Augusto Diniz | Música brasileira

Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.

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Renan Inquérito aborda em disco a luta contra o câncer: ‘Escrevi para desabafar’

Em remissão, o rapper conta como transformou o tratamento contra a doença em ‘Tireoide’, seu décimo álbum

Renan Inquérito aborda em disco a luta contra o câncer: ‘Escrevi para desabafar’
Renan Inquérito aborda em disco a luta contra o câncer: ‘Escrevi para desabafar’
O rapper Renan Inquérito. Créditos: Divulgação
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O rapper Renan Inquérito foi diagnosticado com câncer na tireoide, glândula localizada no pescoço, no final de 2024. No ano seguinte, passou por tratamento e hoje está em remissão. “Quando descobri, foi uma surpresa”, conta Renan, acrescentando que não havia histórico desse tipo de neoplasia maligna em sua família. Durante o período em que buscava recuperar a saúde, o rapper acabou transferindo para a escrita tudo o que vivia.

“A partir daí, comecei a perceber que escrever me ajudava”, afirma. Segundo o artista, ele “escrevia para desabafar” durante o período turbulento que enfrentava. Dessas reflexões nasceu Tireoide, seu décimo álbum. A filha, de apenas 3 anos, também foi um motivo para compor músicas sobre o câncer. “Se eu morresse amanhã, ela provavelmente não se lembraria de nada”, diz. A primeira faixa do novodisco é uma carta dirigida a ela.

“Expliquei para minha filha, na faixa de abertura do álbum, o que estava acontecendo e o que poderia acontecer, mas, no fim das contas, eu também estava conversando comigo”, analisa. Renan Inquérito conta que, ao longo das onze faixas, se preocupou em não ser “sensacionalista” com o próprio caso.

O rapper manteve nas letras o lado combativo que sempre foi sua marca, apesar do foco no problema de saúde que enfrentou. “É isso que faz o disco não ser tão pesado. Ficar só batendo na doença seria muito ruim”, avalia. “O trabalho é muito visceral.” Mesmo com o câncer na garganta e o tratamento a que se submeteu na região, Renan Inquérito não teve as cordas vocais afetadas, o que também permitiu a realização do trabalho fonográfico. Além de composições que revelam preocupação, o repertório do disco trata também de esperança e da celebração da vida.

A produção musical do projeto é de Pop Black, com batidas do rap clássico, baseadas na estética do boom bap. Doutor em geografia, Renan Inquérito vive em Nova Odessa, no interior de São Paulo, onde realiza a Parada Poética, sarau promovido por ele há 13 anos. “A poesia chegou à minha vida na Fundação Casa, quando fui fazer uma oficina. Lá, fui impedido pelo diretor, porque ele disse que o rap seria apologia ao crime — e afirmou que eu teria de usar a poesia. Então comecei a declamar letras de rap em forma de poema, sem dizer que era rap, tirando o estigma do gênero”, conta.

O sarau é promovido semanalmente em uma área pública da cidade. As pessoas podem participar livremente, declamando seus poemas. Ele vê o evento como uma espécie de “desabafo” dos participantes. Sobre o momento atual do rap, afirma que o movimento se expandiu muito. “Tudo que cresce vira quantidade e perde-se a qualidade. Surgem rótulos e subgêneros. Por exemplo, dentro do circuito fonográfico chamam o rap de música urbana. Então, criam-se eufemismos”, diz.

Renan Inquérito está retomando outros projetos, como um disco com os rappers Gog e Fábio Brazza e o volume 2 de Abre a Cabeça, trabalho fonográfico voltado para crianças. Além disso, pretende lançar um livro sobre seu problema na tireoide e uma versão em vinil do novo álbum. Em maio, mês de conscientização sobre a tireoide, o músico tem uma série de shows agendados para apresentar o álbum Tireoide. As apresentações começam em 2 de maio, no Sesc Santo
Amaro, na capital paulista.

Assista à entrevista de Renan Inquérito a CartaCapital.

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