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O Carnaval e a conquista do espaço público pela comunidade LGBTQIAPN+
Quem sabe um dia todos possamos estar juntos nas ruas dançando um único sonho: viver plenamente em coletividade o ano inteiro
Como ocupar espaços públicos que seguem, através dos tempos, repelindo, expulsando e dificultando a circulação de pessoas LGBTQIAPN+? Uma das respostas para essa pergunta começou a surgir há muitas décadas no Brasil: ocupá-los por meio da festa, principalmente do Carnaval. Durante quase toda a sua história, a partir da proposta de suspensão do cotidiano e sob o disfarce das “fantasias”, foi permitido, ainda que temporariamente, que corpos dissidentes de gênero e sexualidade pudessem aparecer, conviver e compartilhar alegria e arte no espaço público.
Praças, parques e ruas do Brasil nunca foram lugares seguros para a população LGBTQIAPN+ (lésbicas, gays, bissexuais, transgêneros e travestis, queers, intersexuais, assexuais, agêneros, pansexuais, não-binários e demais identidades ligadas às diversidades de orientações sexuais e identidades de gênero). Segundo o Grupo Gay da Bahia, ONG reconhecida por lutar pelos direitos dessa comunidade, o Brasil continua ocupando o primeiro lugar no ranking mundial de violência e assassinatos contra essa população, de acordo com o último levantamento feito em 2025.
No entanto, quando se trata do Carnaval, a maior festa popular brasileira, essa comunidade se impõe ao construir uma atuação constante e relevante. No passado, era como se, durante esse período, os espaços se abrissem para que todas as “fantasias” fossem permitidas, ainda que vigiadas, “corrigidas” e, em muitos momentos, censuradas. Ao longo do tempo, a comunidade LGBTQIAPN+ passou a ser reconhecida por manter um papel relevante na produção, na criação e na apresentação dessa festa.
Uma festa que se caracteriza por abrir um espaço/tempo no calendário anual para que se viva plenamente tudo o que se pode viver. Não se trata apenas de transgredir regras, mas de compartilhar momentos, sempre inéditos, de liberdade e alegria coletiva. E isso é tudo o que essa população deseja: viver plenamente uma vida vivível. Quem antes era apenas aceito ali temporariamente, agora é finalmente reconhecido como protagonista.
É importante perceber que, nas festas populares brasileiras, há um caráter disruptivo e desobediente desde suas origens. Lélia González, em seu livro Festas Populares no Brasil, nos ensina que, para compreendermos a dinâmica das festas populares brasileiras, será preciso entender, antes de tudo, que há uma ruptura dos limites impostos pelo modelo dominante cristão. O espaço da festa pode até ser eurocatólico, mas sua manifestação será sempre mais ampla e abrangente.
Em um passado não muito distante, entre as décadas de 1960 e 1990, os holofotes só se voltavam para a população LGBTQIAPN+ com destaque para o protagonismo artístico, ainda que preconceituosamente, quando se abria a pauta para os famosos bailes e festas carnavalescas onde essa comunidade tinha participação relevante.
O Baile dos Enxutos, que já acontecia desde os anos 50, o Gala Gay, o Pantera Gay e as fenomenais atuações dessa comunidade em blocos de rua e escolas de samba chamavam a atenção por sua inovação e criatividade. Um tempo em que os conhecidos destaques gays e musas das escolas de samba, carnavalescos, sambistas, cenógrafos, equipes de beleza, figurinistas, além de figuras marcantes do imaginário popular, ganhavam a cena, mesmo que momentaneamente, através de suas aparições inesquecíveis.
Artistas e agentes culturais conhecidos como os carnavalescos Clóvis Bornay e Joãozinho Trinta, a cantora, compositora e jurada Leci Brandão, Jorge Lafond, Eloína dos Leopardos, Joãozinho da Goméia, Rogéria, Roberta Close, Fernando Pinto e muitos outros apresentavam sua arte e encantavam foliões e passantes, construindo memórias coletivas inclusivas e ampliando o uso do espaço de maneiras inesperadas e surpreendentes.
São muitas as histórias envolvendo a comunidade LGBTQIAPN+ e o Carnaval desde seu início, mesmo em décadas anteriores. Entre elas, histórias sobre Madame Satã, figura conhecida na boemia da Lapa no Rio de Janeiro, entre as décadas de 1920 e 1940. Ganhou esse nome ao vencer um concurso de fantasias de Carnaval em 1938. A fantasia, inspirada nos morcegos de seu estado de origem, Pernambuco, trazia semelhanças com o filme Madam Satan (1930) e o apelido pegou. Destacava-se no Carnaval carioca por sua irreverência e estilo e foi enredo da escola de samba Lins Imperial no Carnaval de 2023.
Outros enredos e homenagens a ícones LGBTQIAPN+ e temas relacionados à comunidade foram criados e ainda continuam na pauta de escolas e blocos, entre eles o enredo “Muito Além do Arco-Íris”, da Escola de Samba Estrela do Terceiro Milênio, em 2025. O enredo discute a LGBTQIAPN+fobia e apoia a diversidade. No mesmo ano, a Escola de Samba Paraíso do Tuiuti brilhou com o enredo “Quem tem medo de Xica Manicongo?”, homenageando a luta e a religiosidade da primeira travesti documentada no Brasil.
