Internacional

Relações Internacionais

Trump e a volta da crise nuclear do Irã

por Marco Aurélio Cabral Pinto* — publicado 09/02/2017 14h41, última modificação 14/02/2017 10h54
Um só indício de ataque militar ao país, na contramão do acordo feito por Barack Obama, pode desencadear uma guerra com envolvimento de outras nações

[Este é o blog do Brasil Debate em CartaCapital. Aqui você acessa o site completo]

 

Em 1967, os Estados Unidos forneceram ao Irã o primeiro reator nuclear do país, ainda operacional. Três anos depois, os iranianos assinaram o Acordo Internacional de Não Proliferação de Armas Nucleares na ONU.

Em 1974, o então Xá Reza Pahlevi, aliado do Ocidente, anunciou um programa de expansão de geração elétrica termonuclear com meta de 23 gigawatts de capacidade em 20 anos. O programa incluiu a construção de 23 usinas geradoras e unidades de enriquecimento de combustível, em modelo parecido com o adotado no Brasil à época.

Com a criação da República Islâmica em 1979, a colaboração tecnológica ocidental foi interrompida e o Irã incluído pelos EUA na lista de Estados que apoiam o terrorismo internacional.

Durante as décadas de 1980 e 1990, as sanções foram ampliadas e o governo persa construiu novas alianças tecnológicas, principalmente com a Rússia (energia termonuclear) e a China (mísseis balísticos para lançamento de satélites).

Em 2002, um grupo político iraniano supostamente ligado a atividades terroristas anunciou que o país dispunha de usina de enriquecimento de urânio nas imediações de Arak. Cerca de um ano depois, o conselho diretor da Agência Internacional de Energia Atômica promulgou uma resolução que impunha ao Irã a paralisação do processo de enriquecimento de urânio e a abertura das instalações de beneficiamento do mineral no país a técnicos da agência.

Depois de idas e vindas, a agência aceitou o compromisso de interrupção de enriquecimento radioativo pelos persas.  Em 2005, o Irã anunciou acordo com a Rússia para fornecimento de combustível enriquecido para o reator nuclear de Bushehr. Os rejeitos enriquecidos retornariam à Rússia como medida “preventiva” para que o Irã não tivesse condições de obter plutônio.

Após meses de negociações com o Ocidente, o Conselho de Segurança da ONU expediu as Resoluções 1.737 e 1.747 restringindo a capacidade do Irã de desenvolver tecnologias com aplicação em balística e em beneficiamento de urânio.

Em 2007, a inteligência norte-americana informou que o Irã encontrava-se em condições de dispor de primeiro artefato nuclear entre 2010 e 2015. Um mês após a posse de Barack Obama, em 2008, o Irã anunciou bem-sucedido lançamento do primeiro satélite, o que confirmou as suspeitas de desenvolvimento de mísseis balísticos.

No fim de 2008, EUA, Inglaterra e França anunciaram que o Irã possuía uma segunda instalação secreta de enriquecimento de urânio nas montanhas perto da cidade sagrada de Qorn.

No início de 2010, o Ocidente e a agência nuclear aceitaram novo acordo com o Irã para enriquecimento e utilização de urânio a 20% para utilização em geração elétrica. No fim do ano, contudo, técnicos iranianos revelaram que o vírus de computador stuxnet havia causado danos na planta de enriquecimento de Natanz, atacando sistemas de controle de automação e monitoramento industrial conhecidos pela sigla SCADA/Siemens. Segundo o Wikileaks, houve sério acidente na usina à mesma época.

Em 2012, a UE proibiu seus países-membros de importarem óleo do Irã e a agiencia nuclear reportou que o Irã enriquecia minério em quantidades superiores àqueles requisitos exigidos para geração elétrica. Em discurso nas Nações Unidas, Israel estabeleceu “linha-vermelha” para massa de 250 quilos de urânio enriquecido a 20% de pureza. Esta massa seria suficiente para a fabricação de primeiro artefato com urânio quase puro (50 quilos).

Em 2013, o presidente dos EUA assumiu as negociações entre os países (França, Inglaterra, EUA, Rússia, Irã) com esforço de celebração de acordo definitivo. Em 2015, o Irã testou dois mísseis balísticos de grande precisão, em violação de Resolução da ONU.

Em um dos mais aplaudidos discursos do congresso norte-americano na história recente, em fins de 2015, o chefe de Estado de Israel, Benjamin Netanyahu, fez críticas à atitude condescendente dos EUA com o programa nuclear iraniano. E exigiu que se impusesse ao Irã: 1) interromper as ações agressivas sobre os vizinhos do Oriente Médio; 2) interromper o apoio ao terrorismo ao redor do mundo; 3) interromper a ameaça de aniquilamento do Estado de Israel.

Israel reconheceu que a redução nos preços do petróleo contribuiu para o enfraquecimento do regime de aiatolás no Irã. A capacidade de promover ações agressivas contra o Ocidente não seria, porém, interrompida com o encaminhamento proposto por Obama. Claramente, sem o apoio militar dos EUA, não seria possível a Israel atacar o Irã, pois isto poderia envolver outras potências asiáticas em escalada de guerra. A crença é que os EUA, mesmo sem OTAN, poderiam dissuadir qualquer ação hostil a Israel.

