Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Referência na música, Conservatório de Tatuí cria grêmio para reagir a desmonte
O estudantes acusam edital de seleção de promover etarismo ao limitar idade de novos alunos a 25 anos
Após 71 anos de história, o Conservatório de Tatuí acaba de ganhar seu primeiro grêmio estudantil. O gesto, tardio para uma instituição que formou gerações de músicos, nasce de um sobressalto: as mudanças recentes promovidas pelo governo do Estado de São Paulo.
O estopim é o edital de 2026, que manteve e institucionalizou o corte etário nos cerca de 50 cursos regulares de música, proibindo a inscrição de candidatos acima de 25 anos. A regra já havia aparecido no edital de 2025. Segundo o novo grêmio, ela foi imposta sem diálogo, altera o perfil histórico da escola e, no limite, pode levar ao esvaziamento de cursos inteiros.
Os números apresentados pelos estudantes reforçam a preocupação. A concorrência média caiu de cinco candidatos por vaga em 2024 para apenas 2,4 em 2025. Em áreas tradicionalmente disputadas, o baque foi ainda mais visível: as inscrições para os cursos de Música Popular despencaram de 523, em 2024, para 271 no ano seguinte, uma redução pela metade após a exclusão de candidatos com mais de 25 anos.
O curso de canto popular, que tinha 64 candidatos para uma vaga em 2024, chegou a 2025 com lugar sobrando por falta de concorrentes qualificados.
Além da formação em música, que responde por quase 80% das vagas disponíveis, o Conservatório de Tatuí oferece cursos de artes cênicas, luthieria, além de educação musical para professores e uma série de cursos livres de curta duração. Estes últimos não sofreram o corte etário.
O grêmio ressalta que os cursos regulares, que duram de cinco a nove anos, fizeram do Conservatório de Tatuí uma referência nacional, “reconhecida pela diversidade de idades, origens e trajetórias de seus alunos, um modelo que hoje se encontra ameaçado”.
A Secretaria da Cultura, Economia e Indústria Criativas do Estado e a Sustenidos, organização que gere o Conservatório, defendem o limite de idade como estratégia para “fortalecer a profissionalização de jovens artistas”.
O embate chega à Assembleia Legislativa de São Paulo. Em 9 de dezembro, a Comissão de Educação e Cultura realiza uma audiência para discutir a situação do Conservatório de Tatuí.
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