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A reconstrução democrática no Brasil vai exigir a produção de cidades socialmente justas e ambientalmente viáveis. Este o escopo do Projeto Brasil Cidades.
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Adoecer na cidade e a exaustão da vida urbana
A saúde começa muito antes do hospital: ela nasce — ou morre — no território
Por décadas, o debate público brasileiro tratou a saúde como um tema restrito aos hospitais, às consultas médicas e ao acesso a medicamentos. No entanto, basta atravessar os territórios periféricos das grandes cidades para compreender que o adoecimento começa muito antes da entrada em uma unidade de saúde. Ele nasce, frequentemente, na própria experiência urbana.
Em Salvador, essa realidade aparece de forma contundente no Subúrbio Ferroviário, região historicamente marcada pela desigualdade territorial, pela precarização da infraestrutura urbana e pela presença seletiva do poder público. Ali, a saúde não pode ser pensada separadamente da mobilidade, da moradia, do saneamento básico, da violência urbana e das desigualdades raciais que estruturam a cidade.
No bairro de Praia Grande, dona Rosângela*, 57 anos, técnica de enfermagem há mais de três décadas, conhece de perto os impactos desse processo. Trabalhadora da saúde e moradora da periferia, ela descreve um cotidiano atravessado pelo desgaste físico e emocional produzido pela própria dinâmica urbana:
“Tem dia em que a gente sai de casa já cansada. Não é só o trabalho. É o transporte cheio, o medo, o tempo gasto no deslocamento, a preocupação constante. O corpo vai sentindo.”
Sua fala evidencia algo que os indicadores sociais apontam há anos: o território interfere diretamente nas condições de saúde da população. Não apenas pela oferta ou pela ausência de equipamentos públicos, mas pela maneira como as cidades distribuem oportunidades, infraestrutura, proteção e dignidade de forma profundamente desigual.
As periferias urbanas brasileiras concentram, historicamente, os maiores índices de vulnerabilidade social. Faltam saneamento adequado, acesso pleno à mobilidade, áreas verdes, equipamentos culturais e políticas permanentes de cuidado territorializado. O resultado aparece nos índices de sofrimento psíquico, nas doenças relacionadas às condições ambientais e na sobrecarga cotidiana vivida por milhões de trabalhadores.
Não se trata apenas de pobreza urbana. Trata-se de um modelo de cidade que produz adoecimento.
A urbanização brasileira ocorreu de maneira profundamente desigual. Enquanto determinadas regiões receberam investimentos contínuos em infraestrutura e qualidade de vida, outras foram empurradas para condições precárias de habitação e acesso limitado a direitos básicos. Essa lógica produziu o que pesquisadores e movimentos sociais vêm denunciando há décadas: uma geografia da desigualdade.
O CEP continua funcionando como marcador de acesso à vida digna.
A ausência de saneamento básico, por exemplo, segue impactando diretamente a saúde pública brasileira. O tempo excessivo de deslocamento compromete o descanso, a convivência familiar e a saúde mental. A precarização habitacional expõe famílias inteiras a riscos ambientais permanentes. Tudo isso se acumula nos corpos.
Filha de Rosângela, Ana Clara*, 25 anos, estudante de enfermagem da Universidade Federal da Bahia (UFBA) pelo sistema de cotas, percebe essas contradições diariamente: “Entrar na universidade foi uma conquista muito grande. Mas permanecer também exige enfrentar o cansaço da cidade. Tem dias em que o deslocamento consome nossa energia antes mesmo de a aula começar.”
Sua fala revela outro aspecto central do debate urbano contemporâneo: democratizar o acesso à educação superior sem democratizar o acesso à cidade mantém desigualdades estruturais praticamente intactas. O direito à permanência universitária também passa pelo direito à mobilidade, ao tempo, ao descanso e às condições materiais de existência.
A pandemia de Covid-19 tornou essas desigualdades ainda mais visíveis. Enquanto parte da população conseguiu aderir ao isolamento social, trabalhadores periféricos seguiram atravessando diariamente ônibus lotados para garantir o funcionamento das cidades. Muitos adoeceram e morreram em territórios já historicamente marcados pela ausência de políticas públicas estruturantes.
Nesse contexto, torna-se impossível discutir saúde pública sem discutir planejamento urbano.
A intersetorialidade entre saúde, habitação, mobilidade, assistência social e meio ambiente deixou de ser apenas uma formulação técnica para se tornar uma necessidade concreta. A vida cotidiana não acontece de forma fragmentada, embora as políticas públicas frequentemente continuem operando dessa maneira.
Quando uma comunidade convive com esgoto a céu aberto, trata-se de infraestrutura urbana, mas também de saúde pública. Quando mulheres gastam horas diárias em deslocamento, trata-se de mobilidade, mas também de saúde mental. Quando o racismo define quais territórios receberão investimentos e quais permanecerão invisibilizados, trata-se de urbanismo, mas também de produção desigual da vida.
Rosângela resume essa experiência de forma simples e contundente:
“O povo da periferia aprende a cuidar um do outro porque muitas vezes ninguém cuida da gente.”
Sua frase revela a potência das redes comunitárias construídas nos territórios populares, mas também denuncia os limites de um modelo urbano que naturalizou o abandono de parcelas inteiras da população.
O desafio colocado para o Brasil contemporâneo não é apenas ampliar hospitais ou aumentar o número de consultas, mas compreender que cidades também podem adoecer pessoas e que nenhuma política de saúde será plenamente eficaz enquanto milhões continuarem vivendo em territórios marcados pela precarização, pela exaustão cotidiana e pela ausência do direito pleno à cidade.
A reflexão que permanece é inevitável: talvez a principal pergunta sobre saúde pública no Brasil já não seja apenas como tratar doenças, mas como impedir que as cidades continuem produzindo sofrimento como parte natural de sua organização social.
Porque uma democracia não se mede apenas pela existência formal de direitos, mas pela capacidade concreta de garantir que as pessoas possam viver sem adoecer em razão do lugar onde nasceram.
*Os nomes das entrevistadas foram alterados para preservar suas identidades
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