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Quais são as caras da resistência no Brasil de Jair Bolsonaro?

Juventude se alimenta do pessimismo e organiza a resistência contra os ataques do governo

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Para um número de pessoas cada vez maior, tem se tornado angustiante navegar pelas redes sociais, abrir os jornais e ligar a televisão. As notícias sobre quem conduz e como fazem a gestão do país revelam um cenário de distopia – expressão cujo uso até virou moda. São tempos difíceis para a lucidez. Porém, no Brasil de Bolsonaro, o pessimismo pode se transformar em estímulo para a organização de uma potente e articulada rede de resistências.

Poucos dias após o resultado das eleições de 2018, a filósofa Marilena Chauí declarou que estaríamos vivendo em “um mundo que havia acabado” e prenunciou um período de lenta organização institucional da resistência. Para essa tarefa, convocou centros estudantis, associações docentes, sindicatos, movimentos sociais, meios de comunicação independentes e organizações da sociedade civil. A fala de Chauí demanda o agrupamento das estruturas existentes de modo que operem como redes institucionalizadas e cujo processo, embora demorado e gradual, responda de maneira efetiva e duradoura. Para a filósofa, só há uma forma de combater a onda fascista, cujo método se assemelha ao trabalho de uma toupeira, “que cava silenciosamente por baixo da terra”.

A conjuntura exige uma organização que some outros contornos e a formação de redes multidisciplinares insurge nesse cenário. É preciso se reinventar e somente se poderá superar uma crise que acumula novos matizes se a juventude for considerada chave dessa reestruturação. Sua energia é o combustível para enfrentar o desânimo que incide sobre a sociedade. Transfeminista do Levante da Juventude, Maria Medeiros tem 24 anos e acredita que a criatividade, a liberdade e a esperança dos jovens são os ingredientes fundamentais para a receita da organização popular.

A “tsunami da educação”, onda de manifestações em defesa da universidade pública e contra os contingenciamentos de verbas, tem sido liderada, principalmente, pelos movimentos jovens e estudantis. Estudante de pós-graduação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB), Beatriz Brito é uma das mais de 5.600 pessoas que serão prejudicadas com o corte das bolsas anunciado no último dia 02 de setembro pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes). Com 27 anos, a jovem pesquisadora reconhece que somente haverá subordinação aos atos do Governo Federal se não houver organização, mobilização e conhecimento sobre a realidade.

Maria Medeiros (esq.), militante do Levante Popular da Juventude, e Beatriz Brito, estudante de pós-graduação da UFPB. (Foto: Pedro Rossi)

Dias atrás, estudantes universitários de Fortaleza bloquearam o acesso ao prédio da reitoria da Universidade Federal do Ceará (UFC) evitando que Cândido Albuquerque, indicado pelo Governo Federal, tomasse posse como Reitor. Na Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), o bolsonarista Marcelo Recktenvald, nem mesmo eleito para o segundo turno, compôs a lista tríplice que o possibilitou ser indicado para assumir o cargo. Em oposição ao ato, estudantes da UFFS ocuparam o prédio da reitoria, no último dia 31 de agosto. Em nota pública de 03 de setembro, os ocupantes manifestaram que, somente liberariam o edifício caso suas reivindicações fossem contempladas:

“Somente desocuparemos o edifício quando nossas pautas forem atendidas. Lutaremos sempre, não apenas pela nossa, mas também por todas as Universidades federais brasileiras, para todos os jovens possam ter um ensino superior gratuito e de qualidade.”

Não é só na educação que a juventude faz a resistência no Brasil bolsonarista. Na Paraíba, a experiência da luta por moradia e em defesa da comunidade tradicional ribeirinha do Porto do Capim é um exemplo de que a mobilização também se organiza em outras frentes. Em junho, em nome do controverso projeto “Parque Ecológico Sanhauá”, a Prefeitura Municipal de João Pessoa notificou mais de 170 famílias e demoliu um conjunto de casas “irregulares”. No entanto, a ação não impediu que a comunidade se organizasse e devolvesse vida ao local, com um novo espaço público, hoje, chamado de “Praça da Resistência”.

Liderada pelas gêmeas Rayssa e Rossana Holanda, com 27 anos de idade, a comunidade do Porto do Capim chamou a atenção do Congresso Nacional. Recentemente, a Comissão dos Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal (CDHM) organizou uma expedição para conhecer de perto a situação dos conflitos. Durante a visita, a CDHM realizou audiência pública no local com a participação do Ministério Público Federal, das Defensorias Públicas do Estado e da União e da Ordem dos Advogados do Brasil. Segundo Rossana, para atingir o objetivo da organização, mais do que união, é necessário garantir a unidade das forças de resistência.

Rossana (esq.) e Rayssa Holanda. Líderes comunitárias do Porto do Capim, João Pessoa. (Foto: Pedro Rossi)

O exemplo de articulação da juventude é um respiro em meio ao turbulento período que atravessa o país. Sobretudo, não há como negar o protagonismo das mulheres na disputa. São as muitas Marias, Beatrizes, Rayssas e Rossanas que se alimentam do pessimismo e organizam em suas cidades a resistência contra os ataques do governo. Essa mobilização afasta qualquer projeção de derrota, recusando os poderes hegemônicos e lutando contra os privilégios, as injustiças e a opressão.

É a juventude quem dá as caras da resistência no Brasil – que não é – de Bolsonaro.

CartaCapital
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