Augusto Diniz | Música brasileira
Jornalista há 25 anos, Augusto Diniz foi produtor musical e escreve sobre música desde 2014.
Augusto Diniz | Música brasileira
Rapper paranaense que enfrentou o ‘corre’ para viver de música em São Paulo lança segundo EP
Janvi falou a CartaCapital sobre periferia, skate e o caminho até se firmar na cena paulistana. ‘Fiquei dois anos sem geladeira em casa’
A rapper paranaense Janvi saiu de Foz do Iguaçu rumo a São Paulo em 2022. A primeira tentativa, porém, durou sete meses: depois de morar em Heliópolis, ela sentiu que ainda não tinha a estrutura necessária para avançar no rap e voltou à cidade natal. Tempos depois, retornou à capital paulista. Desta vez, conseguiu se estabelecer — ainda que o preço da aposta tenha sido alto.
“Fiquei dois anos sem geladeira em casa”, conta.
Após lançar o álbum de estreia, Vemser, Janvi apresenta agora seu segundo trabalho: o EP Num Riste. A trajetória, diz ela, é atravessada por esforço e persistência. “A minha vida sempre foi uma luta. Venho de uma periferia onde minha mãe dava aula em escola pública”, conta.
Janvi começou a se aproximar do hip hop ainda adolescente, em Foz do Iguaçu. “Os movimentos eram bem marginalizados, mas eu participava de batalha de rima”, recorda. Entre o skate e a escrita, passou a transformar poemas em versos de rap.
“Eu compartilhava as letras com meus amigos, mas não me via como artista. Não imaginava que um dia poderia viver disso”, diz. A decisão de se assumir rapper veio apenas depois da mudança para São Paulo. “Ainda estou tentando fazer dar certo”, reconhece.
Os dois trabalhos lançados até aqui percorrem temas como desejo, amadurecimento e autoafirmação, embalados pela cadência clássica do boom bap. Em Conselho, faixa de Vemser, Janvi transforma a busca por autonomia em recado para outras mulheres:
“Se eu pudesse te dar um conselho, mana, não olhe pra trás / Quanto maior o sonho, com certeza corre mais.”
“Essa música é muito importante para mim. É para dar força para outras mulheres, como se eu estivesse escrevendo para mim mesma”, afirma.
Em Vemser, as letras se concentram no amadurecimento da artista, da infância à vida adulta. Já em Num Riste, Janvi volta o olhar para suas vivências no hip hop. No novo projeto, ela trabalha com o produtor Vitorvulgo, cuja relação com o jazz atravessa as batidas e acrescenta referências à música negra norte-americana.
No início do ano, Janvi organizou um curso gratuito e online de hip hop voltado exclusivamente para mulheres. A iniciativa nasceu do desejo de ampliar a presença feminina no movimento.
“Muita gente que faz música sonha em se projetar nos palcos. Quando penso na minha arte, seja através do skate, do hip hop ou da música, penso em como posso me sentir útil”, explica.
Em Foz do Iguaçu, ela diz que não encontrou estrutura para desenvolver sua relação com o hip hop. “Me sentia uma alienígena”, resume. A chegada a São Paulo, por outro lado, despertou outra pergunta: como abrir espaço para que mais mulheres também pudessem criar e ocupar a cena?
“Vi o curso como uma forma de incentivar as mulheres”, diz.
Assista à entrevista de Janvi para a CartaCapital.
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