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As cidades dos Severinos: a migração como retrato das desigualdades do século XXI

O fenômeno tem considerável relevância para o entendimento de várias formas de exclusão na sociedade capitalista

As cidades dos Severinos: a migração como retrato das desigualdades do século XXI
As cidades dos Severinos: a migração como retrato das desigualdades do século XXI
Abuso de poder. Agentes do ICE atropelam os direitos civis para deter imigrantes. O governador Tim Walz promete recorrer à Justiça – Imagem: Octavio Jones/AFP
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O fenômeno da migração, presente em toda a história, dá-se por uma combinação de fatores, de toda ordem. A busca por emprego e por melhores condições de vida, as crises econômicas, os desastres naturais, as guerras, as perseguições e muitos outros motivos podem ser elencados como razões dos migrantes. No entanto, é fora das estatísticas e dos indicadores econômicos que o fenômeno da migração traz junto a si a trajetória de perdas, expectativas, frustrações e esperança. A migração é fundamentalmente um rompimento com um território de origem e a busca pela reconstrução de vida e identidade em outro. 

A escolha por migrar nem sempre é livre e voluntariosa. Na verdade, não o é na maioria dos casos. Na maior parte é uma estratégia última para assegurar sobrevivência quando se tem negados oportunidades e direitos. Ainda que as migrações humanas tenham motivos variados, estudos recentes sobre a dinâmica migratória no Brasil demonstram que as razões de natureza econômica seguem sendo as principais. Há estimativas de que cerca de 55% a 65% das migrações no Brasil ocorrem tendo como motivação a busca por emprego, renda e ascensão social. Aparecem em seguida educação, saúde, reunião familiar e melhores condições de vida. 

Entre 10% e 20% do total de migrações internas no Brasil são relacionadas a aspectos como violência, desastres naturais e demais condições objetivas que fundam um quadro de vulnerabilidade. 

Mas há dados importantes trazidos pelo IBGE no último Censo Demográfico. Sabe-se, por exemplo, que em torno de 19,2 milhões de brasileiros hoje residem em uma região diferente daquela onde nasceram. Mais da metade desse contingente é formado por nordestinos — e 65,5% destes fixaram moradia no Sudeste. 

Há uma obra escrita entre 1954 e 1955 por João Cabral de Melo Neto que narra a jornada de um retirante do sertão nordestino em direção ao litoral pernambucano. É um poema escrito em um período no Nordeste sob problemas sociais graves, todos derivados de concentração de terras, seca e pobreza rural. É tida como um Auto de Natal Pernambucano. 

A trajetória narrativa é de Severino, o retirante. Como todo migrante, parte em busca de melhores condições de vida. Ele segue o rio Capibaribe no sentido de Recife, mas ao longo de sua migração encontra um rastro de morte, fome, miséria, violência, exploração do trabalho e precariedade. Sim, é a tragédia que predomina na viagem, mas seu fim é esperançoso. A história desse migrante oscila então entre a morte e a vida, entre o desespero e a esperança.

A migração segue sendo um fenômeno contemporâneo de considerável relevância para o entendimento de várias formas de desigualdade presentes na sociedade capitalista. Sua importância reside exatamente na espacialização dos ganhos e das perdas entre privilegiados e miseráveis. Mas está presente em toda a história. Pode-se citar as migrações dos povos Indo-Europeus na antiguidade partindo das Estepes da Eurásia para Europa, Oriente Médio e sul da Ásia entre os anos 4000 e 1000 a.C., na busca por recursos e expansão territorial; a migração forçada dos africanos escravizados na era moderna entre os séculos XVI e XIX, para compor mão de obra nas colônias europeias; e mesmo a crise dos refugiados sírios na contemporaneidade em direção a Turquia, Líbano, Jordânia e países europeus, que ocorre desde 2011 e que tem como motivo a guerra civil.

Na contemporaneidade, o fenômeno da migração traz novos desafios. De acordo com a Organização das Nações Unidas e seu Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais, em 2024 havia 304 milhões de migrantes internacionais, ou seja, 3,7% da população mundial naquele ano era formada por migrantes. 

Desse total, segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, 123,2 milhões de pessoas tinham sido deslocadas à força. Do mesmo modo que Severino migra em meio a um contexto de condições precárias de sobrevivência e reprodução social, todos esses grupos na contemporaneidade realizam seus deslocamentos tendo como horizonte uma idealização de uma vida melhor longe de suas fronteiras geográficas. 

Entretanto, a migração não pode ser vista como processo de natureza puramente espacial. De fato, ela manifesta um conjunto de variadas desigualdades sociais que se reproduzem movidas por um mecanismo perverso de acumulação de riqueza e manutenção de pobreza e miséria.

É a migração motivada por uma necessidade de reprodução social e pela busca de uma vida melhor diante de um território de origem que “expulsa” seus “filhos”. São, portanto, questões estruturais que estão no fundamento de todas as formas de migração hoje e na história. 

Há na experiência de Severino semelhanças de natureza estrutural que podem ajudar na elucidação dos fatores que levaram 304 milhões ao fim de 2024 a compor o universo de migrantes no planeta. 

A primeira semelhança refere-se à contínua reprodução de um modo de civilidade que contém em sua lógica a concentração dos ganhos econômicos em um percentual que é a cada ano menor de indivíduos e que castra oportunidades às maiorias. 

O protagonista da obra de João Cabral abandona o sertão, seu lugar de origem, porque ali não há nem condições de sobrevivência nem oportunidades longe do comando de “coronéis” e mandatários. Nesses espaços, ou o migrante literalmente foge desse conjunto de condições que lhe são impostas ou terá uma vida em eterna sujeição. A migração não é uma escolha, antes uma imposição de agentes fora do controle do sujeito. 

