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Capitalismo agora e até na hora da nossa morte

As desigualdades que nos acompanharam em vida fazem-se presentes também no nosso pós-morte

Cemitério (Foto: Valter Campanato / Agência Brasil)
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Por Ayala Gurgel

Quem nunca ouviu que a morte é um juiz imparcial, que não faz diferença de raça, credo, gênero ou classe social? Alguns até cantam com Zé Rufino que “um dia no cemitério nossa carne se mistura”. Debaixo dos sete palmos de terra somos todos iguais… Muitos acreditam nisso. Eu também acreditava. Comecei a duvidar ao perceber que há muita metafísica em indagar sobre a morte, a morte-em-si, e isso me deixa desconfortável, já que nos afasta das coisas cotidianas, daquelas que fazem de nós o que de fato somos, enquanto somos. Não há a morte-em-si que possa ser investigada, há somente o morrer, em sua forma personalíssima. E, na banalidade cotidiana, o morrer nem de longe é um acontecimento imparcial: há tipos de morte que acometem somente as mulheres, outros que afetam mais os afrodescendentes, outros ainda que são mais comuns nas favelas, nos becos… Os atestados de óbito e as estatísticas são discriminatórias e falam de uma realidade que não é nada imparcial.

A morte não existe apartada daquele que morre, de como e onde morre: a nossa experiência com a morte não é metafísica, é existencial: é a minha morte, a sua morte, a morte de alguém que conhecemos ou ouvimos falar. A morte, tal qual a conhecemos, é um acontecimento social, e, portanto, não deveria ser pensada em separado daqueles que morrem, que por sua vez, não deveriam ser pensados em separado da sociedade na qual vivem e como vivem.

A forma como cada qual se despede dos seus mortos, enterra-os, crema-os ou doa seus corpos e mantém viva a sua memória foi transformada em uma extensão das suas próprias diferenças. Nas sociedades pré-capitalistas são múltiplas as determinações que as asseguram: a honra, a posição social, a casta ou o credo. O capitalismo reduziu-as a um único fundamento: a mercadoria. Cada qual agora trata dos seus mortos conforme o poder aquisitivo lhe permite. Do mesmo modo, a forma como cada um trata a sua própria morte também virou comércio: os seguros, os procedimentos, os locais e os rituais desejados, ou a completa ausência de preparação, estão ligada a diferenças culturais, de mentalidades, de nacionalidade e da convivência com determinadas políticas de assistência aos moribundos, mas, especialmente, ao padrão de consumo de cada um.

Por tais mercadorias estarem submissas às leis de mercado, o comércio fúnebre, ao mesmo tempo que propagandeia uma boa morte, bem assistida, com funerais de pompa, tem mostrado a sua face mais cruel aos excluídos, tendo recebido um nome próprio: mistanásia. Mistanásia que significa morrer abandonado nos corredores dos hospitais, sem leito, em cima de uma maca, um pedaço de papelão ou simplesmente no chão. Significa também morrer nas ambulâncias que transportam os moribundos do interior para a capital como uma estratégia eleitoreira, que perde vidas, mas ganha votos. Ou ainda, de infecção generalizada por falta de cuidados adequados. Em casa, isso significa morrer em um quarto escuro no fundo do quintal, à míngua, em uma cama velha ou esteira de palha. Na rua significa morrer sem teto, de fome e frio, ou vítima das mais diversas classes de violência… Morrer como um rato de esgoto, sem direito a choro, vela nem cova.

Os cemitérios também não são lugares democráticos nem nos igualam sob seu solo sagrado. Até mesmo quem acredita em uma visão metafísica da morte sabe que as divisões sociais não terminam com a morte. As necrópoles mantêm essas cisões e seu território é dividido conforme a lógica capitalista da divisão do espaço urbano: área nobre com seus mausoléus, ruas largas e capela cemiterial, a periferia com suas ruas mais estreitas, seus túmulos e carneiros em direção aos ossários que tomam conta dos muros, até chegar às “favelas” onde dominam os caminhos mais sinuosos e estreitos, as covas rasas, precárias e mal identificadas. É a noção de propriedade privada que dá sustentação à sepulcrologia dos cemitérios modernos que são, ao mesmo tempo, um local de culto aos mortos e de ostentação social. O túmulo assumiu a conotação de moradia, de casa dos mortos. As pessoas vão visitá-lo como se fossem à casa de um parente, não apenas para suas recordações, mas também porque há um mercado sacro-capitalista que impulsiona a isso.

 

Mesmo com a globalização, quando os cemitérios estão sendo redesenhados e sua estrutura vem sendo modificada, tornando-se verdadeiros parques, a luta por terra e a valorização do espaço físico vale tanto para o mercado imobiliário quanto para o funerário e, como tal, gera-se uma classe de excluídos que sequer tem um lugar para ser sepultada. Assim, pelo menos no tocante às desigualdades sociais, o mundo dos mortos não é diferente. A morte não nos iguala socialmente, ao contrário, nos submete às mesmas regras mercantis. O que somos quando vivos, somos também quando mortos. As desigualdades que nos acompanharam em vida fazem-se presentes também no nosso pós-morte.

O capitalismo, depois de ter saqueado túmulos em busca de riqueza, depois de ter expropriado a morte de qualquer simbolismo religioso reduzindo o humano à condição de mão-de-obra, transformou o comércio de túmulos em sua própria geração de renda. Não lhe importa a dor e o pesar dos enlutados, importa somente o quanto cada um pode consumir dos seus produtos, inclusive aqueles para o alívio da dor e do pesar. Enquanto os vivos não estiverem em paz, os mortos também não estarão.

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