Ainda com relação às escolas de samba, algumas mudanças importantes refletem essa participação e apontam alterações que abrangem toda a discussão sobre gênero. Desafiando uma lógica antiga que separava homens e mulheres em funções específicas, algumas escolas trazem hoje não apenas musas e rainhas da bateria, mas também musos e reis da bateria que, além de se destacarem por seus figurinos exuberantes, trazem muito samba no pé.
Essa abertura relativamente recente garantirá inclusive que em 2026 Laísa Lima seja a primeira mestra de bateria a cruzar o sambódromo, à frente de uma bateria na Sapucaí, a Arranco do Engenho de Dentro, que já traz a cantora Pamela Falcão como intérprete, outro posto majoritariamente masculino. Já Rafaella Rocha foi mestra de bateria pioneira no Carnaval de São Paulo, à frente da bateria da Escola de Samba Imperatriz da Pauliceia no Sambódromo do Anhembi, no Grupo de Acesso II, em 2023.
É importante lembrar que Eloina dos Leopardos, travesti, artista brasileira e importante figura da noite carioca, é considerada a primeira rainha de bateria do Brasil, e seu primeiro desfile aconteceu em 1976, à frente da escola de samba carioca Beija-Flor de Nilópolis. Certamente, na história do Carnaval de cada região do Brasil encontraremos ícones dessa comunidade brilhando e abrindo alas para que outras pessoas LGBTQIAPN+ possam também viver o Carnaval e fazer uso dos espaços públicos em suas cidades.
Margareth Menezes, Daniela Mercury, Pabllo Vittar e Gloria Groove são nomes importantes no cenário musical brasileiro que brilham e arrastam multidões no Carnaval do Brasil, mas é nos blocos fundados e compostos por pessoas LGBTQIAPN+ — que se multiplicam por todo o País — que podemos perceber a expansão e a participação dessa comunidade.
A atuação de artistas e agentes culturais LGBTQIAPN+ no espaço público e nas festas populares brasileiras avança para uma maior visibilidade a partir do início dos anos 2000. Hoje, seu protagonismo não pode mais ser invisibilizado e é reconhecido em várias regiões do Brasil. Seguindo caminhos independentes e multiplicando possibilidades que visam ações relacionadas à educação, ao acolhimento e à inserção no mercado de trabalho para membros da própria comunidade, atingem um público cada vez maior.
São blocos lésbicos que se aliançam a outras identidades, blocos de mulheres cis e trans, blocos trans e blocos que recebem pessoas de todas as letras dessa sigla que não para de crescer. Todos trabalhando por espaços seguros e representatividade para seus membros e seu público.
E o movimento, assim como nas escolas de samba, acontece durante todo o ano. Os ensaios, a preparação dos figurinos e as ações para a comunidade em geral agitam o calendário e ampliam as possibilidades de encontro. A circulação de corpos diversos pelas cidades durante os meses que antecedem o Carnaval também é responsável pela construção de novos imaginários e cenários que possibilitam o contato e o reconhecimento sem o susto provocado e gerido pelos guardas da moral.
Blocos como Truck do Desejo, Beagá Trans e Abalô-caxi de Belo Horizonte; o Carnaval no Inferno e o Cola Velcro de Fortaleza; Siga Bem Caminhoneira, Minhoqueens, Agrada Gregos, Dramas de Sapatão e Meu Santo é Pop de São Paulo; Sereias da Guanabara, Bloco das Quengas, Bloco do Sai Hétero e Divinas Tretas do Rio de Janeiro; Bloco do Amor e Bloco das Montadas de Brasília; e Bloco Púrpura e Saí do Armário e me dei bem de Curitiba são alguns dos coletivos que fazem do Carnaval LGBTQIAPN+ um movimento nacional.
Arte, espaço público e dissidência reconfiguram-se juntos, ampliando visibilidades, expandindo referenciais e desafiando repertórios. A população LGBTQIAN+ ocupa e se reinventa a partir de uma nova realidade que se anuncia. O crescimento do número de blocos e coletivos carnavalescos no Brasil nas últimas décadas, munidos de atividades que fazem circular pelas ruas corpos dissidentes o ano inteiro, prova mais uma vez que, apesar da violência, mais e mais espaços estão sendo ocupados e seus usos atualizados.
O Carnaval não é mais onde podemos ser quem somos, mas onde mostramos quem somos em nossa potência criativa da maneira mais abrangente e inclusiva possível. Ao compartilhar no espaço público nossa arte e nossa luta com pessoas de fora de nossa comunidade, contrariando a própria lógica imposta pela “norma” que sempre nos excluiu, demonstramos que nosso desejo não é por separação, mas por uma vida em harmonia.
Viver a fantasia de um mundo menos preconceituoso e mais acolhedor é um sonho que não precisa se realizar apenas no Carnaval. Ocupar e transitar pelos espaços públicos das cidades por meio da alegria e da festa pode ser a melhor resposta para uma sociedade que ainda não nos inclui no planejamento e não nos quer na paisagem. Construir novos imaginários e ampliar o repertório do público que nos segue podem anunciar mais possibilidades de acesso e oportunidades para uma vida mais vivível.
A comunidade LGBTQIAPN+ sabe disso e trabalha para deixar no imaginário brasileiro tudo o que foi negado a ela: o acolhimento, a alegria, a partilha e a liberdade de circular, ocupar e construir espaços sem medo. Quem sabe um dia todos possamos estar juntos nas ruas dançando um único sonho: viver plenamente em coletividade o ano inteiro.
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