Daniel Camargos

Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.

Daniel Camargos

Caiado lança candidatura sob a sombra da UDR

Candidato a presidente pelo PSD, Ronaldo Caiado sustenta o discurso de defesa intransigente da propriedade privada e de enfrentamento aos movimentos sociais

Caiado lança candidatura sob a sombra da UDR
Caiado lança candidatura sob a sombra da UDR
Em 1989, Ronaldo Caiado, foi candidato a presidente pelo mesmo PSD de 2026 (Reprodução/Wikimedia)
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Ao fundar o PSD, há 15 anos, Gilberto Kassab disse que seu partido não seria “nem de direita”, “nem de esquerda” e “nem de centro”. O tempo passou e a legenda orbitou com desenvoltura os governos de Dilma (PT), Temer (MDB), Bolsonaro (PL), Lula (PT) e, no governo de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Quando escolheu Ronaldo Caiado como candidato, contudo, Kassab caiu do muro com os dois pés na ultradireita.

Caiado é, desde o início de sua trajetória na década de 1980, um dos políticos mais anacrônicos da República. Surgiu como um bufão nas primeiras eleições presidenciais após a ditadura, em 1989, com ideias que fariam Figueiredo e Médici parecerem moderados.

No fim da disputa, surgiu montado em um cavalo branco enquanto o locutor lia uma mensagem atribuída ao médium Chico Xavier, prevendo que surgiria um “homem franco e sincero” que, montado em seu cavalo, traria paz e esperança e transformaria o país no coração do mundo. A profecia não se cumpriu nas urnas: ele terminou com pífios 0,72% dos votos.

Décadas depois, esse papo furado do cavalo com a carta de Chico Xavier tentou ser usado por apoiadores de Bolsonaro em vídeos que circularam nas redes sociais do ex-presidente. Foram desmentidos por uma checagem da agência Reuters. O texto do salvador no cavalo branco foi publicado originalmente em 1952, não faz qualquer menção a nomes específicos e tem origem desconhecida, segundo a Federação Espírita Brasileira.

Mas mais que um bufão, Caiado é o maior defensor daqueles que desejam que o Brasil volte a ser dividido por capitanias hereditárias. Foi um dos fundadores da União Democrática Ruralista, a UDR, em maio de 1985.

A UDR nasceu como uma reação violenta da elite agrária ao Plano Nacional de Reforma Agrária. Sob a liderança de Caiado, a entidade mobilizou grandes proprietários para defender algo que acreditam ser um direito divino de propriedade, classificando qualquer tentativa de redistribuição de terras como baderna ou agitação comunista.

A organização se notabilizou por um lobby agressivo no Congresso e na Constituinte de 1988, onde Caiado foi um de seus principais porta-vozes. Aliada ao Centrão, a UDR ajudou a derrotar as propostas mais profundas de reforma agrária e a restringir mecanismos de desapropriação que atingissem grandes propriedades.

Mais que uma associação de classe, os núcleos regionais da UDR funcionavam como bases de resistência armada contra ocupações do MST e de outros movimentos, articulando fazendeiros e aliados locais para reagir a posseiros e lavradores que pressionavam por reforma agrária.

Na análise da professora Regina Bruno, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), Caiado e a UDR representam “de uma forma exemplar os mecanismos de dominação de classe da grande propriedade fundiária, o conservadorismo das elites agrárias e o autoritarismo retrógrado da política brasileira”.

A pesquisadora utiliza essa definição em um artigo para demonstrar como a organização e Caiado sintetizam a permanência de traços históricos do patronato rural, como a violência e o autoritarismo, mesmo quando revestidos por um discurso de modernização tecnológica.

A existência destes leilões para compra de armas foi confessada por dirigentes da própria entidade. O primeiro deles, em Goiânia, financiou 1.636 armas. O segundo, em Presidente Prudente (SP), mais 2.430. Estima-se que um arsenal de 70 mil armas estivesse em posse dos membros da UDR para fazer o que chamavam de ‘legítima defesa’.

A escalada armamentista foi acompanhada por uma onda de sangue no campo. Em 1988, o assassinato do líder seringueiro Chico Mendes foi encomendado por Darly Alves, que à época  mantinha vínculos com a UDR no Acre.

Mais tarde, em 1998, o então presidente regional da UDR no Paraná, Marcos Prochet, foi denunciado pelo assassinato do trabalhador rural Sebastião Camargo Filho, morto durante um despejo ilegal. O caso se arrasta há décadas na Justiça, com sucessivas reviravoltas processuais.

