Sociedade

Desigualdade

Bilionários: seria tão bom se fossem só 1%

por Reginaldo Moraes* — publicado 16/02/2017 13h23, última modificação 16/02/2017 13h25
Os muito ricos não conseguem controlar sozinhos o sistema. Precisam dos serviçais que dominam a gestão econômica, os cordéis do poder e a mídia
Rovena Rosa/Agência Brasil

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Por que mandam e como mandam os famosos “1%”? É verdade que temos um País (e um mundo) que se divide entre “eles” e “nós”, os de cima e os de baixo. Mas a divisão é um pouco mais complicada... e decisiva.

Não se controla uma sociedade apenas com 1% de nababos. Em torno dele tem mais gente, muito mais. Os grupos sociais que controlam a gestão econômica, os cordéis do poder, da mídia, pode ser que não estejam entre os tais 1% mais ricos, mas pensam como eles, trabalham para eles, sonham em ser como eles.

Um relatório recente da organização humanitária Oxfam sobre a concentração de terras no Brasil revela algo que sabemos e está disponível no sistema de contas federais e nos relatórios do Incra.

A história é crua e dura. Começa com o fato de que no Brasil existem, sempre existiram, políticas sociais… para ricos e associados. No Brasil, cerca de 4 mil pessoas físicas ou jurídicas (empresas) devem ao fisco quase 1 trilhão de reais. Para ter uma ideia, o PIB do País em 2016 girou em torno de 5 trilhões. Outro dado para comparar: o “rombo” no orçamento federal, que o governo do golpe anunciou com estardalhaço, é de 170 bilhões.

Essa comparação permite avaliar uma coisa básica: se esses fazendeiros devedores pagassem o que devem não teríamos rombo algum. Muito ao contrário. Mas eles não são forçados a pagar nem vão para os presídios, como os pobres que devem a pensão alimentar.

A coisa fica ainda pior quando olhamos para cima nessa pirâmide: mais ou menos 700 indivíduos ou empresas devem 200 bilhões de reais. Maior do que o rombo do Henrique Meirelles.

Esses 700 devedores certamente estão entre os grandes financiadores de campanhas: elegem legisladores e executivos. São também os clientes fortes do Judiciário, do mundo seleto de advogados, juízes, procuradores e desembargadores. Assim florescem os grandes escritórios de advocacia, os regalos e festejos com os quais se azeitam as sentenças e decisões judiciais. Assim se produzem as leis, os decretos e normas que distribuem subsídios, créditos baratos, isenções e outros benefícios.

O 1% movimenta lá os seus 10% de lacaios.

Os nababos da terra são como os nababos dos bancos e da indústria. Eles elegem aqueles que fazem as leis e tomam as decisões. E estes eleitos fazem leis e tomam decisões que aumentam ainda mais a riqueza daqueles 700, reduzem seus impostos etc. Com isso, têm mais dinheiro para comprar políticos e juristas. O círculo se fecha. É simples entender quem compra o poder. É uma questão de classe e eles sabem disso.

Por isso a coisa é um pouco mais complicada do que o cerco ao 1%. Ele possui cães de guarda e cães de lazer.

Um escritor espanhol disse algo interessante sobre os cães de raça. Com o tempo, afirmou, seus donos adquirem o cérebro do cão, começam a morder os pobres. Resolvi desenvolver o raciocínio. Por que isso ocorre e o que revela? Por que o cão morde o pobre? Ele vive diariamente cercado de gente com gestos de rico, fala de rico, roupa de rico, cheiro de rico. Rico, para ele, é gente “normal”, segura, confiável. Daí, vem alguém com roupa diferente, gestos e fala diferentes, cheiro diferente. É classe perigosa, a tal gente diferenciada. Eles mordem você se você não morder antes. Os homens e mulheres “de bens” vivem assim. Seus filhos vivem assim, crescem assim, como seus cães, aliás, gente de “bens” não distingue muito a criação dos cães e dos filhos.

São Paulo deve ter mais pet shops e clínicas para animais do que postos de saúde. O raciocínio se aplica, inclusive e dolorosamente, para aqueles garotos e garotas que vão para os cursos que cuidam de gente, como a medicina. Quando cheiram um pobre, reagem como aquele cão. Morder seria muito. Mas aprendem outros modos de atacar, como um reflexo condicionado de defesa. Do pobre, do sujo, de cheiro estranho, do rude, do... perigoso e mal comportado.

Pois é. Há uns 10% ou 20% do Brasil que se comportam desse modo, pensam desse modo. E se reproduzem desse modo. É assim que são educados os filhos dos homens de “bens”, os futuros advogados, promotores, juízes, médicos, administradores. São esses jovens que estamos “educando”? Some-se a isso o fato de que o Brasil praticamente não tem imposto sobre herança. Desse modo, no país em que tanto se fala em meritocracia e vencer pelo próprio esforço, reproduzimos uma safra de herdeiros estúpidos e preguiçosos. Isso vai acabar mal. Por que insistimos em chamar de elite esses caras?

 *É professor da Unicamp, pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia para Estudos sobre os Estados Unidos (INCT-Ineu) e colaborador da Fundação Perseu Abramo.