150 mil assinam petições por renúncia de Moro e em defesa de Glenn

Diálogos revelados pelo Intercept sobre a Lava Jato reúnem milhares de assinaturas contra ex-juiz e a favor de jornalista

150 mil assinam petições por renúncia de Moro e em defesa de Glenn

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A série de conversas atribuídas ao ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, e ao procurador da República Deltan Dallagnol, tem causado ainda mais euforia no já conturbado cenário político e jurídico brasileiro, colocando novamente em embate ideológico defensores e acusadores da operação Lava Jato. O sentimento de indignação contra a chamada “justiça seletiva” motivou a criação de um abaixo-assinado que pede a renúncia de Moro ao cargo de ministro. Aberta na Change.org, a petição atingiu em uma semana mais de 53 mil assinaturas.  

A troca de mensagens entre o então juiz e o chefe da força-tarefa das investigações da Lava Jato teria acontecido por meio do aplicativo Telegram, entre outubro de 2015 e setembro de 2017. Por revelarem possível atuação ilegal de Moro, que como juiz não poderia aconselhar ou direcionar o trabalho dos procuradores do Ministério Público (MP), as divulgações levantaram questionamentos quanto à credibilidade da operação que levou o ex-presidente Lula à prisão.

O ministro Sergio Moro, em audiência no Senado, e o jornalista Glenn Greenwald com sua família (Foto montagem: Isaac Amorim/MJSP e rede social)

A estudante de Jornalismo e criadora do abaixo-assinado, Mariana Barros, afirma que a revelação das conversas só traz mais certeza às suspeitas de que a Lava Jato tinha direcionamento político-partidário. A jovem espera que as investigações avancem e que a verdade seja descoberta. Ela defende, ainda, que a justiça se cumpra a todos os envolvidos, como aconteceria com qualquer outro ministro ou juiz que burlasse regras.

“Nesse fanatismo de que ele [Moro] vai limpar a corrupção, as pessoas se esquecem do limite, e esse limite está sendo ultrapassado há muito tempo. Até que ponto você quer acabar com a corrupção de um país, sendo que está sendo corrupto também? Até que ponto você quer uma democracia sendo que está manipulando um país inteiro aos seus ideais?”, questiona a universitária, que cursa o 3º semestre da faculdade.

Um dia depois do chat ter se tornado público, a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) falou sobre uma “possível relação de promiscuidade” na condução das ações penais da Lava Jato, recomendando o afastamento dos envolvidos no escândalo. “Talvez as pessoas estejam abrindo seus olhos”, comenta Mariana. Apesar de ver com otimismo a proporção que a petição está tomando, a estudante espera maior engajamento da população, “do mesmo jeito que teve toda uma comoção por causa do triplex do Lula”. “Justiça é para todos”, afirma.

Mariana Barros, a autora da petição pela renúncia de Sergio Moro (Foto: Arquivo Pessoal)

Defesa da liberdade de imprensa

Além dos 53,8 mil apoiadores em torno da petição pela renúncia do ministro Sergio Moro, outros abaixo-assinados foram criados na Change.org em defesa da liberdade de imprensa e do jornalista americano Glenn Greenwald, editor do site The Intercept Brasil, que divulgou as conversas secretas mantidas entre o então juiz e procuradores em chats privados e grupos do Telegram. As petições, criadas depois do jornalista ter sofrido ataques na internet com ofensas homofóbicas de pessoas que pediam sua deportação, reúnem 95,1 mil assinaturas.

Por meio do movimento Democracia Brasil, a também jornalista e professora universitária Ana* criou uma das mobilizações em defesa de Greenwald, que  já atuou no jornal britânico The Guardian e colaborou com uma reportagem vencedora do Prêmio Pulitzer (considerado o mais importante do jornalismo) sobre os escândalos do sistema de vigilância da Agência de Segurança Nacional do Estados Unidos (NSA), vazados pelo hacker Edward Snowden.

“O apoio é realmente em torno da causa, a liberdade de imprensa, sigilo de fonte. E claro, sem falar no direito que ele como muitos outros imigrantes tem de permanecer aqui, onde constituiu família e atividades profissionais”, conta Ana. Um dos três fundadores do The Intercept, Greenwald é casado com o deputado federal David Miranda, com quem adotou duas crianças.

