Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
As perguntas que ninguém quis fazer a Cleitinho no primeiro debate
Favorito em Minas, o senador viu os adversários duelarem entre si e atravessou o debate da Band sem responder sobre aliados, jatinhos e quem poderá herdar sua cadeira
O senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) promete fazer a campanha mais barata do Brasil. No primeiro domingo da disputa pelo governo mineiro, começou o dia em Divinópolis, seguiu para Medina, no Vale do Jequitinhonha, e à noite estava no estúdio da Band, em Belo Horizonte, para o primeiro debate.
Apenas o trecho entre Medina e a capital tem cerca de 645 quilômetros. Cleitinho fez o deslocamento de avião. Depois de questionada por esta coluna, a assessoria confirmou que o voo foi doado, “em conformidade com a legislação eleitoral”, e que o senador não usa recursos do Fundo Eleitoral. Não informou quem fez a doação, qual aeronave foi usada nem o valor. Disse que os detalhes aparecerão na prestação de contas. A campanha pode ser barata para Cleitinho. O avião, claro, teve custo.
Cleitinho é senador, tem mais quatro anos de mandato pela frente e lidera as pesquisas recentes. Na última Quaest, alcançou 35%. O ex-prefeito de Belo Horizonte Alexandre Kalil (PDT) aparece com 12%. Patrus Ananias (PT) tem 10%; Mateus Simões (PSD), 6%; Gabriel Azevedo (MDB), 4%; e Flávio Roscoe (PL), 2%. O favorito tem quase o mesmo que os cinco somados.
Para quem acompanha a eleição mineira de fora, o elenco exige legenda. Simões era vice de Romeu Zema (Novo) e herdou o governo quando o padrinho renunciou para disputar a Presidência. Kalil, ex-presidente do Atlético, governou Belo Horizonte e perdeu para Zema em 2022. Patrus foi prefeito da capital e ministro de Lula num passado distante. Gabriel presidiu a Câmara Municipal, começou como aliado de Aécio Neves (PSDB), depois Kalil, com quem rompeu. Roscoe licenciou-se da presidência da Fiemg para estrear na política pelo PL.
Já Cleitinho fez carreira com vídeos de indignação, vendendo a imagem do verdureiro que entrou na política sem deixar de ser povo. Mistura uma salada ideológica temperada com populismo.
Num debate, o líder isolado deveria carregar um alvo nas costas. Na Band, estampou um sorriso de tranquilidade e ficou sem escrutínio sobre a prateleira de trás de seu sacolão. Quem são os aliados, os financiadores e os interesses que sustentam o personagem do candidato outsider?
O Tempo resumiu a noite dizendo que Cleitinho passou “ileso”. A Folha de São Paulo registrou o líder “conciliador”, enquanto Simões, Kalil e Gabriel atacavam. Os adversários brigavam para chegar ao segundo lugar, e o primeiro assistia.
Simões começou como o saco de pancadas. Representa um grupo instalado no governo desde 2019 e responde por sete anos de Zema. Kalil disse que ele vivia em “Nárnia”; Gabriel cobrou segurança e valorização da polícia. Simões, porém, saiu-se bem. Recebeu os golpes sem deixar vazar a irritação e a arrogância esperadas pelos adversários.
Kalil e Gabriel preferiram reencenar um divórcio político. Gabriel foi um dos coordenadores da primeira campanha de Kalil à prefeitura, em 2016, e rompeu com o antigo aliado depois da eleição. Na Band, disse que Kalil não consegue se controlar. Os microfones foram cortados após uma suposta ameaça de agressão, negada pelo ex-prefeito.
Roscoe defendeu a mineração e repetiu que é “o candidato da direita”, tarefa ingrata para quem concorre pelo PL contra um adversário como Cleitinho, que também apoia Flávio Bolsonaro. Patrus faltou para participar do lançamento da campanha de Lula, em São Bernardo do Campo.
Na militância petista, houve quem vendesse a ausência como prova de austeridade: o petista não pegaria carona em jatinho. Esqueceram, contudo, que seu vice, o ex-procurador-geral de Justiça Jarbas Soares Júnior, aceitou duas caronas no avião do empresário da mineração Lucas Kallas.
Em 2022, voltou de Miami; no ano seguinte, viajou ao Caribe, onde passou a Semana Santa. A piauí revelou os voos. A assessoria de Kallas disse que eram viagens pessoais e de passeio entre amigos. O CNMP (Conselho Nacional do Ministério Público) arquivou a apuração por não encontrar prova de que Jarbas atuou para defender interesses particulares do empresário.
Fora o aviso protocolar, o púlpito vazio de Patrus não virou assunto nem munição para os adversários. O cuidado com Cleitinho tampouco parece resultado de um pacto, mas de aritmética eleitoral. Kalil já declarou ter “ótima relação” com o senador. Simões e Roscoe disputam o mesmo eleitorado conservador, mas podem precisar de Cleitinho num segundo turno ou no palanque presidencial. Gabriel escolheu Kalil como antagonista.
Havia perguntas objetivas a fazer. A primeira envolve Marcelo Aro, candidato ao Senado apoiado por Cleitinho. Uma ex-namorada registrou boletim de ocorrência em 2007 e o acusou de agressão, com “socos e pontapés”, quando ele tinha 20 anos e ela, 17.
Aro nega a acusação e afirma que o registro não resultou em processo, indiciamento, condenação ou punição. Cleitinho, que gosta de falar de família e proteção às mulheres, deveria explicar por que apoia para o Senado um político alvo dessa acusação.
A segunda pergunta deveria tratar de Euclydes Pettersen, deputado federal, presidente do Republicanos em Minas e aliado do senador. Ele foi indiciado pela Polícia Federal na investigação sobre os desvios do INSS.
Segundo a PF, Pettersen teria recebido ao menos 14,7 milhões de reais para dar proteção política ao esquema. O deputado nega participação, diz que o indiciamento é unilateral e lembra que ainda não existe ação penal. Cleitinho manterá o aliado em seu entorno enquanto a Procuradoria-Geral da República decide se apresenta denúncia?
Pettersen também motiva outra pergunta. Cleitinho repete que não usará dinheiro dos fundos eleitoral e partidário. Mas o site O Fator registrou o uso de ao menos dois aviões particulares em viagens políticas do senador, um deles pertencente a Pettersen.
Campanha sem fundo público não é campanha sem custo. Quem cede as aeronaves, quem paga o combustível e o que os donos desses aviões esperam de um eventual governo? Sobre o voo de domingo para o debate da Band, agora se sabe que o voo foi doado. Falta saber por quem.
A quarta pergunta começa no Senado e termina numa área de conflito agrário na Amazônia. Se Cleitinho for eleito governador, Alex Coelho Diniz assumirá os quatro anos restantes de seu mandato. O suplente é empresário da rede de supermercados Coelho Diniz, integra a família que detém 24,9% das ações ordinárias do Grupo Pão de Açúcar e foi o maior doador individual da campanha de Cleitinho em 2022, com 190,4 mil reais.
Ao votar no “verdureiro”, o eleitor foi avisado de que poderia entregar metade do mandato a uma das famílias mais ricas do varejo mineiro?
Há mais. Um dos pistoleiros presos por uma chacina que matou três pessoas em Lábrea, no Amazonas, apontou Moisés Diniz, filho de Alex, como mandante. Entre as vítimas estava um adolescente de 14 anos, atingido ao tentar fugir a nado.
O atirador trabalhava nas fazendas dos Diniz e chamou Moisés de “meu patrão”, mas depois mudou a versão e alegou ter sido coagido pela polícia. Moisés nega qualquer participação; sua defesa afirmou que ele não constava formalmente como investigado. A Polícia Civil abriu um inquérito separado para apurar possíveis mandantes.
Cleitinho disse à Folha de S. Paulo que não sabia do caso. Dois meses depois, já procurou saber?
Em vez dessas respostas, o debate entregou o “Nárnia” de Kalil em uma reação à cobrança de Simões sobre feminicídio, os microfones cortados após palavrões e Cleitinho repetindo que é verdureiro, que Deus capacita os escolhidos e que fará a campanha mais barata do país.
Cleitinho compreendeu a vantagem. Anunciou que pretende faltar aos próximos debates e voltar apenas no último, porque, segundo ele, “é tudo a mesma ladainha” e esses encontros não mudam voto. Depois da noite na Band, faz sentido. Se os adversários continuarem sem questioná-lo, Cleitinho nem precisa comparecer.
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