A segunda semelhança assenta-se sobre fatores de ordem natural, mas com repercussões sociais graves. A continuidade da vida dos sujeitos mais empobrecidos se vê agravada ainda por razões que, embora estejam fora do controle imediato da ação humana, findam também por obrigar deslocamentos. Secas, desastres naturais, desertificação e outros elementos da crise climática são fatores de expulsão de milhares de pessoas anualmente em todo o mundo. 

Desastres naturais como tempestades, enchentes e assemelhados em 2024 forçaram o deslocamento interno de 45,8 milhões de pessoas em todo o mundo, segundo Internal Displacement Monitoring Centre.

Somente no Brasil, 745 mil deslocamentos foram registrados em 2023 motivados por desastres ambientais. No ano anterior, o País registrou algo em torno de 708 mil deslocamentos internos e todos relacionados a desastres ambientais, o maior número das Américas.

A terceira semelhança entre Severino e os milhares de migrantes em todo o mundo é a representação da esperança contida no poema de João Cabral de Melo Neto. O destino para o qual o migrante olha como fim de jornada é sempre idealizado e tido como espaço de oportunidades. Frequentemente não é essa a realidade enfrentada, porém, quando este chega ao seu destino. 

A busca por oportunidades, ainda que em novo espaço, será também acirrada, posto que não apenas “Severino” migra, mas milhares de outros “Severinos”, os quais concorrerão pelo acesso a melhores condições de vida. 

Portanto, a questão é estrutural, a tal ponto que o mesmo espaço que recebe migrantes será também o que expulsa os seus. É nesse movimento de “idas e vindas” que a migração como processo historicamente determinado seguirá quase como uma perfeita “radiografia” dos espaços das desigualdades do capitalismo contemporâneo. 

A migração quase nunca surge como uma escolha livre. Migrar dói. Inclui abandono, perda de laços, saudades, solidão e não poucas vezes isolamentos.

É ela, porém, que se oferece como última saída a quem por anos insiste em permanecer na terra onde nasce. A trajetória de Severino é a mesma, em essência, que a de milhões de pessoas em todo o mundo que no exato instante desta leitura a iniciam. 

Um dos mais conhecidos movimentos migratórios no Brasil, realizado no século XX, foi o trajeto Nordeste-São Paulo. Na década de 1930, foi fenômeno de massa. A ida a São Paulo realizada por milhões de trabalhadores, na direção do principal centro econômico industrial do País, foi impulsionada pela seca e pela subtração de oportunidades, o que favoreceu a concentração destas exatamente no Sudeste. 

O fenômeno da migração também possui essa dimensão importante. Ele revela que para que haja espaços de dinâmica econômica intensa, é preciso haver espaços de pobreza que expulsem trabalhadores para serem mão de obra barata onde o capital se instala. A migração, portanto, cumpre papel essencial na acumulação de capital. Não há sob o capital nenhum espaço rico sem que haja na outra ponta um espaço empobrecido. 

No século XXI, outro tipo de migração tem sido determinante na manutenção dos números de sujeitos deslocados: a que obedece a fatores ambientais. Em 2024, desastres naturais forçaram o deslocamento de 45,8 milhões de pessoas dentro de seus próprios países, como registrado pelo Internal Displacement Monitoring Centre. 

Há, porém, outro fator de expulsão que precisa ser considerado, dado o impulsionamento dos números de imigrantes na contemporaneidade: as guerras. De acordo com a ACNUR, 123,2 milhões de pessoas em 2024 foram deslocadas de seus lugares de origem motivadas por guerras, perseguições e violações de direitos humanos. Sudão, Síria, Afeganistão e Ucrânia são as maiores crises nesse sentido. 

A fronteira vista como portão de oportunidades. Entretanto, nem sempre cumpre sua promessa. O migrante precisa lidar em muitos desses novos espaços com estigmas e preconceitos. Passa a ser um outsider eterno, estranho e indesejado quando adentra territórios como o dos Estados Unidos e o de certos países da Europa. 

Por exemplo, sob o governo de Donald Trump, os EUA intensificaram operações de deportação em massa de imigrantes nos últimos anos. Em 2026, 442.637 pessoas haviam sido deportadas daquele país. A meta era de um milhão de deportações. O migrante enfrenta ao fim de sua jornada, não poucas vezes, barreiras ainda maiores ou iguais às superadas nas travessias.

No fim de sua jornada, Severino descobre que sua travessia durará enquanto vivo for. Essa é a realidade dos milhões de migrantes em todo o mundo. É uma travessia no espaço geográfico, mas também uma travessia que se eterniza no destino de todos. Foge-se da seca, da guerra, do conflito e do desastre para, do outro lado, ainda continuar em travessia na busca por oportunidades e identidade assegurada. 

Tal qual o poema de João Cabral de Melo Neto, na contemporaneidade a migração é mais do que deslocamento geográfico. É deslocamento de identidades, é exposição de territórios incapazes de garantirem autonomia e vida digna a seus habitantes originários.

O migrante carrega, ainda assim, um lamento, tal qual exposto na letra da música Lamento sertanejo. Carrega memória, costumes e solidão. Mudará de lugar, mas nunca deixará de “ser de lá”. Será “rês desgarrada” caminhando na multidão a esmo enquanto busca construir seu próprio caminho. 

Severino não representará tão somente o migrante nordestino da década de 1950 no Brasil. Será Severino a representação ideal dos milhões de deslocados por desastres ambientais, guerras e mesmo ainda pela seca do Nordeste. Severino é atual, contemporâneo enquanto a civilidade do capital continuar a ser, nas palavras de Chico de Oliveira, a “negação da civilização”. 

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