Como jornalista, Ana explica que a defesa de Greenwald é importante para que “amanhã” outros jornalistas não sejam alvos. Ela comenta que a ameaça à liberdade de imprensa sempre existiu no Brasil, mas que agora está pior. “É uma luta contínua para ter liberdade de escrever, liberdade de publicar. Hoje a situação está caótica, pois quando você quebra essas barreiras, de escrever e publicar, facilitada pela internet, você vira alvo fácil. No caso de Glenn, claro que não seria uma extradição que o calaria, mas o recado do ‘cala a boca’ vai ecoando”.

A integrante do movimento Democracia Brasil, enxerga uma espécie de “delírio coletivo” no comportamento dos envolvidos e de parte da população que parece agir com naturalidade às revelações feitas pelo Intercept. “Ele [Greenwald] deu uma sacudida no jornalismo investigativo brasileiro, é como se fosse uma Lava Jato da Lava Jato”, comenta Ana. “Penso que ainda não temos como dimensionar esse impacto, pois não sabemos o que está por vir, mas o que é pior é não sabermos como as autoridades públicas vão lidar com isso tudo”, completa.

A jornalista faz, ainda, um paralelo entre os desdobramentos da apuração do Intercept e o escândalo de corrupção Watergate, que em 1974 levou à renúncia o presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon. “Se dependesse do pensamento e atitude de uma parcela da atual sociedade brasileira, o Watergate, que provocou a renúncia do presidente americano, Nixon, teria como resultado a prisão dos jornalistas e do informante, também anônimo”.  

Suzana Maria Gadelha Ferreira, autora de uma das petições criadas em apoio ao jornalista americano, percebe uma “inversão de valores” na situação e defende a continuidade das divulgações feitas pelo site. “Glenn não tem medo, ele não se abala, não se dobrou aos Estados Unidos. Ele tem que mostrar que nossa justiça não é imparcial, a verdade tem que aparecer de fato”, destaca. “Contamos com o Glenn e toda a equipe de jornalismo do Intercept para que a verdade prevaleça. Devemos mostrar que estamos com ele”, acrescenta.

Ministro presta esclarecimentos

Na última quarta-feira 19, o ministro da Justiça Sergio Moro compareceu à Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania (CCJ) do Senado para prestar esclarecimentos sobre as conversas com integrantes da Lava Jato. Os senadores também marcarão uma data para que o procurador Deltan Dallagnol seja convidado a apresentar explicações sobre os diálogos.

A equipe da Change.org entrou em contato com a assessoria de imprensa do Ministério da Justiça e Segurança Pública para que Moro pudesse se posicionar quanto ao conteúdo desta matéria. Apesar de não responder sobre o abaixo-assinado que pede a renúncia do ministro, a assessoria enviou uma nota, por e-mail, esclarecendo quatro pontos:

Sobre as supostas mensagens divulgadas, esclarecemos:

– O Ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, não reconhece a autenticidade de supostas mensagens obtidas por meios criminosos, que podem ter sido editadas e manipuladas, e que teriam sido transmitidas há dois ou três anos.

– Nunca houve interferência no suposto caso envolvendo o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, que foi remetido diretamente pelo Supremo Tribunal Federal a outro Juízo, tendo este reconhecido a prescrição.

– A atuação do Ministro como juiz federal sempre se pautou pela aplicação correta da lei a casos de corrupção e lavagem de dinheiro.

– As conclusões da matéria veiculada pelo site Intercept sequer são autorizadas pelo próprio texto das supostas mensagens, sendo mero sensacionalismo.

Na terça-feira (18), um dia antes do ministro comparecer à CCJ, o site Intercept divulgou novos trechos de supostas conversas nas quais Moro e Dallagnol falavam de investigações sobre suspeitas de caixa dois nas campanhas do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso.  

*Ana é nome fictício da jornalista e professora universitária que criou o abaixo-assinado em defesa de Glenn Greenwald. Por temer “linchamento virtual”, ameaças e até violência contra si e sua família, a autora da petição preferiu manter sua identidade sob sigilo.

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