A herança da UDR consolidou-se na atual Bancada Ruralista, da qual Caiado foi um dos principais arquitetos e mentores estratégicos. O modelo de ação mudou da milícia ostensiva para o lobby institucional, mas o objetivo permanece.

Essa agenda chegou ao Planalto antes do próprio Caiado. Ao ser eleito, Bolsonaro escolheu Luiz Antônio Nabhan Garcia para comandar a Secretaria Especial de Assuntos Fundiários. Sucessor de Caiado na presidência da UDR, Nabhan Garcia foi o responsável por abrir as porteiras do agro para Bolsonaro ainda na campanha, em 2018.

No poder, ele operou um desmonte da reforma agrária: congelou a criação de novos assentamentos e paralisou a aquisição de terras pelo Incra, redirecionando o órgão para uma política de titulação em massa que enfraqueceu a função social e reforçou a lógica patrimonial da propriedade.

Acompanhei de perto essa gestão ao analisar os mais de 600 compromissos da agenda oficial de Nabhan para a série de reportagens Ogronegócio: milícia e golpismo na Amazônia, publicada pela Repórter Brasil.

Os dados revelaram que o secretário dedicava seu tempo prioritariamente a representantes da banda truculenta do setor, incluindo infratores ambientais e fazendeiros envolvidos em conflitos agrários, enquanto ignorava sistematicamente movimentos sociais, indígenas e quilombolas.

A expressão “ogronegócio” define com precisão esse estilo e ganhou repercussão após a ministra Marina Silva utilizá-lo em um debate no Congresso para descrever a parcela do setor que resiste a transformações e insiste em métodos violentos de ocupação e domínio.

Caiado defende com tanto vigor a propriedade porque nasceu herdeiro. Ele pertence a uma linhagem que domina Goiás desde o século XVIII, iniciada com Manoel Cayado de Souza, em 1772, como já detalhou a Agência Pública. Seu avô, Totó Caiado, foi um dos coronéis mais influentes da República Velha, famoso por chefiar o “Batalhão das Camisas Vermelhas” e manter o poder através do clientelismo e da força.

Dois parentes dele, inclusive, foram parar na Lista Suja do Trabalho Escravo, cadastro que reúne empregadores que submetem brasileiros a condições análogas à escravidão.

O primeiro foi seu primo, Emival Ramos Caiado Filho, em 2010, que submeteu 26 trabalhadores a situações análogas à de escravo na Fazenda Santa Mônica, no Tocantins. A fiscalização encontrou homens bebendo água de córregos onde o gado passava e defecava. Os resgatados dormiam em barracos de lona sem paredes ou em galpões de máquinas, dividindo o espaço com agrotóxicos, óleo lubrificante e lixo.

Um trabalhador relatou em depoimento que dormia em redes e que ratos comiam sua comida guardada em prateleiras improvisadas, forçando-o a jogar os alimentos fora por medo de doenças. Outro grupo pernoitava em um galpão sobre colchões imundos em cima de carroças. Não havia banheiros, camas ou energia elétrica, e os empregados tinham que pagar pela própria alimentação e ferramentas.

Pouco depois, Caiado votou contra a PEC do Trabalho Escravo (PEC 438/2001) em 2012. Ele foi um dos poucos deputados que tentaram barrar a proposta que prevê a expropriação de terras onde o crime for flagrado. Seu argumento era que a definição legal de escravidão seria “subjetiva, ideológica e partidária”. Caiado defendeu que o confisco de terras só ocorresse após decisão judicial final.

Em 2014, outro familiar de Caiado entrou para a lista suja. Foi seu tio, Antônio Ramos Caiado Filho, o “Caiadinho”, que submeteu quatro trabalhadores a condições degradantes na produção de carvão em Nova Crixás. Os carvoeiros cumpriam jornadas exaustivas de até 19 horas seguidas (das 2h às 21h), trabalhando de chinelos e bermudas diante de fornos em alta temperatura e sem qualquer equipamento de proteção.

Fazendeiro rico, Caiado declarou 24,8 milhões de reais de patrimônio em 2023, incluindo pelo menos 14 fazendas em Goiás. Nos mais de sete anos que governa o estado, ele se gaba da linha dura contra os movimentos sociais, comparando o MST às “FARCs brasileiras”. Sua gestão criou o Batalhão Rural da PM e utiliza tecnologia de georreferenciamento para evitar qualquer ocupação de terra, desmobilizando acampamentos de forma imediata.

Para a CPT, contudo, ele foi o gestor que “institucionalizou a violência” através de leis que criminalizam a luta pela terra. O MST aponta ele como um dos principais inimigos da reforma agrária, acusando-o de usar o aparato policial para proteger o latifúndio e atacar famílias camponesas.

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