Sociedade

Opinião

O 8 de março de 2017 na história

por Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais — publicado 08/03/2017 00h16, última modificação 07/03/2017 15h56
Ao retomar sua melhor tradição, o feminismo consegue agregar as pautas de todos os setores oprimidos e marginalizados
Marcello Casal Jr / Agência Brasil
Mulheres negras

Marcha das Mulheres Negras de 2015: todas as opressões podem ser combatidas por meio do feminismo

Por Tatiana Oliveira

O que é trabalho? Nesse dia de lutas pela possibilidade de existir mulher e ser feminino, provocadas a integrar uma greve internacional geral das mulheres, a pergunta ecoa fundo e o trabalho – ao menos como conceito – está por toda parte. Está por aí, mas não é pacífico... 

Como aponta toda a tradição de um feminismo anarco-socio-comunista a noção hegemônica de trabalho, o trabalho como atividade que gera valor monetário, talvez seja uma das que mais contribua, à direita ou à esquerda, para a invisibilidade social das mulheres e dos femininos, dificultando a afirmação plena da nossa cidadania, bem como a sustentação da nossa condição de sujeitas, da política aos nossos corpos. 

Por isso, em todo o mundo e por décadas, quando as feministas tratam do trabalho no contexto de “sociedades salariais”, a primeira coisa que fazemos é anunciar, para dissolver, a dicotomia entre a produção de coisas e a reprodução de indivíduos. 

Produção e reprodução são aspectos indivisíveis do processo de acumulação. Quando dizemos que o trabalho é irredutível à sua definição como trabalho que gera valor monetário sendo, assim, assalariado, chamamos a atenção para a apropriação não remunerada que o capitalismo faz do trabalho doméstico e de cuidados realizado historicamente pelas mulheres. 

Como no capitalismo só se reconhece aquilo por quê se paga, diz um filósofo italiano, o trabalho não remunerado das mulheres, embora produza valor – porque, entre outras coisas, garante a sobrevivência e reproduz a mão de obra –, evapora no ar, cai no esquecimento. E é apenas do esquecimento desse trabalho e das mulheres que podem emergir propostas tão surreais quanto a de equalização das idades de aposentadoria entre os sexos – e motiva o ato das mulheres neste ano. 

Na Argentina, as mulheres iniciaram, em 2015, uma série de manifestações e um movimento grevista contra o feminicídio, a violência de gênero e a discriminação contra a mulher no trabalho. O movimento Ni Una Menos viralizou rapidamente e recebeu adesões em vários países. 

A junção das lutas feministas a uma narrativa de greve internacional só ganhou fôlego, no entanto, depois das mobilizações massivas de mulheres nos EUA durante a posse do presidente Donald Trump – talvez o maior ícone do neoconservadorismo neoliberal que enfrentamos hoje. 

A mensagem é clara: Se as mulheres param, o mundo para.

A negligência do mercado em relação à esfera da reprodução não a torna menos funcional ao capitalismo, apenas contribui para esvaziar o sentido da dignidade humana relacionado aos femininos. Da mesma forma, a desqualificação do trabalho das mulheres no mundo público não afeta a sua utilidade para a acumulação. 

No século XXI, somos as mais pobres dentre os pobres do mundo: Ocupamos os piores empregos, recebemos os piores salários, nossos rendimentos são inferiores aos dos homens mesmo quando desempenhamos funções equivalentes. Enfrentamos múltiplas jornadas de trabalho, estamos absolutamente sobrecarregadas. 

Como se sabe, esse grande chamado à greve internacional de mulheres foi protagonizado por intelectuais de enorme projeção, particularmente, Angela Davis e Nancy Fraser. Evocar o imaginário da greve tem, no manifesto divulgado pelas ativistas estadunidenses, o objetivo de reaproximar, como argumentam, o feminismo das lutas de trabalhadoras/es.

Mas o que seria, hoje, esse feminismo próximo das lutas das trabalhadoras em oposição a um “falso feminismo”, empreendedor, neoliberal, como o define Fraser em distintos momentos?

Para pensar sobre esta pergunta, vale explorar um fenômeno do mundo do trabalho que, surpreendentemente, embora não exatamente na forma de um elogio, tem as mulheres como referência: a chamada “feminização do trabalho”. 

Já se disse que a tal feminização diz respeito à presença sempre crescente das mulheres no mercado de trabalho desde a década de 1950. 

Também se vinculou o fenômeno a uma nova composição do trabalho relacionada ao modo de produção e acumulação pós-fordista, à polivalência e à expansão do setor de serviços, que exigiria um perfil mais “feminino” para o trabalho: criatividade, networking, delicadeza, capricho, sensibilidade para o detalhe... 

Sem discordar da maior presença das mulheres no mercado de trabalho ou das transformações contemporâneas na estrutura do trabalho, nem entrar no mérito de como se dá essa inserção ou mesmo da construção identitária dos argumentos anteriores, quero discutir a feminização como repertório da precarização das relações de trabalho. 

As formas de produção no capitalismo contemporâneo se teriam feminizado ao investir sobre a vida na sua totalidade, englobando da força (ou do corpo) às subjetividades, desfazendo as distâncias entre o trabalho e o não-trabalho, relativizando a fronteira entre a experiência produtiva no mundo público e as relações afetivas da esfera do privado, comprimindo nosso tempo, desfazendo redes de proteção, responsabilizando indivíduos socialmente conectados pela sua própria sorte. 

Ao contrário do que pretendiam as feministas, a sobreposição do que antes era identificado como um limite, tal qual na ideia de divisão sexual do trabalho, entre a produção e a reprodução, hoje move o capitalismo, sem, no entanto, abrir a possibilidade de um diálogo amplo sobre a necessária repactuação do trabalho reprodutivo. Daí que a crise global atual nos mercados capitalistas seja também uma aguda crise dos cuidados. 

Somos obrigadas/os a trabalhar cada vez mais, por cada vez menos. Reduz-se o tempo para o cuidado, a batalha pela renda torna-se imperativa. O feminismo empreendedor vem, de alguma forma, no rastro dessas transformações, o que não anula o diagnóstico de captura de uma pauta progressista pelo capitalismo. Seja como for, há aí um empoderamento que, cheio de contradições, permite reivindicar maior presença feminina nos espaços. 

O ponto aqui é “enxergar o copo meio cheio”, ver o que há de potente e transformador nos pontos sem nó deixados pela produção biopolítica neoliberal. Há, então, que se avaliar qual saída, qual contraconduta, qual experimento poético-estético é possível oferecer em seu lugar. É a greve?

Um dos grandes desafios da organização social hoje é atualizar o sentido e a prática da greve, inclusive, ousando transformá-la em outra coisa, considerando que vivemos um momento distinto daquele que ensejou as lutas por este direito. O modelo das ocupações parece interessante porque elas têm se mostrado instrumentos eficazes para ampla mobilização e sensibilização. 

A luta feminista acumula experiência na construção de convergências internacionais, intergeracionais e de lutas, isto é, tem certa abertura para agregar às pautas específicas das mulheres demandas de todos os setores oprimidos e marginalizados. Esse 8 de março chega, nesse sentido, como retomada da melhor tradição do feminismo. Mas para seguirmos adiante será preciso antropofagizar nossas velhas práticas, mudar a vida para mudar o mundo.

Tatiana Oliveira é cientista política, militante feminista e integrante do Grupo de Reflexão sobre Relações Internacionais/GR-RI.

registrado em: