Daniel Camargos
Repórter especial na 'Repórter Brasil', venceu diversos prêmios por reportagens, entre eles o Vladimir Herzog. Dirigiu o documentário 'Relatos de um correspondente da guerra na Amazônia' e participou da Rainforest Investigations Network, do Pulitzer Center.
Daniel Camargos
A escala 6×1 tirou Nikolas Ferreira do personagem
A pauta que mobilizou milhões de trabalhadores encontrou o principal comunicador da direita fora de sua zona de conforto
O deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG) se tornou um fenômeno eleitoral porque entendeu antes de quase todo mundo que a política das redes não vive de programa de governo. Vive de conflito. Nesse ambiente, ele se move com desenvoltura. A votação da redução da escala 6×1, na semana passada, bagunçou o método.
Dessa vez, o tema não se resolvia com mais uma provocação contra a esquerda nem com um vídeo indignado. O assunto era o segundo dia de descanso de quem trabalha em supermercado, farmácia, shopping, restaurante, telemarketing, portaria, limpeza, segurança privada e serviços gerais.
O debate era sobre tempo. E tempo, para quem vende quase todos os dias da semana em troca de salário baixo, não é uma abstração retórica. No caso, significa o domingo sem descanso, o filho que já dormiu quando a mãe chega ou o casal que nunca folga no mesmo dia.
Esse é o público que Nikolas conhece bem como audiência. Gente que pode votar nele, compartilhar seus vídeos e enxergar em sua figura uma rebeldia contra as elites políticas e as instituições. O problema é que a escala 6×1 trouxe essa rebeldia para perto demais da rotina concreta de quem pega ônibus de madrugada para ir trabalhar.
A Câmara dos Deputados aprovou na semana passada a PEC que reduz a jornada semanal de 44 para 40 horas e torna obrigatórios dois dias de descanso, sem redução salarial. No primeiro turno, 472 votos a favor e 22 contra. No segundo, 461 a 19. O texto segue para o Senado, onde precisa de 49 votos em dois turnos. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), sinalizou que dará andamento à proposta, mas sem a pressa da Câmara.
A sequência de posicionamentos do PL foi reveladora. Primeiro vieram as críticas à proposta. Depois, caminhos alternativos. Em seguida, a maioria da bancada aderiu à aprovação. Nikolas passou então a dizer que a esquerda havia tentado transformar a direita em inimiga dos trabalhadores, mas que o partido havia frustrado a narrativa ao votar sim.
Não parou aí. Antes da votação, o deputado defendeu que o PL apoiasse a escala 4×3. “Que seja vigorado amanhã e que a quebradeira comece antes das eleições”, afirmou. Disse ainda que, quando houvesse demissão em massa e aumento de preços, estaria pronto para apontar os responsáveis.
O sentido, no argumento do deputado, era prever o colapso da narrativa adversária. O problema é que os trabalhadores não costumam tratar a própria demissão como experimento pedagógico. O vai e vem produziu uma imagem pouco habitual para um parlamentar conhecido pela segurança retórica: a de alguém adaptando posição conforme o vento, com o cálculo demasiado à vista e sem empatia com o trabalhador.
A deputada Sâmia Bomfim (PSOL-SP) interrompeu uma entrevista de Nikolas para tentar lhe entregar um frasco de óleo de peroba, para ironizar o que ela chamou de “cara de pau”. O gesto teve a sutileza habitual do Congresso em tempo de rede social. Ou seja, nenhuma. Mas funcionou porque encontrou uma pergunta já instalada: por que o deputado que fala tanto em enfrentar o sistema parecia tão desconfortável quando o sistema era a escala de trabalho?
O vereador Rick Azevedo (PSOL-RJ), fundador do Movimento Vida Além do Trabalho, antes caixa de farmácia, que viralizou no TikTok questionando quando a classe trabalhadora se revoltaria contra a escala, passou a contrapor nas redes as declarações antigas de Nikolas contra a proposta às manifestações posteriores em favor da 4×3.
A direita também bateu. Renan Santos, dirigente do Movimento Brasil Livre e pré-candidato à Presidência pelo partido Missão, acusou Nikolas de oportunismo. Sobre a estratégia da 4×3, disse à CNN que a fala era “a mais psicopática que já vi um político falar em toda a minha vida”.
O contraste com o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG) torna tudo mais interessante. Pré-candidato ao governo mineiro, Cleitinho defende o fim da escala 6×1 desde 2024. Não porque tenha migrado para a esquerda. Longe disso, aliás. “Eu não sou aliado do Lula, mas sou aliado do povo. Essa pauta não é ideológica. Vai lá na rua, vai no shopping, vai no supermercado e pergunta ao trabalhador se ele é de esquerda ou de direita. Ele está se lixando para isso”, disse o senador em plenário.
Cleitinho continua sendo um político conservador, bolsonarista, de comunicação direta e inclinação populista. Enquanto Nikolas discutia projeções econômicas, Cleitinho falava sobre descanso. Um falava da planilha. O outro falava do descanso no domingo.
Essa diferença importa em Minas Gerais, o segundo maior colégio eleitoral do País. Nos últimos meses, o PL passou de uma aproximação com o vice-governador Mateus Simões (PSD-MG), apoiada por Nikolas, para uma negociação prioritária com o Republicanos.
Cleitinho lidera as pesquisas para o Palácio Tiradentes, embora ainda não tenha confirmado a candidatura. Simões assumiu o governo após a saída de Romeu Zema (Novo) e, por ter chegado ao cargo no fim do mandato, não poderá disputar a reeleição em 2030. Se Simões vence, o campo da direita fica livre para Nikolas ser candidato ao governo daqui quatro anos. O que não ocorreria com a vitória de Cleitinho.
Nesse contexto, a discussão sobre a escala 6×1 teve um efeito que vai além do Congresso. Nikolas continua sendo o principal ativo digital da direita mineira. Mas a votação mostrou que Cleitinho, ao menos nessa pauta, demonstrou uma conexão mais espontânea com o trabalhador comum.
O tema do trabalho também trouxe para o centro da discussão uma questão que normalmente permanece em segundo plano na trajetória política de Nikolas: a distância entre a narrativa de origem popular que impulsionou sua ascensão e o ambiente social em que hoje circula.
Como já mostrei em coluna anterior nesta CartaCapital, a família de sua esposa, Lívia Bergamim Orletti, tem negócios em outra escala: meses antes do casamento, em abril de 2023, o sogro Gilmar Orletti comprou uma fazenda no Espírito Santo por 35,6 milhões de reais e constituiu a LLV Agrícola, com capital social de 12,1 milhões de reais, da qual Lívia é sócia.
Mas, quando a pauta deixou de ser cultural e passou a ser material, a tensão entre a narrativa de rebeldia popular e esse entorno empresarial se tornou mais visível. A fala de Nikolas passou a soar mais próxima da planilha patronal do que da fila do ponto de ônibus.
O deputado continua sendo uma das figuras políticas mais influentes do País e talvez o comunicador mais eficiente da direita brasileira. Mas a votação da escala 6×1 deixou um registro. Pela primeira vez em muito tempo, Nikolas precisou disputar uma conversa em que vídeos sobre costumes, STF ou linguagem neutra ofereciam pouca ajuda. Era uma discussão sobre trabalho. E, nesse terreno, o deputado que costuma obrigar os adversários a jogar no seu campo passou boa parte da partida respondendo a perguntas feitas pelos outros.
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