Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

Augusto Diniz | Música brasileira

Roberto Carlos é objeto de estudo no avanço da cultura de massa

Livro centra a construção de mito do cantor e compositor nas oportunidades propiciadas pela evolução da indústria de consumo

Foto: Divulgação
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A comemoração de 80 anos de Roberto Carlos fez o mercado editorial publicar alguns livros sobre o cantor e compositor. Um deles chama-se A Simplicidade de um Rei: Trânsitos de Roberto Carlos em Meio à Cultura Popular de Massa (Paco Editorial, 314 páginas), de Marcos Henrique da Silva Amaral.

Aqui, não se trata exatamente de uma biografia do cantor e compositor mais popular do País, mas o que o autor chama de sociobiografia, em que a vida artística se entrelaça com as questões socioculturais existentes nas diversas fases do músico.

O autor atrela o sucesso de Roberto Carlos ao desenvolvimento da cultura popular de massa no Brasil. Pode-se dizer que antes já haveria cultura de massa no País, mas bastante incipiente.

Roberto Carlos nasceu em 1941 e aos 9 anos, em sua terra natal, Cachoeiro de Itapemirim, já atuava no rádio. Mas, naquela época, existiam poucos aparelhos radiofônicos no País, a energia elétrica mal havia chegado a locais fora dos grandes centros urbanos e o Brasil era eminentemente agrário. Assim, uma indústria nacional geradora da cultura de massa praticamente inexistia.

A parte inicial do título do livro – A Simplicidade de um Rei – foi retirada do enredo do carnaval de 2011 da escola de samba Beija-Flor, em homenagem a Roberto Carlos. O autor abre cada capítulo citando um trecho das divisões do desfile da agremiação na avenida sobre a vida do cantor.

A obra do sociólogo Marcos Henrique da Silva Amaral é dissertação de mestrado pela Universidade de Brasília. Há dois anos, ele finalizou na UnB uma tese de doutorado sobre Jorge Ben dentro de sua linha de pesquisa, que envolve cultura de massa e industrialização.

Roberto Carlos chegou ao Rio de Janeiro em 1956 com a família. Ele começou nas boates como crooner, cantando boleros, tangos, sambas-canção.

Foco na juventude

Apesar de não seguir os padrões da época em relação aos cantores de voz impostada e de vibratos nas notas mais longas, como Cauby Peixoto e Nelson Gonçalves, Roberto Carlos se beneficiou do desenvolvimento da cultura como indústria no Brasil focada na juventude, de gravadoras a meios de comunicação. A própria Bossa Nova, gênero no qual o Rei também se inspirou, se disseminou graças a esse novo momento.

Quando Roberto Carlos traz elementos do rock – já um fenômeno da cultura massa nos Estados Unidos e na Inglaterra – na década de 1960, não exatamente a característica rebelde e transgressora ao pé da letra, mas a sua representação modernizante na indústria cultural com suas indumentárias e sua instrumentação, coloca-se como um personagem antenado aos novos tempos.

Roberto Carlos já era um ídolo da juventude com apenas 23 anos. O cantor sempre se vinculou à cultura de massa, desde quando chegou ao Rio, essencialmente pela TV (com o programa Jovem Guarda), pelo cinema (fez filmes como protagonista), por produtos para consumo (publicidade) e pela modernização da indústria fonográfica.

Mas o autor descarta no livro o fato de Roberto Carlos existir fruto de uma estratégica essencialmente comercial, devido à sua extensa, densa e rica obra – amplamente gravada por outros intérpretes -, inclusive da MPB, considerada a nata da música brasileira – ainda que no passado, quando ele integrava a Jovem Guarda, sofresse preconceito desse mesmo grupo.

Nos anos 1970, Roberto Carlos assume de fato o que sempre foi: um cantor romântico, atendendo um espectro de público variado e imenso. A relação que cria com os fãs, ritualísticas (como nos shows) e na identificação deles com sua música, ganha uma esfera colossal e jamais vista no País – e o título definitivo de Rei. O avanço do mercado fonográfico e dos meios de comunicação só amalgamou essa relação.

Roberto Carlos é e sempre será um objeto de estudo dentro da indústria da música. O cantor-compositor é um artista influente do sertanejo ao samba.

O autor da obra dá luz à sua presença na cultura de massa popular, sem classificá-lo como produto da indústria, mas destacando o fato de adaptar o seu trabalho ao modelo mercadológico, de forma racional e também criativa. Esse modelo, cita-se, foi e é copiado pelo meio artístico, sem distinção.

Augusto Diniz

Augusto Diniz
Jornalista há 25 anos, com passagem em diversas editorias. Foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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