante dançou com o filho mais velho do pastor André Valadão, da Igreja da Lagoinha.
Mas a festa, marciano, é apenas a parte visível da história. O caldo engrossa quando entram os personagens que orbitavam o banqueiro. Um dos mais importantes é Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e pastor da Igreja Batista da Lagoinha.
Investigações da Polícia Federal mostram que Zettel circulava entre a igreja, negócios financeiros e relações políticas. Nesse ambiente, fé, dinheiro e campanhas eleitorais frequentemente se cruzavam. Em um episódio revelado pelo jornal O Globo, o deputado Nikolas Ferreira viajou pelo Nordeste no jatinho de Vorcaro ao lado de outro pastor da Lagoinha durante a campanha de Jair Bolsonaro.
Zettel também foi um grande financiador eleitoral. Em 2022, doou R$ 3 milhões para a campanha de Jair Bolsonaro e R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas, tornando-se o maior doador privado de ambos.
O capítulo policial inclui ainda um personagem conhecido como Sicário: Luiz Phillipi Mourão. Segundo as investigações, ele atuava como operador do grupo e era responsável por monitorar adversários e críticos do banqueiro.
Em uma das mensagens trocadas com Vorcaro, aparece a ordem para quebrar todos os dentes do jornalista Lauro Jardim, de O Globo, em um assalto forjado, irritação provocada por reportagens sobre o banco.
Mourão tinha passagens na polícia por estelionato, receptação, uso de documento falso e ameaça. A investigação da PF indica que ele acessava indevidamente bases de dados e sistemas de informação, com consultas a plataformas ligadas à Interpol, ao FBI, à Polícia Federal e ao Ministério Público. Preso na operação, cometeu suicídio na cela da Polícia Federal em Belo Horizonte.
O caso também chegou ao Supremo Tribunal Federal. Vorcaro teria enviado mensagens ao ministro Alexandre de Moraes no dia de sua primeira prisão, em novembro de 2025, tentando obter notícias sobre a tentativa de venda do banco. Moraes afirmou que não recebeu as mensagens.
A esposa do ministro, Viviane Barci de Moraes, firmou um contrato de 129 milhões de reais com o Banco Master para serviços de consultoria jurídica prestados por seu escritório. O acordo previa pagamentos mensais de 3,6 milhões de reais durante três anos, a partir de fevereiro de 2024. Segundo o escritório, o trabalho resultou em 36 pareceres técnicos e 94 reuniões. A banca também afirmou que nunca atuou em causas do Banco Master no Supremo Tribunal Federal.
O ministro Dias Toffoli deixou a relatoria do caso após vir a público que um fundo ligado a Zettel comprou participação no resort Tayayá, empreendimento da família do ministro no Paraná.
No Congresso, as mensagens vazadas revelaram interlocuções frequentes de Vorcaro com figuras influentes e a tentativa de aprovar a chamada “emenda Master”, que ampliaria a garantia do FGC (Fundo Garantidor de Créditos).
É nesse ponto, marciano, que a playlist e os memes parecem funcionar como uma boa camuflagem. Enquanto a internet discute se a vida amorosa do banqueiro combina mais com Chet Baker ou Bruno e Marrone, o que aparece nos bastidores é uma rede de relações que mistura banco, igreja, política, lobby institucional, dinheiro público e até futebol.
Aliás, foi no Instagram da Itatiaia que eu vi a história da playlist. A emissora pertence ao bilionário Rubens Menin, dono também da CNN Brasil, do banco Inter e da construtora MRV, além de sócio de Vorcaro na SAF do Atlético-MG.
As investigações ainda mencionam consultas a sistemas internacionais, conexões que passam por Interpol e FBI, referências que passam pelo PCC e chegam até o narcotraficante espanhol Oliver Ortiz, ligado à origem do banco anos atrás, segundo apuração do ICL Notícias.
Termos como “peleleca” e “momolada” viralizaram nas redes e ajudaram a transformar o episódio no que a gaiatice da internet batizou de ‘sexting Cebolinha’. É mais fácil e divertido rir desses memes do que encarar o tamanho da engrenagem revelada pelo caso, sem torcida política para um lado ou outro de uma sociedade polarizada.”
Às vezes parece que o Brasil só pode ser explicado a um extraterrestre. De preferência um que ainda não tenha aprendido a confundir fofoca com notícia.
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