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O custo de viver: mulheres negras, racismo ambiental e a luta pelo direito de existir

8 de Março: Precisamos aprender, com urgência, que priorizar as favelas é priorizar as mulheres.

O custo de viver: mulheres negras, racismo ambiental e a luta pelo direito de existir
O custo de viver: mulheres negras, racismo ambiental e a luta pelo direito de existir
Foto: Paulo Pinto/Agência Brasil
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Não deveríamos neste 8 de Março ter de lutar pelo simples direito de existir. Não há justificativa que explique por que, a cada dia, nos matam mais. A misoginia desse nosso tempo tem sido alimentada cotidianamente, integrando um projeto de poder gerido por homens que nutrem e destilam ódio por nossos corpos e/ou nossa existência.

O fato é que temos lidado com o avanço do fascismo e do neoliberalismo, em suas faces mais brutais, abrindo precedentes para um aprofundamento da exploração do meio ambiente, da natureza viva e de sujeitos. Assim como para rejeição do feminino e descarte da chamada massa marginal, vidas que não importam para o capital, cujo único objetivo é continuar acumulando. 

Os números têm evidenciado esse avanço. Em 2025, o Brasil registrou 1.568 vítimas de feminicídio. Em média, quatro mulheres tiveram suas vidas ceifadas por dia, e 62,6% delas eram negras. Em oito de cada dez casos, os algozes foram parceiros ou ex-companheiros. Isso nos mostra, de forma cruel, que o lugar que deveria ser nosso refúgio e proteção é, muitas vezes, o território mais perigoso que habitamos.

Essa lição de dor conhecemos faz tempo e aprendemos a dar nome. A casa das mulheres segue insegura, de dentro para fora. Não é um dado isolado de 2025; é uma repetição histórica. Esses dados escancaram a extrema disparidade racial e de gênero que estrutura o nosso país. Se o simples direito de viver e sonhar nos é negado, como podemos falar em acesso à água, saneamento básico, moradia digna, transporte, comida saudável e lares seguros diante dos riscos iminentes?

Diante da crise climática mundial e dos crimes ambientais que se acumulam, são os nossos corpos — negros e femininos — os primeiros a serem dizimados.

Discutimos isso juntas em maio do ano passado, na Feira Nacional da Reforma Agrária. Não é um assunto novo. Amanda trouxe a perspectiva parlamentar sobre o racismo ambiental em São Paulo e a atuação de seu mandato. Viviane apontou os dados alarmantes de Aracaju e São Paulo. E Rosa nos ensinou que devemos ir além: seja no campo ou na cidade, esse capitalismo racial que expropria e descarta mulheres negras não pode vencer.

Falar de mulher é, necessariamente, aprofundar o debate das desigualdades. E os dados não nos deixam mentir.

O último Censo do IBGE revela que pouco mais da metade dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. Entre as famílias de baixa renda e nas periferias urbanas, essa proporção é ainda maior. São mulheres negras, moradoras das margens, as grandes responsáveis pelo sustento e pela organização da vida.

Em quebradas, favelas, loteamentos e ocupações, as mulheres são as lideranças comunitárias, as trabalhadoras, as militantes, as mães, as avós, as cuidadoras. E, acima de tudo, são sonhadoras.

A desigualdade racial é a espinha dorsal dessa violência: embora as pessoas negras representem cerca de 56% da população brasileira, elas são a esmagadora maioria das vítimas de mortes violentas no País, segundo o Atlas da Violência.

E, mesmo assim, nós sonhamos.

Sonhamos, mesmo diante da ameaça de morte iminente.
Sonhamos, mesmo quando a polícia bate em nossas portas, ordenando que abandonemos nossos lares. Sonhamos, mesmo com uma encosta ameaçando desabar sobre as nossas cabeças.
Sonhamos, mesmo quando cortam o orçamento para a prevenção de riscos climáticos — porque, ao fazerem isso, eles cortam o nosso futuro todos os dias.

Um estudo do Greenpeace Brasil revela que, na última década, apenas 3% do orçamento federal foi destinado à prevenção e à mitigação de desastres. E os cortes foram ainda mais brutais exatamente nas áreas que mais precisam: estudos e projetos para contenção de cheias e inundações sofreram uma redução de 86,3%, enquanto as obras de contenção de encostas em áreas urbanas foram reduzidas em 20,6%.

Quem mora nessas encostas é o povo negro. E, em sua maioria, mulheres.

É preciso dizer, em alto e bom som, que os homens não nos matam apenas com a faca; eles nos matam também na política. Em Minas Gerais, a tragédia que ocorreu na Zona da Mata já era de conhecimento do governo. Foi um negacionismo necropolítico. O governador Romeu Zema (Novo) cortou 95,7% do orçamento público destinado ao combate aos danos das chuvas — uma redução drástica de 135 milhões d para míseros 5,8 milhões de reais. E para completar, o tal deputado mais votado do estado faltou à votação no Congresso que pautava o auxílio às vítimas deste crime ambiental. Que belo mundo vós, ó homens cis, “criaram”.

Precisamos aprender, com urgência, que priorizar as favelas é priorizar as mulheres. Que rufem os tambores anunciando um novo dia e uma nova história para contar.

A unidade pode ser caminho. Ocupar as ruas em levante pela defesa da vida faz as estruturas do patriarcado tremer. Cê vai se arrepender de levantar a mão pra mim!

Viva o 8 de Março! Viva a resistência negra, feminista e popular!

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