Política

Liberdade de expressão

A verdade sobre as manifestações "contra" Moro em Nova York

por Luiza Nassif Pires* — publicado 14/02/2017 10h56, última modificação 16/02/2017 13h24
Luiza Nassif Pires, que não é parente do jornalista Luís Nassif, explica as motivações dos protestos durante o seminário na Columbia University
Fábio Rodrigues Pozzebom/Agência Brasil
Sergio Moro

Ninguém queria barrar Moro

 

[Este é o blog do Brasil Debate em CartaCapital. Aqui você acessa o site completo]

Virou tema de grande repercussão nacional a palestra proferida pelo juiz Sérgio Moro em Nova York, ocorrida na Columbia University em  6 de fevereiro. Não pelo que ele disse, mas pelos protestos ocorridos. Não demorou muito para a mídia e as redes sociais repercutirem os eventos. Em meio ao clima hostil que predomina no debate político brasileiro, logo se multiplicaram comentários daqueles que aprovaram ou desaprovaram a postura de quem protestava.

Nessa polarização, contudo, a desinformação foi a norma. A mídia brasileira não explicou para o público que, consequentemente, não entendeu, os fatos e a natureza dos protestos. Esse artigo busca apontar essa desinformação e mostrar os motivos de um dos protestos: vozes dissonantes foram silenciadas no evento em causa.

Moro foi apenas um dos palestrantes do evento “Institution-building, Governance and Compliance in Brazil”, patrocinado pela Columbia University e The New School nos dias 6 e 7 de fevereiro. Dois grupos representando manifestações diferentes estavam presentes. A primeira foi organizada pelo Defend Democracy in Brazil. A segunda, da qual fiz parte, foi liderada por um coletivo de alunos de The New School. Esse artigo trata dos desdobramentos e objetivos dessa segunda manifestação, liderada por acadêmicos.

Ao contrário do que muitas notícias sugeriram, nenhum dos manifestantes retirados da palestra do juiz Moro era ligado à The New School. Essa manifestação, do Defend Democracy in Brazil, foi responsável por intervenções no evento e não contou com estudantes da The New School.

A segunda manifestação, liderada por um coletivo de alunos e representando ao menos 150 integrantes da comunidade acadêmica lutava por um espaço de voz e pela liberdade de expressão na academia. Manifestavam-se sobretudo contra a organização do evento, que se recusou não apenas a adicionar um nome de contraponto à narrativa implícita pelo programa do evento – a de que a Operação Lava Jato seria paradigmática da "construção institucional, governança e conformidade" no Brasil – em cada um dos painéis, como também a garantir qualquer espaço institucional para vozes antagônicas à atuação do juiz Moro na parte do evento hospedada na Columbia University, no primeiro dia.

Tal qual havia sido proposto, o evento dava legitimidade a opiniões representativas de apenas um ponto de vista, atribuindo às opiniões diversas caráter conturbador e por vezes ilegítimo. Ao imaginar aquilo que não pôde ser dito, parte do público e da mídia foi incapaz de distinguir as duas manifestações e de respeitar a forma como cada uma lutou por esse espaço.

Importante frisar que o grupo de acadêmicos jamais pediu que se cancelasse o evento ou se opôs à vinda de Moro, e isso justamente porque tal posição iria na contramão do que defendíamos: um espaço democrático de discussão, coisa essencial para um país dividido como o Brasil de hoje.

No primeiro dia do evento, um grupo de alunos das duas universidades, acompanhado da professora de The New School Nancy Fraser, cuja entrada no evento foi negada, protestava pacificamente do lado de fora do local da palestra, na Columbia University, e distribuía a carta aberta assinada por 170 alunos, professores e ex-alunos de The New School e da Columbia University, entre outros.

A carta, que pode ser acessada na íntegra aqui, explicita no final os problemas que queríamos evitar ao brigar por espaço para opiniões diversas.

“Além das implicações de desinformar um público acadêmico sobre a atual situação política no Brasil, a estruturação desse evento diverge de importantes valores fundamentais adotados pela The New School, como a luta por democracia e justiça social, a necessidade de pensamento crítico em todos os momentos e a importância de ouvir e dar espaço a vozes representativas – e sobretudo dissidentes.

 A democracia está delicadamente em jogo em todo o mundo, e nossa missão, especialmente nestes tempestuosos tempos político-globais, é protegê-la em todos os lugares. Qualquer tentativa de enfraquecer esses valores não passará sem ser contestada.”

Desde o início das negociações, os organizadores aceitaram acomodar palestrantes sugeridos pelo nosso coletivo apenas no dia seguinte à palestra de Moro, em auditório na The New School. Ademais, o descontentamento crescente com o cerceamento das opiniões divergentes à narrativa transmitida pelo evento fez com que os organizadores tentassem remediar a situação. No segundo dia, os alunos e professores tiveram direito a 15 minutos e usaram o tempo para a leitura da carta aberta e para convidar todos aqueles que se sentiram silenciados pelo evento a sentar-se pacificamente no palco.

A intervenção silenciosa se estendeu ao longo de toda a explanação do procurador Paulo Roberto Galvão, durante a qual 40 alunos e professores sentados no palco cobriram suas bocas com fitas que diziam “silenciado” em diversas línguas, do português ao farsi.

Se houve veto à liberdade de expressão, esse foi aplicado pelo evento, e não pelos alunos da New School que intervieram silenciados sem jamais calar os palestrantes. No dia seguinte, em uma moção, o corpo docente da New School for Social Research decidiu dissociar-se do evento:

“Houve falhas significativas na maneira em que esta conferência foi organizada, na resposta à solicitação por nossos alunos para uma representação mais adequada dos diferentes pontos de vista, e na exclusão de uma integrante do nosso corpo docente durante a conferência.  Por conseguinte, o corpo docente da NSSR dissocia-se deste evento. Esperamos que no futuro haja adesão aos nossos princípios, incluindo oportunidade genuína para discussão aberta de pontos de vista controversos.”

O documento afirma ainda: “É parte de nossa tradição garantir que haja verdadeira discussão aberta onde vozes dissidentes têm a oportunidade de expressar suas opiniões. Queremos tranquilizar nossos alunos ao garantir que a NSSR continua a ser um espaço que incentiva a discussão respeitosa de opiniões polêmicas e divergentes.”

 Ao se recusar a dar espaço para um grupo de opiniões, o evento acabou por relegá-las à marginalidade. Estudantes sofreram ataques como consequência da intolerância às suas ideias. Esse fato foi reconhecido pelo corpo docente da NSSR, cujos integrantes se disseram “preocupados com as formas de retaliação contra os nossos alunos que corajosamente manifestaram suas opiniões divergentes”.

A ocupação do palco almejava explicitar a ausência de espaço para o dissenso contrastando a fala dos palestrantes ao silêncio de quarenta bocas caladas. Mas quem nos observava atribuiu ao coletivo de sujeitos silenciados a opinião que pareceu-lhes mais adequada. Posições divergentes repercutiram na mídia como uma opinião homogênea de oposição à Lava Jato per se, simplificação que não representava ninguém e que tornou a todos alvo de ataques pessoais.

Quando apenas nos resta o direito ao silêncio, carregamos as contradições inerentes à tentativa de se falar calado. Fomos atacados pelo que imaginaram que diríamos sem que jamais tenhamos tido a chance de dizer o que quer fosse.

 * É doutoranda em economia na The New School for Social Research, bacharel e mestre em economia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Não possui nenhum parentesco com jornalistas. Integra a vasta comunidade libanesa no Brasil e ostenta com orgulho seu nome do meio, legado por sua mãe.