Incêndios na Austrália e na Amazônia mobilizam multidões online

Mais uma vez fogo gera comoção global, reforçando estado de emergência climática do planeta

Incêndios na Austrália, iniciados em setembro, estão entre os mais severos do país (Foto: NSWRFS/Fotos Públicas)

Incêndios na Austrália, iniciados em setembro, estão entre os mais severos do país (Foto: NSWRFS/Fotos Públicas)

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Talvez a maior semelhança entre os incêndios na Amazônia e na Austrália seja a forma como as autoridades responsáveis reagem a eles. No Brasil, presidente e ministro negam dados. Na Austrália, primeiro-ministro tenta desacreditar a real influência das mudanças climáticas. Enquanto ambos buscam por culpados fora de seus gabinetes, ativistas e cidadãos de todo o mundo organizam-se para pressioná-los a deixar as desculpas de lado e tomar ações efetivas. 

Embora se cobre maior posicionamento de ativistas como Greta Thunberg e Leonardo DiCaprio sobre os incêndios australianos, o fato é que não apenas os dois vêm se manifestando publicamente, como uma comoção global formou-se por meio de mobilizações na internet. A plataforma de petições online Change.org tem visto multiplicar a quantidade de campanhas em prol da Austrália, assim como aconteceu no auge dos incêndios na Amazônia. 

As mobilizações pedem desde maior proteção aos coalas vítimas dos incêndios até mais apoio aos bombeiros voluntários que se uniram aos esforços de combate às chamas – três já morreram nas ações. Parte das campanhas foi lançada por bombeiros e cidadãos australianos diretamente afetados pela crise climática, mas também por pessoas de diversos outros países que, além de solidarizarem com a Austrália, entendem que os problemas ambientais afetam o mundo como um todo e, por isso, são de interesse global, independente de onde ocorram. 

“É animador receber tanto apoio internacional durante esses tempos difíceis. Mais de trezentas petições globais foram iniciadas na Change.org, com mais de um milhão de apoiadores. Essa catástrofe claramente tem chamado a atenção do mundo, já que pessoas de todo o planeta estão usando a plataforma Change.org para pedir por ajuda ao povo e animais da Austrália”, comenta Nic Holas, diretor de campanhas da plataforma Change.org na Austrália. 

Nesta semana chegou ao Brasil uma campanha criada por uma australiana que mora nos Estados Unidos. A petição, traduzida ao português e hospedada na versão brasileira da plataforma Change.org, foi lançada por Viv Benjamin pedindo que os coalas sejam declarados espécie ameaçada de extinção. Números sobre os incêndios mostram que metade de sua população saudável – aquela capaz de garantir a sobrevivência da espécie – foi morta.  

Sensibilizadas pelas imagens de coalas gravemente feridos, tendo a sede matada por garrafas de água oferecidas por voluntários em meios aos incêndios, mais de 400 mil pessoas se juntaram à campanha de Viv, assinando a petição. Há três dias no ar no Brasil, mais de 30 mil brasileiros também deixaram sua assinatura com a intenção de demonstrar apoio à causa e pressionar Sussan Ley, ministra do Meio Ambiente na Austrália, a agir em defesa dos coalas. 

“Os coalas correm o risco de serem extintos e o governo australiano deve fazer algo a respeito!”, destaca Viv no texto da petição. “Não conseguia desviar o olhar das horríveis imagens de coalas queimados e moribundos nos recentes incêndios florestais em toda a costa leste da Austrália”, completa a autora do abaixo-assinado no manifesto online. 

Dados resultantes do incêndios revelam números nunca antes visto. Mais de 8 milhões de hectares já foram atingidos pelas queimadas iniciadas em setembro (uma área maior do que a Escócia). Além disso, ao menos 26 pessoas perderam a vida e milhares de casas foram destruídas. Estimativas de um pesquisador da Universidade de Sydney indicam ainda que 1 bilhão de animais afetados direta ou indiretamente pelos incêndios também morreram. 

Planeta em desequilíbrio

Logo que os incêndios na Austrália se intensificaram começaram também comparações com as queimadas na Amazônia. Nos primeiros dias de 2020, o ministro brasileiro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, postou em seu Twitter uma crítica a ONGs e jornalistas, acusando-os de “seletividade absoluta” no tratamento dado aos incêndios na Amazônia em relação a outras partes do mundo, como Califórnia, Sibéria e Austrália, já que estes dois últimos teriam uma área queimada três e seis vezes maior que a atingida na Amazônia, respectivamente. 

Para ilustrar a crítica, Salles utilizou no post um gráfico reproduzido pela BBC News, que comparava as queimadas nas regiões. Entretanto, após ouvir de especialistas que a comparação da dimensão entre os incêndios era incorreta por utilizar metodologias diferentes e devido às queimadas possuírem causas e contextos climáticos distintos, além de terem ocorrido em períodos diversos, a própria BBC News retirou o gráfico do ar. 

Incêndio nas florestas australianas colorem o céu de vermelho (Foto: SAEED KHAN/AFP)

A diferença primordial entre os incêndios na Amazônia e na Austrália é a causa. Como a floresta amazônica é úmida, o fogo não é natural, sendo, de forma geral, provocado por uma ação direta do homem. Já na Austrália, país com prolongadas temporadas de seca e de altas temperaturas (beirando os 50 graus celsius), as queimadas surgem naturalmente. 

Apesar de terem causas distintas, ambos cenários alertam para uma única emergência climática. Enquanto as queimadas na Amazônia colocam em risco um bioma com vegetação não adaptada ao fogo, intensificando ainda mais o desequilíbrio do meio ambiente, a atual proporção dos incêndios na Austrália já são resultado de um desajuste climático. 

O Climate Council, principal organização de comunicações sobre mudanças climáticas da Austrália, publicou um relatório em novembro do ano passado, intitulado “This is not normal” (Isto não é normal), afirmando que as mudanças climáticas pioraram as catástrofes dos incêndios florestais. Segundo a organização, a natureza das queimadas na Austrália mudou. 

“As condições dos incêndios são agora mais perigosas do que no passado, e os riscos para pessoas e propriedades aumentaram. Por mais de 20 anos, os cientistas alertaram que a mudança climática aumentaria o risco de incêndios florestais extremos na Austrália. Este aviso foi preciso”, diz o relatório. O estudo também destaca a seca e o calor recordes.  

Mobilizações quebram recorde

Diante da emergência climática global, campanhas em defesa do meio ambiente seguem engajando apoiadores em busca da união de forças para pressionar governos e autoridades por mudanças. Além das crescentes mobilizações em prol da Austrália, petições hospedadas na Change.org em defesa da Amazônia quebraram recordes de engajamento no ano passado. 

Floresta amazônica sofre com queimadas de origem criminosa (Foto: VINÍCIUS MENDONÇA/IBAMA)

Conforme a organização mostrou em matéria publicada em dezembro, o abaixo-assinado hospedado na plataforma que juntou o maior número de assinaturas em 2019 foi um justamente contra o desmatamento e a exploração irresponsável da Amazônia. A petição, que até 2018 não chegava sequer a meio milhão de apoiadores, encerrou o ano com 5,8 milhões.

“Esse total de assinaturas é um recorde mundial para a plataforma. É a maior petição da história da Change.org no planeta, o que passa uma mensagem muito clara sobre a real preocupação, não só do brasileiro, mas de todo o mundo com o meio ambiente”, destacou na ocasião a diretora-executiva da plataforma no Brasil, Monica Souza. 

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