Netanyahu alegava à época que o acordo negociado pelos EUA levaria a guerra no futuro. O Irã manteria a capacidade de produção intacta e poderia dispor de bomba atômica a partir de 2017 e de arsenal nuclear na década seguinte. Os serviços secretos de Israel e EUA estimavam em 19 mil o número de centrífugas. Obama replicou que Israel não possuiria alternativa negocial viável e que a não realização do acordo seria pior que a consolidação do acordo em curso.

Em setembro de 2016, o premier de Israel ocupou o púlpito das Nações Unidas para reafirmar o protagonismo israelense no mundo e dizer que a guerra contra o país desencadeada na ONU deveria terminar. De acordo com ele, a ONU emitiu cerca de 30 resoluções “contra” o Estado de Israel, referente à situação palestina, ignorando os fatos de Israel ser um “global waterpower”, com tecnologias e plantas para dessalinização de 90% da água utilizada, e de atrair cerca de 20% dos investimentos privados mundiais em cyber segurança.

Mais recentemente, Netanyahu condenou duramente a omissão do governo Obama na ONU. Em seção de 23 de dezembro de 2016, as Nações Unidas aprovaram uma resolução pela retirada de Israel de território palestino e os EUA não exerceram poder de veto no Conselho de Segurança. O recém-eleito presidente Donald Trump compartilha da visão de Israel e enfatiza a importância de ação direta e imediata contra a capacidade do Irã em produzir artefatos nucleares.

O poderio militar no Oriente Médio

Ainda que não seja confirmada por qualquer das partes, a base aérea de Hamadam, no Irã, encontra-se franqueada a bombardeiros e caças russos. Há fotos que mostram número significativo de bombardeiros estratégicos ‘Backfire’ Tu-22M3s, que podem ser armados com mísseis nucleares e jatos Su-34 no exato momento em que estas linhas são escritas.

 Em meados de dezembro de 2016, o embaixador iraniano em Moscou anunciou a implantação de sistema de mísseis S-3.000 soviéticos na base antiaérea de Khatam al-Anbiya. Sistemas de mísseis antiaéreos visam a proteger bases aéreas, distinto de sistemas de mísseis antimísseis, atualmente instalados na Europa (contra Rússia), no Japão (contra Coreia do Norte) e no Oriente Médio (contra Irã) por fabricantes norte-americanos.

O submarino nuclear de ataque K-329 Severodvinsk entrou em serviço em 2014. Ele tem estrutura mais leve (13,8 mil toneladas) do que os submarinos de outras classes soviéticas, o tamanho de um prédio de quase 40 andares e atinge até 40 nós de velocidade debaixo d’água, bem mais silencioso que seus antecessores. A marinha soviética tem quatro destes encomendados.

Conforme a tabela a seguir, o número de submarinos nucleares ocidentais é superior (22) que a soma dos artefatos na Rússia e na China combinados (17). O emprego de submarinos de ataque é usualmente concebido como em primeira onda, direcionado a instalações militares adversárias. Cada submarino consegue transportar mísseis de médio alcance e há baixíssima chance de serem detectados antes do lançamento. Por isso, são diretamente associados ao exercício de poder global e apenas cinco nações dispõem de um. O Brasil seria o sexto país na lista, porém restrito ao papel de caçar outros submarinos.

Os EUA são o único a dispor de uma frota de porta-aviões compatível com a presença militar em todos os principais oceanos e mares do planeta, e também o território mais seguro para este tipo de ameaça. O ataque de bombardeiros é direcionado principalmente a instalações militares e de infraestrutura logística e energética. O poder naval e aéreo norte-americano no mar é incontestável. O número de tanques russos e chineses supera em muito o norte-americano, o que mostra, ao lado de elevados contingentes militares, superioridade da China e Rússia em terra.

Na comparação, parece indiscutível que os EUA têm capacidade militar instalada compatível com o exercício do poder hegemônico mundial. Combinações de forças mediante alianças na Ásia podem efetivamente ameaçar a hegemonia norte-americana naquele continente e impedir a formação de novo império ocidental.

Na próxima tabela, percebe-se que a Europa (OTAN) é relevante para o objetivo de dissuadir o Irã de perseguir armas nucleares intercontinentais. Caso os EUA e Israel avaliem que o ataque às instalações nucleares do Irã desencadeará alianças com Turquia e Egito, torna-se importante a abertura de outras frentes de conflito, eventualmente a envolver a Ucrânia, de maneira a dividir o esforço militar russo.

Em síntese, qualquer cenário de ataque militar ocidental ao Irã pode desencadear escalada de guerra com envolvimento rápido de outras nações e, consequentemente, recolocando o preço e o suprimento do petróleo como variáveis chave das economias que não dispõem da commodity.

 * É professor da Escola de Engenharia da Universidade Federal Fluminense, mestre em administração de empresas pelo COPPEAD/UFRJ, doutor em economia pelo IE/UFRJ. Engenheiro no BNDES e Conselheiro na central sindical CNTU.