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A demolição de um terreiro e o racismo que organiza as cidades brasileiras

O caso do Ilê Asé Odé Ibualamo evidencia como o Estado opera na destruição de territórios afro-brasileiros em nome do ‘progresso’ urbano

A demolição de um terreiro e o racismo que organiza as cidades brasileiras
A demolição de um terreiro e o racismo que organiza as cidades brasileiras
Foto: Divulgação/Prefeitura de Carapicuíba
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No fim de 2022, a prefeitura de Carapicuíba (região metropolitana de São Paulo), sob gestão do prefeito Marcos Neves (2017–2024), ordenou a demolição do terreiro de candomblé Ilê Asé Odé Ibualamo, erguido há cerca de 30 anos pelo Babolorixá João Canavieiras, avô da Yalorixá Mãe Zana, mentora espiritual do espaço desde 1997. O abrigo sagrado completa três anos de desterritorialização sem previsão de nova sede adequada. A justificativa oficial de canalização do Córrego Cadaval para controle de enchentes e integração viária incluiu risco de desabamento, algo que só emergiu após o início das obras no entorno.

Longe de episódio isolado, o caso é emblemático da violência socioterritorial na qual se sobrepõem racismo ambiental, racismo religioso, aparelhamento político e a histórica negação do direito à cidade às populações negras e periferizadas. Sob discurso tecnicista, o Estado operou seletivamente, legitimando intervenções que sacrificaram territórios racializados em favor da valorização fundiária e da acumulação capitalista. Sem diálogo com a comunidade e sem reconhecimento da relevância simbólica do Ilê, o planejamento urbano atuou como instrumento de exclusão, definindo quais vidas, memórias e práticas culturais merecem existir na cidade.

O terreiro como território e o racismo como estrutura

O Ilê constituiu-se como um território de reprodução material, simbólica e espiritual da cultura afro-brasileira, articulando o sagrado à existência cotidiana. Como ocorre historicamente com os terreiros de matriz africana, era mais que espaço de culto, consistia em território aquilombado, oferecendo à comunidade: base política e social, suporte jurídico, apoio à saúde, à segurança alimentar e ao cuidado coletivo.

Conforme o Decreto nº 6.040/2007 do governo federal, povos tradicionais organizam seus territórios como condição essencial para a sua reprodução cultural, social, religiosa, ancestral e econômica. Organizam-se a partir de usos coletivos, relação com a natureza, vínculos espirituais e históricos, e não segundo a lógica da propriedade privada moderna. Destruir um terreiro não equivale a remover um imóvel comum: representa a ruptura de uma territorialidade ancestral, com danos materiais, simbólicos e existenciais muitas vezes irreparáveis.

Meses após a demolição, achados arqueológicos emergiram nos escombros do terreno. Com suporte de pesquisadores de museologia de São Paulo, foram identificados peças de louça, assentamentos religiosos e a carta de alforria do avô de Mãe Zana. Apesar de três notificações do Iphan, a prefeitura ignorou a relevância histórica do local, revirando os escombros e asfaltando o local, ação classificada pelo Iphan como “mutilação e destruição do patrimônio”. 

Uma pesquisa de 2025 revelou que 76% dos terreiros afro-brasileiros já sofreram violência ou ameaça institucional, evidenciando que o racismo religioso é parte integrante do racismo estrutural. A laicidade do Estado opera de forma assimétrica: salvaguarda práticas religiosas cristãs, mas não ampara as religiões de matriz africana, historicamente perseguidas. 

A destruição do Ilê deve ser vista também pelo viés do racismo ambiental, que distribui desigualmente riscos e danos urbanos sobre populações racializadas, com o Estado colocando-se frequentemente como agente ativo dessa violência. Mãe Zana relata que a comunidade nunca se opôs ao desenvolvimento; ao contrário, propôs alternativas (como o Centro de Referência da População Negra, reconhecido pelo município), além de desenvolver projetos ambientais e ações expressivas de segurança alimentar e combate à fome na região Oeste. 

A cultura afro-brasileira é exaltada (quando não apropriada) como patrimônio simbólico e identidade nacional quando esta serve aos interesses financeiros e ao consumo cultural das elites. Porém, as expressões territoriais vivas dessa cultura se materializam originalmente nos territórios populares, que seguem sendo socialmente incômodos e por isso criminalizados, invisibilizados e destruídos. Isso revela todo o caráter instrumental do reconhecimento cultural: o que se celebra é a cultura desprovida de territorialidade, conflito e autonomia, esvaziada de sua dimensão política e humana; o que se elimina é aquilo que desafia a ordem urbana burguesa e colonial.

Infraestrutura e a apropriação das necessidades públicas pelo capital

Carapicuíba, quinta cidade mais adensada do Brasil com quase 400 mil habitantes, tem a sua história marcada pelo domínio colonial e pela resistência indígena, desde a fundação da Aldeia Jesuítica de Carapicuíba no séc. XVI. A demolição do Ilê, em novembro de 2022, ocorreu no âmbito do PAC Cadaval (2007), que canalizou o córrego, pavimentou a Viela Panorama e a integrou à Av. Marginal do Cadaval, cujo eixo desemboca diretamente no cruzamento próximo ao Plaza Shopping Carapicuíba, inaugurado em 2016. 

O PAC, proposto na gestão Fuad Gabriel Chucre (2005–2008), previa reassentar mais de 1.100 famílias com renda média de 837,49 reais e per capita de 356,08. O Plano Diretor de 2011 já sinalizava o interesse do mercado imobiliário na nova avenida e a demanda por controle das ocupações na área. O retrato mostra que, novamente, uma necessidade social real de equacionar áreas de risco iminente e insalubridade foi subordinada às ações de controle e remoção de pessoas de baixa renda. Uma oportuna convergência do recurso público para a adaptação da urbe aos eixos de expansão do mercado imobiliário e financeiro. 

Esse processo confirma o que Lefebvre enuncia em A produção do espaço: o território é produto e condição para a reprodução das relações sociais de produção. Harvey complementa em Cidades rebeldes que a urbanização é um meio privilegiado de absorção do excedente de capital, o que subordina paulatinamente as cidades à lógica financeira. Em O novo imperialismo, o autor denomina o fenômeno de “acumulação por espoliação”, segundo o qual territórios e populações são sistematicamente expropriados e deslocados para viabilizar novas frentes de valorização.

A implementação do PAC, licitado em 2008, foi marcada por fragmentação institucional, entraves burocráticos, irregularidades e pela substituição da condução pública por agentes privados. A ausência de participação popular, a desregulação do serviço social e a mediação clientelista produziram um reassentamento atravessado por desinformação e violações de direitos, em que a população atingida foi tratada como mera variável operacional de uma obra pública que deveria priorizá-la.

O art. 37 do Plano Diretor (2011) previa a ocupação da nova avenida orientada à sua valorização e a participação de Parcerias Público-Privadas para “renovação e qualificação” do setor. Tais instrumentos técnicos, apresentados como neutros, na prática operam como dispositivos de reconfiguração espacial orientados pela lógica da valorização e da atração de investimentos (dentro dos termos da lei). 

O Shopping Carapicuíba foi então beneficiado pela legislação urbana e também atuou como fixo estruturador da valorização territorial, demandando requalificação do entorno para garantir acessibilidade, fluidez e integração à malha urbana formal. Assim, obras públicas federais voltadas à urbanização de assentamentos precários acabam operando como alavancas indiretas de valorização do grande capital. O shopping é um expoente desse processo: dispositivo ativo de acumulação capitalista, alia renda fundiária, valorização imobiliária e consumo, enquanto alimenta a lógica rodoviarista, expulsa o pequeno comércio local e impermeabiliza grandes áreas do solo, agravando as enchentes que a obra alegava resolver. 

Trata-se da “política urbana do inimigo”: o Estado como motor da segregação urbana, constituindo populações negras e pobres como inimigas, como obstáculos ou objetos, removidas junto às suas raízes territoriais para que o capital possa avançar sobre áreas antes consideradas marginais. Em permanente negação à vida, o Estado legitima a exposição diferenciada de alguns corpos ao risco, à remoção e à morte. A destruição do Ilê Asé Odé Ibualamo expressa um processo denominado “nó da terra”: a terra urbana como mercadoria estratégica cuja valorização depende da remoção de usos considerados incompatíveis com o projeto hegemônico de cidade das elites.

Manipulação de narrativas, justiça e reparação socioterritorial

O processo que culminou na demolição do terreiro de Carapicuíba foi marcado por ausência de diálogo e assimetria de poder. Não houve consulta prévia nem construção de alternativas conjuntas. A prefeitura, por meio da produção institucional do risco, alegou risco estrutural devido às próprias obras que avançavam ao redor, executou a reintegração de posse de forma abrupta e destruiu fisicamente o espaço. 

A descoberta posterior de vestígios históricos evidenciou a negligência do Estado com o patrimônio afro-brasileiro; as obras prosseguiram e consolidaram a ruptura territorial. A ação é sintomática da lógica urbana estruturalmente racista, que sob o verniz da neutralidade institucional seleciona quem permanece, quem é removido e quais memórias merecem existir. Mais que uma violação pontual de direitos, é a expressão de um projeto de cidade excludente, higienista e desigual, que apaga sistematicamente comunidades periferizadas e racializadas cujos territórios ocupam espaços úteis ao “progresso” e ao projeto urbano do grande capital.

A destruição do Ilê Asé Odé Ibualamo insere-se, assim, em um cenário de reconfiguração das cidades brasileiras, marcado pela intensificação das privatizações, dos processos de acumulação e consequente reprodução das desigualdades. Sob a perspectiva do urbanismo popular, o caso evidencia os limites estruturais de um modelo de cidade orientado pela valorização da terra e pelo deslocamento de territórios populares dos eixos de desenvolvimento. Enfrentar esse cenário implica uma revisão radical das bases sobre as quais se estrutura o planejamento urbano brasileiro e dos marcos que regulam a relação do Estado com os territórios tradicionais, de modo a romper com a subordinação do direito à cidade à lógica neoliberal da sua produção.

Nesse sentido, uma agenda de transformação urbana popular deve se orientar por diretrizes estruturais concretas, com a inclusão e a real participação popular no planejamento urbano como sujeitos coletivos de direito. São urgentes a priorização das políticas de permanência em detrimento das remoções, a reversão de mais-valias urbanas às comunidades vulneráveis e o fortalecimento das gestões territoriais participativas de base comunitária. Não há justiça urbana possível sem o reconhecimento pleno do direito socioterritorial como dimensão indissociável da produção democrática da cidade. Por uma Reforma Urbana Popular já!

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